
(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)
“Chuva alaga a cidade”, “Excesso de chuva prejudica a safra”, “Onda de calor causa mortes na Europa”. Pelas manchetes o clima parece ser um grande vilão do nosso tempo. Muito se fala do clima e pouco das mudanças climáticas e das medidas necessárias de mitigação. Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) reconhece, pela primeira vez, que o aumento da temperatura média global deve ultrapassar o limite de 1,5°C nos próximos anos. O valor, estabelecido como referência pelo Acordo de Paris, foi definido como um limite importante para reduzir os riscos mais graves das mudanças climáticas.
Isso significa um planeta mais exposto a ondas de calor, secas, incêndios florestais, chuvas intensas e inundações. Os impactos atingem diretamente a saúde, a produção de alimentos, os ecossistemas e as economias, afetando de maneira ainda mais intensa países e populações mais vulneráveis. Em contextos marcados por fragilidade institucional, degradação ambiental e recorrência de eventos extremos, desastres de diferentes naturezas tendem a produzir impactos mais severos e duradouros.
Edgard Morin, conhecido como o filósofo da complexidade e que faleceu em maio deste ano, foi o primeiro a registrar a expressão policrises, em 1990, no entanto, o termo adentrou recentemente nas áreas de comunicação, especialmente para subsidiar as análises de crises dentro das comunicações internas e gestão delas. A definição original que falava sobre as “inter-retro-ações entre os diferentes problemas, as diferentes crises, as diferentes ameaças”, foi atualizada e hoje existem sites especializados, como o Polycrisis.org, que busca subsidiar formadores de opinião e gestores para a compreensão dos problemas complexos.
No tema climático/ambiental/social, o mundo enfrenta, há anos, episódios cada vez mais intensos de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos de terra, além de secas prolongadas que comprometem a produção agrícola, a segurança hídrica e a geração de energia. Paralelamente, processos de degradação ambiental, como o avanço da mineração ilegal na Amazônia e os casos de petróleo, aprofundam a pressão sobre ecossistemas e populações locais. Isso significa que os impactos causados são agravados por fatores sociais, econômicos e estruturais, como a precariedade urbana, a fragilidade da infraestrutura e a limitada capacidade de resposta estatal.
Isso afeta diretamente as pautas de “cidades”, porque fazer essa conexão é fundamental. A pauta socioambiental deixa de ser um nicho, uma área especializada, trazendo mais complexidade para dentro das coberturas diárias. Ainda que veículos especializados possam se dedicar, e alguns consigam fazer as interconexões dentro dos diversos temas, lidam com a pressão oriunda de recursos financeiros escassos, disputa por ineditismo e pressão das redes sociais, que centralizam os acessos no ambiente digital.
Quando pensamos em cobertura, hoje, é preciso levar em conta o cenário de múltiplos fatores e múltiplos agentes para reforçar a compreensão da necessidade de fortalecer a resiliência das sociedades diante da sobreposição de riscos. Em um mundo marcado pelo agravamento da crise climática, a adaptação deixou de ser apenas uma estratégia para enfrentar eventos meteorológicos extremos e passou a representar um esforço mais amplo de preparação, proteção e recuperação diante de desastres cada vez mais complexos e interconectados. E isso é política pública, gestão pública, pauta central do jornalismo.
Sem essa compreensão, a cobertura da imprensa descumpre um papel fundamental de cobertura de interesse social, de capacidade de analisar políticas públicas e demandar respostas dos responsáveis. Sem essa compreensão, os excessos de chuvas continuarão sendo noticiados como se a chuva fosse a causadora das enchentes nas cidades ao invés de cobrar dos órgãos responsáveis soluções para eventos cada vez mais recorrentes. E se esse entendimento não alcança as redações, fica ainda mais desafiador para a sociedade de uma forma geral tê-lo.
O relatório do Pnuma, citado acima, reforça que ultrapassar 1,5°C não significa desistir da meta climática: é preciso reduzir as emissões o mais rápido possível para que o pico do aquecimento seja o menor e mais curto possível e, ao mesmo tempo, ampliar os investimentos em adaptação e reparação das perdas e danos.
Por isso, um cenário de multicrises exige multisoluções e capacidade jornalística de contar essas histórias. Em tempos de excesso de conteúdos e disputa por atenção, narrar o que acontece é insuficiente, é preciso saber fazer conexões para uma apuração propositiva, que tenha em si a compreensão de que políticas de resiliência climática e ambiental são cada vez mais urgentes e necessárias.
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Aldrey Riechel é jornalista com atuação em temas socioambientais. Possui bacharel em Comunicação Social e especialização em Mídia, Informação e Cultura (MIDCULT) pela USP. Cursando Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados na FGV.
Nicole Matos é jornalista, trabalha com temas socioambientais desde 2019. É graduada em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu (2017–2020) e possui MBA em Psicologia Organizacional e do Trabalho e Liderança Estratégica pela mesma instituição (2024).
