Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Alfredo Sirkis: uma vida em defesa da vida

(Foto: Gustavo Lima/Câmara dos Deputados)

A imagem cristalizou desde que soube do seu carro estraçalhado num poste: Alfredo Sirkis de pé sobre a mesa da redação da Veja na sucursal do Rio fazendo um comício acalorado para os colegas. Ele contestava as regras de funcionamento da revista e resolveu reagir no momento em que deixava o emprego. Eram os anos 80, ele voltava de um exílio de oito anos e muitos comícios. Contava como escapou do golpe no Chile, no trabalho de estivador na Suécia, da sobrevivência pelo jornalismo na França e em Portugal onde deixou saudades como “Marcelo Dias”, um dos pseudônimos adotados lá fora.

As outras conversas eram sempre sobre política e ele tinha histórias. Fazia política desde os tempos de movimento estudantil no Colégio de Aplicação. No golpe de 1964 tinha 14 anos mas frequentou passeatas como a dos 100 mil em junho de 1968 e, aos 17 anos, resolveu entrar para a luta armada.

Estava longe de ser um terrorista sanguinário como pintava o regime. Sirkis era engraçado, pândego mesmo, tão humano que participou dos sequestros do embaixador alemão, Ludwig von Holleben, e do suíço Giovanni Bucher, seguro de que não conseguiria executar com sua krupskaia [apelido inspirado na companheira de Lenin da metralhadora soviética que utilizava] nenhum dos dois caso o governo não soltasse os presos em troca. Foram 40 no caso do alemão, 70 pelo suíço a quem se afeiçoou tanto que deu de presente um disco de Joan Baez.

Ele pertencia ao movimento da Vanguarda Popular Revolucionária e conversou com o líder do movimento sobre sua decisão de abandonar tudo e deixar o país, Carlos Lamarca o apoiou.

Quando integrou a redação da revista Veja na sucursal carioca, Sirkis tinha acabado de lançar Os Carbonários, que levou o Jabuti de 1981. Ali, avaliava os erros da luta armada por estar desconectada da base popular e os acertos utópicos da nossa geração. Sempre reafirmando sua vocação pacifista. Era um colega e tanto. “Não me orgulho, nem me envergonho”, escreveu na 14ª edição do livro Os Carbonários, um best-seller.

Entre tantos que morreram na tortura ou sob o rótulo de “desaparecidos”, e foram executados na volta do exílio, Sirkis retornou em 1979 com a lei da Anistia e juntou-se aos sobreviventes como Cid e César Benjamin ou Daniel Aarão Reis, todos atuando por um Brasil melhor até hoje. Lamarca não teve o mesmo final, executado junto com a companheira, Iara Iavelberg, na Bahia no ano em que Sirkis deixou o país em 1971.

Foi em busca da democracia e de um Brasil mais humano que ele dedicou o resto da vida à defesa do Meio Ambiente, mordido, como ele dizia ter sido, depois de assistir uma palestra de uma líder esquimó sobre o derretimento do gelo. Se até lá existe essa preocupação, por que não no Brasil? O ambientalismo não era um problema da humanidade. Era “o” problema.

Foi um dos fundadores do Partido Verde, que presidiu mas abandonou ao dizer que tinha sido transformado em “puteiro pelos parasitas”. Participou de várias convenções sobre mudanças climáticas, de Bali a Durban, elaborou leis como a lei Sirkis que viabilizou o Fórum Global na Rio 92. Foi Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima e diretor executivo do Centro Brasil no Clima.

Foi o vereador mais votado quatro vezes no Rio, secretário municipal de meio ambiente entre 1993 e 1996, deputado federal de 2011 a 2015. Resolveu não se recandidatar em 2014. Estava famoso pelas campanhas que fez enterrado na areia da praia até a cabeça, sufocado pela poluição, tomando banho para alegar que no Rio só existem dois tipos de água – a poluída e a que falta, entrando num dos buracos de esgoto da cidade, correndo da polícia ou acendendo um fósforo contra o desmatamento da Amazonia.

Suas aparições públicas eram um show e chamavam atenção para a causa ambiental. Quando defendeu um transporte menos poluente, sua obsessão, inventou uma viagem de catmarã da Praça XV à Barra, no qual todos os convidados importantes passaram mal, incluindo Gilberto Gil que foi presidente da Fundação Onda Azul enquanto ele era vice, de 1997 a 2001.

Este era o Sirkis, que numa conversa com Bolsonaro, muito antes de se tornar presidente, questionou o capitão que apontava a superpopulação como o mal maior do Brasil. E Sirkis, “Olha só, Jair, você acabou de dar um excelente argumento a favor do casamento gay”. Dizia que Bolsonaro odiava o meio ambiente, os ecologistas, e se identificava com os grileiros e o garimpo ilegal. “Ele tem alma de Bandeirante, naqueles que entram na mata para procurar pedra preciosa e matar índio”.

Carluxo aproveitou para fazer uma gozação no twitter no dia da sua morte, ridicularizando o ambientalista na série “ódio do bem”.

Não foi à toa que no último dos 10 livros que Sirkis deixou, Descarbonários, ele faz um duro ataque a Bolsonaro e ao regime. E relata, junto com o descalabro ambiental, que se não nos cuidarmos a natureza seguirá em frente e quem vai estar em extinção no futuro próximo é a raça humana. “Quem está seriamente ameaçado é homo sapiens, habitante do planeta”. Nossa sina seria similar a dos dinossauros.

Sirkis sai da vida aos 69 anos de pé, sobre a mesa, como a imagem que cristalizei.

Texto publicado originalmente no site da ABI.

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Norma Couri é jornalista.