
(Imagem gerada por IA por comandos dados pelo autor do artigo)
Leia também: Augusto Cury: direito de resposta a artigo publicado em 16 de julho de 2026
A coluna Painel da Folha de S. Paulo publicou recentemente que o candidato Augusto Cury (Avante) reclamou de pouca visibilidade na corrida presidencial.
Sua frustração faz sentido. Afinal, em diversas pesquisas, ele surge colado a Renan Santos, líder do MBL que aparece semana sim e semana também nos textos de Juliano Spyer na mesma Folha.
Particularmente, gostaria muito que ele recebesse todos os holofotes possíveis. Isso nos daria uma chance de ouro para desmontar vez tudo o que o coach vem falando há anos sem ser questionado como deveria.
São inúmeras inconsistências, que começam em seus títulos acadêmicos e terminam nas vendagens de livros, passando por teorias consagradas apenas por Augusto e seus seguidores.
Segundo seu perfil no Linkedin, Augusto Cury se formou na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP). Até aí, tudo certo.
Então, vem o festival de histórias contadas pela metade. Começa com uma pós-graduação na PUC-SP. Qual curso? Não sei. Qual foi o tema de sua dissertação? Continuo não sabendo.
Sua assessoria afirma também que Cury é “pós-graduado na Espanha”. Assim mesmo: “na Espanha”. Ponto.
Na sequência, vem o Centre Medical Marmottan, em Paris. Trata-se de um centro clínico dedicado a transtornos de saúde mental e, principalmente, reabilitação de viciados. A página na internet indica vários cursos para profissionais da área. O curioso é que, também neste caso, ele não diz em qual deles se formou.
Por último, temos a Florida Christian University, onde teria se tornado Doutor em Psicologia Multifocal. Mas como isso seria possível se esse conceito é dele e nenhuma instituição do mundo reconhece? Simples: seu diploma é de Administração de Empresas.
Não surpreende que, como psiquiatra, ele seja um eficiente vendedor. Uma de suas ideias mais repetidas, a tal Síndrome do Pensamento Acelerado não está registrada em qualquer outro lugar que não sejam seus livros. Não consta de absolutamente nenhuma publicação revisada por pares.
Infelizmente, muitos veículos da nossa imprensa continuam reproduzindo esse termo como se realmente fosse uma síndrome catalogada. Não espanta muito, já que o “diagnóstico” de transtorno do espectro autista do Messi nasceu aqui e se espalhou por anos.
Cury afirma também que desenvolveu seu próprio modelo terapêutico. Seria algo derivado da Psicologia Multifocal. Tá, mas quem minimamente referendou isso? Enquanto a psicanálise é escrutinada até hoje e a Terapia Cognitivo Comportamental se orgulha dos ótimos resultados em testes, Cury tem um método comprovado por ele mesmo.
Mas calma, que o mais assustador está por vir. Seu livro ‘Inteligência multifocal’ traz a seguinte aberração. Respira: “Muitos casos de doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive pacientes autistas, têm sido resolvidos”.
O que seria “resolver” o autismo? Curar? E resolver por quê? Pessoas que se enquadram no espectro autista são um problema a ser resolvido?
Para terminar, fiquemos com seus números no mercado literário. Augusto Cury diz que vendeu mais de 25 milhões de livros. Quando Paulo Coelho o desafiou a provar as vendagens, Cury, muito matreiro, respondeu que essa busca por números era sinal de uma sociedade doente por competição. Ah, meu amigo! Assim, até eu.
Pode parecer que esse é um tema menor nesta eleição. De fato é. Mas vivemos em um dos países que mais sofrem com questões de saúde mental, causando impactos na economia, na convivência entre famílias, no desenvolvimento de vícios e na sobrecarga de unidades de saúde.
Bater de frente com quem brinca (e lucra) com isso é dever do jornalismo. Fora que já vimos gente como Jordan Peterson surfar na fragilidade de pessoas com transtornos de saúde mental para espalhar ideias de extrema direita.
Nota da edição: este texto foi editado para incluir links com referência sobre as afirmações citadas pelo autor.
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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio, com especialização em macroeconomia conferida pela University of California, Irvine, através da plataforma Coursera. Ex-repórter do Grupo Globo, já publicou textos no jornal Extra, no Globo Online, CartaCapital e no Yahoo. Escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.
