
(Foto: Beyza Kaplan/Pexels)
Escrevi um comentário para o objETHOS em 2020 falando sobre uma nova censura que já se mostrava bem presente no contexto nacional. Em 2020, as big techs já operavam para interferir no acesso às informações, definindo o que podia e o que não podia ser visto pelos usuários. Essa interferência das empresas de tecnologia foi significativa no processo eleitoral brasileiro de 2026, mas as denúncias sobre essa interferência, na sua grande maioria, chegaram tarde, o esquema de manipulação do acesso às informações já estava operando de forma significativa na vida e nas escolhas das pessoas. Nos últimos meses, observamos denúncias recorrentes sobre a queda no alcance de conteúdos relacionados ao campo progressista e postagens com acusações sobre candidatos e esquemas de corrupção sendo derrubadas. A censura privada operada pelas plataformas de redes sociais, em especial pela Meta, ganhou dimensões assustadoras. E, por mais que eu já soubesse disso em 2020, não canso de me perguntar como deixamos nossa comunicação ficar tão dependente dessas empresas: como nos tornamos pessoas tão plataformizáveis?
Faz algum tempo que o jornalismo independente vem denunciando as ações arbitrárias de empresas como Meta (dona do Instagram, Facebook e WhatsApp) e Alphabet Inc (dona do Google). Esse processo de plataformização das nossas vidas não foi ingênuo, nem espontâneo, ele foi construído com muito dinheiro e muita interferência política. Em 2025, a Agência Pública liderou a produção de uma série de reportagens investigativas sobre a Mão Invisível das Big Techs, denunciando a interferência dessas empresas na definição da legislação de países da América Latina, o que dificultou a regulação das suas atividades. Dentre as denúncias, destaca-se o encontro promovido no México por big techs com 15 congressistas da América Latina e seus executivos. Segundo a reportagem, após esse encontro, puderam ser observadas mudanças nas propostas dos congressistas participantes, como o caso da deputada Any Ortiz (Cidadania/RS), relatora de um Projeto de Lei (PL) sobre economia digital que, um mês depois do encontro no México, revisou sua proposta. Outros exemplos de lobby das big tecths são descritos na série de reportagens, tendendo para a falta de regulação sobre o uso dos dados dos usuários e para as interferências nas decisões sobre a implementação de leis. Como a Agência Pública destaca nesse especial, junto com outras organizações jornalísticas internacionais, as big techs “moldam as leis, cooptam governos e manipulam a opinião pública em benefício próprio”.
O impacto do aparato sociotécnico
De acordo com o painel interativo publicado pela investigação “Mão Invisível das Big Techs” sobre a influência dessas empresas: “são 2977 ações de influência entre 2012 e 2025, 801 projetos de lei e mais de 315 processos envolvendo empresas de tecnologia, governos, empresas ou cidadãos”. Dentre os onze países citados e o bloco da União Europeia, incluindo países da América Latina, o Canadá, a Austrália e a Indonésia, o Brasil é o país com maior quantidade de ações, somando 1.955. Entre os assuntos mais frequentes de ações de influência no Brasil estão: infraestrutura tecnológica, governo e políticas públicas, regulação de conteúdo e inteligência artificial. Essas ações, que acontecem desde 2012, interferem diretamente no acesso às informações e, com isso, na democracia. Sim, em 2012 esse cenário que presenciamos nas eleições de 2026 já estava sendo moldado, e provavelmente já vinha sendo idealizado bem antes.
