Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Golpe de Estado voltou às manchetes depois mais de meio século

(Foto: La Cola De Rata)

A manchete “Golpe de Estado” voltou com força às manchetes dos noticiários por conta do esculacho que o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), fez contra a Justiça Eleitoral e as urnas eletrônicas durante uma reunião com 40 embaixadores de diversos países na segunda-feira (17/07), no Palácio da Alvorada, em Brasília (DF). No dia seguinte, tive uma reunião virtual com jovens repórteres, que já estava agendada, de uma cidade do interior do Paraná. Um deles me fez uma pergunta simples e sincera sobre o que tinha acontecido em 1964. Uma explicação para quem não é jornalista. Por mais simples e óbvia que seja uma pergunta, o repórter não pode ter constrangimento de fazê-la. Porque na hora de redigir o texto, editar o vídeo ou o áudio, a resposta fará falta. Voltamos à nossa conversa. Conhecei a explicar a história de 64 assim.

Eu lembro. Tinha 14 anos e vivia em Encruzilhada do Sul, cidade na Serra do Sudeste, no interior gaúcho, onde a água congela nos canos durante o inverno. Eram os primeiros meses do ano e os jornais davam manchetes garrafais nas capas anunciando o golpe de estado que estava sendo articulado para derrubar o então presidente do Brasil, João Goulart, o Jango, do antigo PTB. Os jornais eram raros e escassos no interior. Os exemplares eram embarcados em Porto Alegre no porta-malas do Expresso Cometa, o ônibus do seu Belizário, como era conhecido. E chegavam a Encruzilhada no final da tarde. Eu era curioso e certo dia pedia para minha mãe, a Dona Loni, para me comprar um jornal. Horas depois, ela me entregou um exemplar do Correio do Povo, tradicional jornal gaúcho. Reclamei dizendo que o jornal era velho. Ela então perguntou: “Tu já leste?” Respondi que não. E ela acrescentou: “Então do que está reclamando? Tudo que tem aí e novidade para ti”.

Realmente, para mim era novidade, porque não existia a abundância de informações dos dias atuais. Dona Loni tinha um poder incrível de simplificar as coisas para explicá-las aos filhos. O golpe de estado acabou acontecendo e as Forças Armadas ficaram no poder até 1985, quando houve a redemocratização do país. Lá se foram 58 anos desde 1964. O fato é que essa não é primeira vez que um golpe de estado volta às manchetes no governo Bolsonaro, que começou em 2019. Foram muitas. Mas a da reunião dos embaixadores foi a mais espalhafatosa por envolver países de vários cantos do mundo. Claro, o presidente recebeu uma saraiva de críticas pelo que disse, inclusive do governo dos Estados Unidos. Foram os registros históricos e as informações do “Tio Google”, avisei aos colegas durante conversa online. Vou falar sobre a grande diferença entre o Brasil de 1964 e o de 2022. Lembram que, em 2018, um dos filhos do presidente da República, Eduardo Bolsonaro, deputado federal por São Paulo, disse que para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) bastava enviar para lá um jipe com um cabo e um soldado? Em 1964 não era tão simples assim. Mas bem mais fácil do que nos dias atuais. Vejamos: na época, o Brasil era um país rural. Para percorrer os 200 quilômetros entre Encruzilhada, onde eu morava, e Porto Alegre eram gastas seis ou sete longas horas de viagem por estradas de chão batido e mal conservadas.

Hoje está tudo asfaltado e se faz o percurso em duas horas. Mas o mais importante. As máquinas administrativas federal, estadual e municipal eram compostas por funcionários “QI”. O que isso significa? “Quem Indica”. Por serem mal organizadas, caras e com pouco acesso ao Judiciário federal e estadual, estavam a serviço de quem ocupava no governo. O Brasil só começou a profissionalizar a sua administração pública depois da Constituição de 1988, que regulamentou uma série de procedimentos, como os concursos públicos obrigatórios. Também estabeleceu a independência de funcionamento para o Ministério Público e outras instituições de estado, como as polícias federal (PF), civil e a militar. E, importante, a liberdade de imprensa. Essa foi uma das razões do golpe militar de 1964 ter tomado conta do país em menos de 24 horas. Bastou colocar tanques e soldados nas ruas e mandar empastelar alguns jornais para assumir o poder. Para quem não é jornalista velho como eu, empastelar significa destruir os equipamentos dos jornais.

Nos dias atuais, dar um golpe de estado não é impossível. Mas é bem mais complicado. Colocar tanques e tropas nas ruas é desperdício de dinheiro porque não funciona. Ainda mais em um país continental como o Brasil. Vários autores têm escrito que a tática é começar a tomar o poder por dentro do governo, destruindo os órgãos de fiscalização e colocando pessoas de sua confiança em postos-chave, como o de ministros do STF. Portanto, é uma tarefa que leva no mínimo dois ou três mandatos. Nenhuma democracia está a salvo de ser corroída por dentro. Por exemplo, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump (republicanos) não conseguiu se reeleger, perdendo para Joe Biden (democrata), mas fez nomeações para a Suprema Corte que derrubaram o direito constitucional que as americanas tinham desde 1973 de fazer aborto.

No Brasil, Bolsonaro nunca fez segredo que “quer os nossos” na STF. Hoje, os americanos voltaram a discutir a questão do aborto, que havia sido resolvida há 49 anos, e os brasileiros a lerem nos jornais sobre a ameaça de golpe militar, como aconteceu em 1964. No caso do Brasil, se Bolsonaro, os generais que ocupam cargos no governo federal e os parlamentares do Centrão tentarem dar um golpe vão acabar todos na cadeia. Por quê? O Brasil se profissionalizou. O jogo agora é o outro.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.