Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Nirlando Beirão: jornalismo na veia

(Foto: Reprodução Youtube)

Reproduzimos, abaixo, parte do texto escrito pela jornalista Norma Couri para o Observatório da Imprensa, em 2 de julho de 2019, que propunha “três saídas para o jornalismo”. Uma delas fala sobre o livro Meus começos e meu fim, de Nirlando Beirão, então recém-publicado. Nirlando faleceu em São Paulo, em 30 de abril de 2020.

Nirlando Beirão escreveu um dos melhores livros lançados recentemente no Brasil, Meus começos e meu fim (Companhia das Letras). Jornalista de peso, ele conta que foi seduzido pela profissão “pela mais frívola das razões: a vaidade”. E fez o caminho de todo jornalista que se preza, “daí em diante transitei por toda publicação que se possa imaginar”, lastimando o fim de algumas em que trabalhou. O primeiro emprego em 1967, Última Hora, depois Jornal da Tarde, O Jornal, Jornal da República, Senhor, Bravo, República, Wish Report… também as revistas Veja e Playboy, onde fui sua colega.

Ele ensina: “o leitor tem toda a razão em ignorar o trombetear enfatuado de um editorial que pretende endireitar o mundo e repreender a humanidade. Adoro o jornalismo tido como desimportante, o jornalismo pop, das franjas, da periferia, que é de fato o que retrata nossa época. Um jornalismo que não amordace o sentimento de quem o faz”.

Nirlando conta a frustração de tentar em Paris, com amigos, entrevistar Samuel Beckett, e, bem mais tarde, a indignação cívica que tomou conta dele quando os parlamentares votaram “em nome de Deus” pelo impeachment de Dilma, quando ele então recorreu à velha máxima “graças a Deus, sou ateu”.

Ateu, mas seus começos têm a ver com o avô Beirão, padre português que veio para Minas Gerais, onde foi pároco em Oliveira e se apaixonou pela jovem Esméria Miranda, sua avó. O casal fugiu, marcando o escândalo-mor da aldeola pacata – um tabu na família. Nirlando só descobriu o “pecado” muito mais tarde. “O padre e a moça romperam o lacre da hipocrisia.”

E seu fim? O “fim” do título tem a ver com a doença que descobriu em 2016, aos 67 anos: ELA, esclerose lateral amiotrófica, que está, como ele diz, enguiçando seu corpo, forçando a moradia no “país da doença” povoado por homens de branco, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas. “Degenerativa é a palavra que tira você para dançar – uma dança de medo”. Passou pela surpresa de ser, de repente, não apenas o jornalista que chega, mas o “cadeirante” que, na informação do motorista de táxi na entrada de um estádio de futebol, funciona como um abracadabra.

O bom humor de Nirlando entremeia a dor, chamando o andador de “minha Ferrari”, a cadeira de rodas elétrica de “minha viatura”, percorrendo a memória pelos bons livros que leu. “Ah! Tem um Salman Rushdie pela metade, que eu vinha trilhando antes, desde o tempo da normalidade, um Ian McEwan que me decepcionou mas do qual ainda não desisti…e aquele Orientalismo do palestino Edward Said, bíblia de tolerância e erudição que sempre tenho em mente reler, seja quando for”.

Nirlando fala da doença com naturalidade, os tremeliques por baixo da pele que visam bombardear o tônus muscular. E usa a ironia sempre que pode, como a piada que fez quando foi informado da fatalidade progressiva: “vou ficar como o [Stephen] Hawking só que sem saber nada de física nem de matemática”. Usou um vidro de cotonete como ampulheta, apostando que, quando os cotonetes acabassem, ele também acabaria.

Vai relatando a infância com os irmãos, a adolescência, as coberturas jornalísticas, o cotidiano de antes e depois, a perda gradativa das palavras, “a língua pesa duas toneladas”, e a covardia diante da mão que virou garra e da outra que, sobrecarregada, emite alertas.

E por que o excelente livro do Nirlando entrou aqui como uma segunda saída para o jornalismo? Porque é com essa mão direita, “o único ítem da minha anatomia que não me traiu”, que ele escreve os artigos alentados na Carta Capital toda semana, além deste livro (é autor de vários outros). Ele sabe que “o ponto final está me aguardando, com ansiedade justificada”. Mas parar de escrever será “a mais fatal das minhas perdas, pior que a capacidade de amar”.

Este é o jornalista Nirlando Beirão, que relata os sonhos em que caminha alegremente pelas próprias pernas até que duvida e cai da bicicleta. E confessa: “tenho medo”. Mas segue citando a morte assistida da escritora francesa Anne Bert, que foi se matar na Bélgica (a França proíbe morte assistida) porque tinha ELA. “Vocês já ouviram falar aqui – ELA é minha companheira”. A curiosidade de Nirlando é saber como Anne conseguia escrever no final. Ditava? “Ou os dedos ainda tinham o poder de deslizar pelo teclado ardiloso?” Prefere pensar como Camus, “se há um problema filosófico realmente sério é o suicídio”. Logo conserta, “a ansiedade da sina degenerativa me faz pensar na minha – perdoem a insolência – posteridade…que legado terei deixado?”

No jornalismo, já deixou um belo legado. Desde que o livro saiu, Nirlando recebeu três críticas. Foi chamado de “craque, gênio” por Helio Gurovitz na Época, de “sujeito encantador, bon vivant elegante que se deslocava pela boemia jornalística com brilho e afabilidade” por Ivan Martins no Valor e seu livro foi considerado “no mínimo uma aula de como escrever bem” na opinião de Naief Haddad, da Folha. Ele se abriu sem rodeios na entrevista de quatro páginas na Carta Capital, “A literatura ou a vida”, onde relata essas memórias, à beira do abismo.

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Norma Couri é jornalista.