Vale lembrar que, conforme o Digital News Report de 2026 apresenta, o acesso às notícias no Brasil ocorre majoritariamente através de plataformas de redes sociais, ou seja, mediada por algoritmos que não sabemos direito como funciona. Se, as pessoas se informam principalmente através das plataformas e as empresas que donas dessas plataformas estão definindo o que podemos ver a partir de seus interesses, então não temos transparência sobre quais informações estão sendo disponibilizadas e temos pouca autonomia na escolha sobre o que será debatido. Esse processo de delimitação de acesso interfere diretamente nas escolhas da população. Dentro desse argumento, é importante destacar que a regulação de conteúdo foi um dos principais enfoques das ações das big techs no Brasil, conforme apresentado anteriormente. As plataformas não tem uma preocupação ética sobre os conteúdos que as pessoas estão consumindo e como isso está impactando suas vidas, o que importa é o quanto estão lucrando e o poder econômico e político que estão consolidando. Para as big techs, funciona assim: não importa se as pessoas estão morrendo de sarampo por causa do movimento antivacina, o que importa é que estão acessando e compartilhando as postagens da plataforma.
Oligopólio digital privado
Quando denunciamos um conteúdo por desinformação, a plataforma pergunta se queremos bloquear ou restringir o perfil que fez a postagem, ou seja, a desinformação continua ali, publicada para outras pessoas acessarem e compartilharem. Somente quem optou por não ver mais o perfil, é que deixa de visualizar a desinformação. Assim, paramos de ver um conteúdo enganoso ou algo que está em desacordo com os nossos valores, mas ficamos sem saber o que pessoas com valores diferentes dos nossos estão consumindo. E, como se estivéssemos em uma estufa com ambiente controlado, não sabemos o que está acontecendo em outras estufas: não sabemos se estamos recebendo a luz e a umidade adequada, tampouco sabemos se nossas postagens estão tendo o mesmo alcance das outras estufas.
Em um contexto tão controlado por empresas privadas, iniciativas como a Ctrl-z e Sleeping Giants Brasil ganham importância. Essas organizações nos ajudam a questionar por qual motivo as publicações do deputado Nikolas Ferreira têm tanto alcance no Instagram, e encaminham esse questionamento judicialmente. Também ajudam a organizar protestos presenciais, como o que aconteceu na frente do prédio da Meta em São Paulo. Além de apontar o dedo para as ações descabidas das big techs, essas instituições ajudaram a mobilizar e implementar intervenções concretas de combate contra a forma de operar dessas empresas. Junto a isso, temos o trabalho fundamental do jornalismo independente no Brasil, que, muito antes do jornalismo dos grandes conglomerados, já denunciava os abusos e os artifícios utilizados pelas techs. Precisamos de organizações jornalísticas como Agência Pública, Núcleo, Agência Aos Fatos, Agência Lupa, dentre tantas outras que nos ajudam a visibilizar e a enfrentar o modo das big techs de operar com as informações.
Que as big techs operam com a manipulação algorítmica a gente já sabia, mas isso foi escancarado no período eleitoral de 2026, afetando principalmente os grupos minorizados, conforme é destacado pela Revista AzMina. É um problema complexo e para problemas complexos não existem soluções simples. Precisamos de uma legislação que proteja os cidadãos das ações predadoras das big techs, o que vai ser um desafio quando olhamos para o legislativo eleito que foi eleito em 2026, engendrado a partir dos interesses e benefícios das plataformas. Também precisamos de políticas públicas que nos ajudem a fomentar a análise crítica da mídia, contribuindo para um melhor entendimento sobre o funcionamento do algoritmo e sobre os conteúdos que estamos acessando. Precisamos, ainda, de desenvolvimento tecnológico e de recursos de tecnologia da informação para não dependermos do suporte das big techs. Para tanto, precisamos de pesquisa científica e tecnológica sobre o assunto, o que pode ajudar na definição de políticas públicas, no encaminhamento de pautas legislativas e na implementação de meios e ferramentas com mais autonomia. Talvez, assim, poderemos resgatar uma internet descentralizada e capaz de possibilitar o debate sobre temas essenciais para a humanidade, investindo em uma população menos plataformizável, mais bem informada e consciente de suas escolhas.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Sílvia Meirelles Leite é professora da UFPEL e pesquisadora do objETHOS
