Thursday, 07 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Gilberto Gil: o povo sabe o que quer…

Foto: Roberto Parizotti

Seriam as grandes manifestações tão esperadas para anunciar a próxima queda do presidente Bolsonaro. Seria o pretexto para se decretar uma inelegibilidade, tão logo fossem divulgadas as conclusões finais da CPI. Ou fariam Lira sair da letargia e colocar o impeachment na pauta da Câmara, sem risco de convulsão social.

Mas não foram. Faltou o povo, como bem assinalaram, cada um à sua maneira, três conhecidos jornalistas e comentaristas independentes. Kotscho foi o primeiro a tirar do seu balaio a constatação de que as manifestações antidemocráticas de Bolsonaro levaram mais gente às ruas do que a união de 20 partidos da oposição.

O solitário professor filósofo, Paulo Ghiraldelli, favorável ao impeachment, acha que o povo está cansado. Bolsonaro gastou os tubos esperando reunir um milhão de seguidores em Brasília e na Paulista, em São Paulo, suficientes para arrebentarem as portas do STF e levarem ao golpe. Mas apareceram só 10%, forçando um recuo de última hora e obrigando ao fiasco da carta de arrependimento e desculpas ao ministro Alexandre de Moraes. A oposição queria fazer melhor, também não conseguiu; teria havido uma retração dos antibolsonaristas por ser um protesto pré-preparado, não queriam ser também tratados como gado.

Celso Lungaretti, cuja irreverência no seu blog Náufrago da Utopia deve irritar a esquerda organizada, se mostrou pessimista e decepcionado com a “brava gente brasileira”, ausente das ruas mesmo diante das revelações das experiências secretas com cobaias humanas na CPI. Os “coitados e desgraçados” continuarão assim, impotentes para reagir. O recuo de Bolsonaro, deixando de lado a tentação do golpe e se re-centrando, poderá fazer a classe média deixá-lo no poder. Contra ele, só existe o risco de uma explosão social pelo aumento da miséria.

Mas é ainda, no Náufrago da Utopia, onde um jovem faz uma análise mais crua. David Emanuel Coelho constata o fracasso das manifestações em força e tamanho e indica um culpado: esse encolhimento é decorrente da esquerda institucional, o PT à frente, ter desmobilizado o impeachment. Evitando participar da luta, sem programa a defender, diante de um presidente incapaz, Lula utiliza o silêncio e espera chegar a época das eleições. Enquanto isso, costura alianças com o caciquismo emedebista, oculta o debate programático em nome da reconquista do poder.

Embora as sondagens de opinião mostrem um Bolsonaro incompetente desgastado, repetindo os absurdos e inverdades de sempre, reforçando sua imagem fascista, minimizando os 600 mil mortos, falando ainda em cloroquina e kit covid, sua reeleição não está descartada. Conta ainda com o apoio fiel, cego e decidido de um terço da população, fator inexplicavelmente negligenciado nas análises políticas. Esse apoio foi discretamente negociado, uns quatro anos antes das eleições, com líderes evangélicos conservadores, mas igualmente de extrema-direita, em nome do combate à corrupção e para se evitar uma fantasiosa comunistização do Brasil com o petismo.

Esse segmento se mantém vivo, apesar do encarecimento do custo de vida, porque existe uma ação constante de mútua ajuda e um doutrinamento bissemanal nas igrejas e congregações, para manter acesa a submissão dos fiéis. Chega-se ao absurdo de se louvar as agruras atuais da vida porque são um prenúncio do retorno de Cristo, anunciado no Apocalipse.

Aumento do preço da carne e do feijão, da luz e energia elétrica, da gasolina, do diesel, do gás engarrafado, falta de água provocada pelos desmatamentos e queimadas em todo o país (não só na Amazônia e Pantanal) praticamente autorizados, nada disso fará os fanáticos abandonarem o Messias Bolsonaro escolhido por Deus. Nesses momentos, a oração vale mais do que o feijão. Essa mudança de comportamento e de mentalidade dos pobres, num processo religioso de recolonização evangélica, vindo dos Estados Unidos, não pode ser ignorada desde já pela esquerda, pois será decisiva nas próximas eleições.

