
(Imagem: Quem lê tanta notícia – Carlos Dias)
O livro de Carlos Dias “Quem lê tanta notícia: a dor e a delícia de fazer jornalismo”, lançado no início de março em São Paulo, deveria ter nascido anos atrás. Não deu certo a campanha de vaquinha online – e ainda bem. O livro cresceu de lá para cá, ganhou novos capítulos e se transformou numa apaixonada declaração de amor ao jornalismo.
Dias ocupou importantes cargos em alguns dos mais importantes veículos brasileiros, como Jornal da Tarde, Veja e Estadão. Em 1994, quando estava no “Jotatê”, foi involuntariamente feito notícia ao ser falsamente acusado, pela PM de São Paulo, de tentativa de um homicídio que sequer ocorrera. No livro, o jornalista – atualmente trabalhando no Valor Econômico – mostra como o episódio e a sua cobertura pela imprensa fizeram com que ele enxergasse a profissão com outros olhos: os de quem está atrás de um pelotão de fuzilamento.
Apesar da crueza do fato e do relato doído, “Quem lê” é um prazer de leitura do começo ao fim. Mistura divertidos e emocionantes relatos do Carlos Dias jornalista – geralmente em coberturas internacionais, marca de sua carreira – com dicas do Carlos Dias professor. Ao apresentar seu próprio “guru”, o jornalista Ulisses Alves de Souza (1933-2011), Dias se torna, ele mesmo, mestre conselheiro ao falar de ética, humildade e humanidade no jornalismo com a naturalidade e a sabedoria de quem faz o que ele fez por quatro décadas.
É leitura altamente aconselhada aos jovens futuros jornalistas, que escolhem a profissão e precisam saber equilibrar o pretenso glamour com a enorme responsabilidade social: Dias ajuda na tarefa que é reconhecidamente difícil.
O destaque do livro ficou, para mim, no capítulo sobre a cobertura que ele fez, em fevereiro de 1990, da libertação de Nelson Mandela, na África do Sul do apartheid. Entre aventurar-se num país sobre o qual tinha imagem diferente da que encontraria no terreno, perder-se sem documentos e sem idioma e apertar as mãos de Mandela – que ele não conseguiu entrevistar por pouco – a história é saborosa. Já seria sem o detalhe de que Dias é repórter negro.
Declarações de amor costumam ser intensas e chegam em rompantes. No caso de “Quem lê”, entre o amor que ele não esconde e o ressentimento que deixa claro, Carlos Dias ajuda o leitor a também se apaixonar (ou a apaixonar-se mais ainda) pela profissão. Em tempos de descrédito e desalento, é um enorme serviço ao jornalismo.
É leitura aconselhada a todos, dos veteranos jornalistas já afastados aos que ainda batalham pautas, e também a todos que se interessam pelo papel da imprensa na sociedade. Ou mesmo para quem quer conhecer um bocado da história mundial recente pelos olhos de quem a viu em primeira mão.
***
Gabriel Toueg é jornalista com mais de 25 anos de carreira, mestre em Comunicação e Cultura, foi correspondente internacional no Oriente Médio e editor de Internacional de veículos brasileiros e estrangeiros, é palestrante, pesquisador e investiga, desde 2012, o tráfico de bebês para adoções ilegais (gtoueg.jor@gmail.com; gabrieltoueg.com.br)
