Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Pregadores da intolerância política vão dizer que seguiam ordens no caso de Foz?

(Foto: Geralt/Pixabay)

As pessoas não nascem intolerantes, elas são influenciadas para se tornarem.

O presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), é um mestre em tirar o corpo fora de situações que o comprometem e jogar o rolo no colo dos adversários e aliados políticos. Uma dessas situações é a maneira como ele e os seus estrategistas da campanha à reeleição estão conduzindo o caso do brutal assassinato de Marcelo Aloizio de Arruda, 50 anos, guarda municipal e tesoureiro municipal do Partido dos Trabalhadores (PT), ocorrida no final da noite de sábado (09/07), durante a sua festa de aniversário na sede da Associação Esportiva Saúde Física Itaipu, na Vila A, em Foz do Iguaçu (PR). A festa de Arruda tinha como tema o PT e foi invadida pelo bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranhos, agente penitenciário federal, gritando frases contra os petistas e disparando uma pistola. Arruda, que estava armado, reagiu e atirou no agente penitenciário. No início da madrugada de domingo (10/07), os dois foram levados para o Hospital Municipal. Arruda não resistiu aos ferimentos e morreu. Guaranhos seguia internado na quarta-feira (13/07) em estado grave – há uma abundância de vídeos e matérias disponíveis na internet.

Por tudo que já foi apurado, Arruda foi vítima de crime de intolerância política. Até o dia de ontem (12/07), o presidente Bolsonaro tinha se limitado a falar o óbvio sobre o episódio, as bobagens de sempre. Mas agora começou a pegar pesado, acusando a imprensa de estar “atirando a bronca no meu colo”. Ele exagerou. Vou explicar. Tive o cuidado de assistir, ler e ouvir os principais noticiários sobre o acontecimento. O foco da cobertura jornalística foi sobre a polarização da disputa entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) pela Presidência da República. Uma polarização que acabou beneficiando os dois candidatos por ter evitado o surgimento de um terceiro nome, a chamada terceira via que foi criada nas redações dos jornais. A polarização faz parte do jogo democrático. Não foi a polarização a responsável por Guaranhos ter entrado atirando na festa de aniversário de Arruda. Foi o ambiente tóxico criado nessa disputa pelo Gabinete do Ódio, comandado pelos três filhos parlamentares do presidente, Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo.

Eles operam uma máquina poderosa que espalha centenas de fakenews por minuto no país. Também foram as insistentes ameaças contra as urnas eletrônicas dos chamados Generais do Bolsonaro, grupo de militares que ocupam ministérios e outros postos importantes na administração federal. E, somado a esses dois fatores, as bravatas do presidente, ameaçando liderar um golpe militar, como aconteceu no Dia da Independência, no ano passado. Foi o clima criado por esses fatores que levaram Guaranhos a acreditar que tinha o dever de entrar atirando na festa de Arruda. A lista de bolsonaristas que tiveram a mesma crença que o agente penitenciário é longa, vou citar outros dois: o deputado federal pelo Rio de Janeiro Daniel Silveira, preso em 2021 depois de ameaçar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). E Marco Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, líder dos caminhoneiros, preso por convocar a população para atos violentos contra as instituições. A lista segue e é longa – há matéria sobre o assunto na internet.

Asituação que descrevi não tem um “colo”. Tem muitos “colos”. O rumo que o caso de Foz está tomando é preocupante. O presidente foi convencido pelo deputado federal Otoni de Paula (MDB-RJ) a conversar com dois irmãos do guarda municipal, Zé e Luiz Arruda, que são bolsonaristas. A conversa foi através de uma chamada de vídeo, que durou 13 minutos e nove segundos – está disponível na internet. E o seu conteúdo foi divulgado pelo deputado, que é pastor evangélico e declarou que foi enviado a Foz como mensageiro do presidente. Os irmãos foram convidados para ir a Brasília participar de uma entrevista coletiva para a imprensa. Eles não confirmaram se aceitarão o convite (13/07). Independentemente de aceitarem ou não, o fato do convite ter sido feito quebra todas as regras de bom senso na disputa política. Pela conversa, os irmãos da vítima são pessoas comuns que acabaram sendo atiradas no meio de um furacão. O deputado é muito mais que um mensageiro de Bolsonaro nessa história.

Ele ajudou a montar o roteiro preparado para os irmãos em Brasília. O papel deles nesse roteiro é serem usados como “bucha de canhão” no meio de uma disputa eleitoral e depois enviados de volta para Foz. Esse crime destroçou a família Arruda. A presença de Zé e Luiz em uma coletiva com a missão defender Bolsonaro dividirá a família em centenas de pedacinhos. Conheço Foz muito bem. Desde 1983, de dois em dois anos tenho ido para aqueles lados, escrevendo matérias e livros sobre migrações e crime organizado. Ela é a principal cidade da Tríplice Fronteira Paraguai, Argentina e Brasil. Ali vive gente vinda de todos os cantos do mundo e do Brasil. É um dos lugares mais violentos da América do Sul. Entre os jornalistas estrangeiros e brasileiros que perambulam por lá em busca de uma história para contar circula a brincadeira de dizer que Foz não tem briga de trânsito porque ninguém sabe com quem está discutindo. Em um ambiente desses, atirar irmão contra irmão pode ser complicado.

Oque existe de diferente na disputa eleitoral entre Lula e Bolsonaro não é a polarização. Isso já existiu antes entre outros candidatos e vai continuar existindo porque faz parte do jogo. O problema é que há mais de 6 mil militares ocupando cargos muito bem remunerados na administração pública. E não vão “soltar o osso” assim no mais.

Existem os parlamentares do Centrão que fazem parte do governo e têm ao seu dispor o chamado “Orçamento Secreto”, R$ 3,4 bilhões para serem usados em emendas parlamentares. Ou seja: os militares e os parlamentares do Centrão nunca tiveram tanto dinheiro ao seu dispor como têm nos dias atuais. Não estão com Bolsonaro por ideologia ou por outra razão que não seja o dinheiro. A morte de Arruda foi um efeito colateral dessa história. Se os seus irmãos forem envolvidos, ele será morto pela segunda vez.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.