… Mas o povo também quer o que não sabe! (Gilberto Gil, REP)

Ninguém poderia imaginar que a Bíblia com sua aparência de inocente livro religioso de inspiradas histórias sagradas, escritas entre 1500 anos AC e 150 anos AD, mantido um tanto secreto por seu clero, durante o domínio da Igreja Católica e durante os anos de colonização portuguesa e espanhola na América Latina, se transformaria numa arma de subjugação e domínio político dos países latino-americanos, principalmente no Brasil.

Há cerca de 150 anos, as denominações protestantes norte-americanas criaram as missões de evangelização da América Latina, cristã, mas católica romana. Com a conquista luterana e calvinista do livre exame e livre interpretação da Bíblia, esses missionários tiveram, talvez sem se renderem conta, um importante papel no desenvolvimento cultural latino-americano, principalmente na questão da liberdade de expressão, do livre exame e da reforço do juízo crítico de tudo quando não era cristão e nem religioso.

Porém, o protestantismo não carregava consigo apenas esse aspecto positivo. Max Weber talvez não tenha sido o primeiro a ver, mas em 1904 publicou o primeiro livro estabelecendo relações entre o protestantismo e o capitalismo. E ficou impressionado com o desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos. Um tema como esse pode ser longo, por isso vamos direto à evolução do capitalismo ao imperialismo norte-americano.

Foi a descoberta da mina: a preocupação do espírito missionário, utilizado com o objetivo de salvar as almas dos pobres latino-americanos e expandir o conhecimento da doutrina e do reino de Deus, passou a ser utilizado pelos empresários da época para implantar produtos, empresas e o chamado “american way of life”. As crises internacionais e o surgimento do comunismo ateu vacinaram as igrejas protestantes contra tudo quanto cheirasse a doutrinas sociais marxistas, mesmo porque o cristão fiel, mesmo sendo pobre, irá ter uma vida plena e rica no Paraíso celestial.

No Brasil, quando se temia o trabalhismo de João Goulart, considerado comunistizante e socializante, as igrejas protestantes, também temerosas das doutrinas socialistas que chegavam aos jovens das igrejas urbanas, se uniram aos militares no Golpe de 1964. Papel de destaque teve a Igreja Presbiteriana, na qual se instalaram inquéritos contra os membros e pastores considerados próximos do comunismo. Houve uma grande limpeza. A Igreja Presbiteriana do Brasil era dirigida por um pastor que vivera alguns anos nos Estados Unidos, Boanerges Ribeiro.

Só depois do fim da Ditadura militar, em 1985, começaram a ser criadas comunidades evangélicas, a maioria dirigida por “pastores leigos” sem formação teológica em seminários. Saber falar em público e ter lido um pouco o Novo Testamento eram condições necessárias para “se pregar o Reino de Deus”. Criou-se assim uma espécie de evangelismo populista, as pregações bissemanais dependendo da formação básica do pastor leigo. Os fiéis pobres e sem cultura não eram exigentes, bastava-lhes a comunhão, estarem juntos com outros “irmãos” pobres.

Há alguns anos (vamos deixar agora de lado descrições das seitas que prosperaram e se enriqueceram), os líderes evangélicos descobriram que poderiam ter poder político, unindo-se com os representantes do povo, negociando apoio em troca de cargos e postos de importância. A vitória de Bolsonaro foi obtida nessa troca de favores. Num país de católicos, os evangélicos (muitos sem formação necessária) ganharam ministérios, secretarias e foram também eleitos deputados e senadores aproveitando a onda em favor de Bolsonaro.

Hoje, quando se fala em eleições de 2022, não se pode esquecer da força eleitoral dos evangélicos, enganada todo o tempo pelas fake news, ligada nas rádios e redes sociais bolsonaristas. Uma polarização Lula-Bolsonaro provocará campanhas de medo nas áreas evangélicas: será a implantação do comunismo no Brasil com o fechamento de igrejas. Alguns pastores ótimos em comunicação oral se encarregarão de aterrorizar seus seguidores.

E seja ou não reeleito Bolsonaro, algo já aconteceu: acabou o Brasil da cultura profana, da música, do samba, do Carnaval, tudo virou pecado. E voltamos, então, ao título “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”. Os evangélicos vieram para ficar e o Brasil já está mudando.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.