
(Imagem: Gustavo Sobral/Arquivo pessoal)
Joan Didion (1934-2021) foi jornalista. Reportagens, ensaios e resenhas formaram seu repertório profissional. Na sua conta também há romances e os roteiros para o cinema escritos em parceria com o marido, o escritor e jornalista Gregory Dunne.
Uma história que começa vencendo um concurso de redação promovido pela Vogue em 1956. Um primeiro e único emprego com carteira assinada e a mudança para Nova Iorque. Tinha 22 anos e a primeira matéria para a revista já mostrou ao mundo quem ela era.
O artigo já tinha título e já estava na chamada de capa, mas o redator não entregou e sobrou para Didion. Ela teve de escrever e foi um sucesso, porque ninguém escrevia daquele jeito:
Autoestima
Sua origem, seu poder
Por Joan Didion
Certa vez, em uma estação seca, escrevi em letras grandes em duas páginas de um caderno que a inocência termina quando alguém é despojado da ilusão de que…
A Vogue foi o ponto de partida para colaborar com outras publicações. The Saturday Evening Post, Life, Esquire e, inclusive, a The New York Review of Books, na qual chegou para escrever sobre política quando precisava mudar de direção.
Aos 27 anos, casada, cansada de NY, foi para a Califórnia passar uma temporada que virou uma vida inteira. Era 1965. Aquele pouso se tornou então o ponto de embarque para qualquer lugar onde quisesse estar para apurar e depois escrever.
Sentar e observar o que as pessoas faziam era o método. Ela não gostava de fazer perguntas. Assim, escreveu sobre Jim Morrison e sentiu que ali estava vivendo algo importante e que era sobre isso que precisava escrever. Ela precisava escrever sobre a história do seu tempo.
O reduzido espaço da coluna “Points West”, que dividiu com Dunne na revista The Saturday Evening Post, entre 1964 e 1969, foi o exercício de síntese que precisava para aprender a dizer com pouco o tanto que precisava dizer. E seguiu fazendo anotações e gravando conversas.
E muita coisa do que escreveu virou livro. Tudo começa com “Rastejando até Belém”, publicado em 1968; seguido de “O Álbum Branco”, em 1979, e depois vieram tantos outros, inclusive, os seus premiados livros de memórias. Joan Didion foi brilhante.
Ela estava reportando o que via e vivia. Ela estava no olho do furacão daqueles tempos turbulentos na América, assassinato de Kennedy, a rebeldia juvenil, as drogas, o caso Manson.
The New York Times
Rastejando até Belém. By Joan Didion. 238 pp. New York: Farrar, Straus & Giroux. $4.95.
Por Dan Wakefield
Julho 21, 1968
(…) “Caminhando em direção a Belém” reúne alguns dos melhores artigos publicados por qualquer pessoa neste país nos últimos anos. Agora que Truman Capote declarou que tal trabalho pode alcançar o status de “arte”, talvez seja possível que esta coleção seja reconhecida como deveria: não como um exemplo melhor ou pior do que algumas pessoas chamam de “mero jornalismo”, mas como uma rica demonstração de algumas das melhores prosas escritas hoje neste país.
Embora não seja tão difícil de interpretar quanto Susan Sontag, nem tão facilmente digerível quanto Theodore White (o autor de “A Elaboração de Presidentes”), Miss Didion certamente merece um público amplo entre os leitores que ainda se sentem atraídos por qualidades como graça, sofisticação, nuances, ironia e, como Miss Didion observou em outro contexto, “o que costumava ser chamado de caráter”.
Ao que parece Didion contou com publicações que respeitavam o seu estilo. Ela escreveu que o The Saturday Evening Post foi “extremamente receptivo ao que escritor quer fazer, paga suficientemente bem para que ele possa fazê-lo e é cuidadoso para não mudar o texto inicial”.
Depois do Álbum Branco, ela queria mudar. O editor Robert Silvers (The New York Review of Books), que gostou do tom inovador, vasta cultura e perspicácia de Didion, sabia que aquele olhar poderia ter muito a dizer sobre a política doméstica.
O resultado de tudo isso não foi só a construção de um olhar aguçado e próprio sobre o seu tempo e sobre si mesma, mas de uma histórica crítica, analítica e pessoal dos Estados Unidos do século XX e tudo isso sob a forma de jornalismo.
Onde quer que fosse, ela contaria o que viu e viveu. Uma mistura de reportagem e ensaio que mapeou os acontecimentos no calor do momento. E, nesse processo, parecer invisível era a tática e o contrário acontecia na escrita. E depois revelaria: “todos foram difíceis e tomaram mais tempo do que talvez mereceram”.
Formada em Literatura Inglesa pela Universidade de Berkeley, ali ela aprendeu a examinar jornais e documentos em busca de notícias e assunto para as suas reportagens. Não foi à toa que foi chamada de primeira-dama do jornalismo americano e que também foi enquadrada na turma do New Journalism.
O leitmotiv do seu jornalismo foi justamente entender que jornalismo é também algo pessoal. Ela acreditava, diz Hilton Als, que “a verdade é provisória e que a única coisa que a garante é quem você é no momento em que escreveu isso ou aquilo, e que as suas alegrias, os seus vieses e preconceitos também fazem parte da escrita”.
Escrever sobre o outro foi também escrever sobre si mesma, pois o jornalismo de Didion se fez na perspectiva de quem o faz. Um jornalismo presente e do tempo presente. E foi assim desde o princípio, desde a primeira linha que escreveu para a Vogue até o ponto final da última reportagem.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
