Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Bernardo Ajzenberg

CRÍTICA DIÁRIA

"Crítica Interna", copyright Folha Online (www.folha.com.br)

"21/02/2002

Só o ?JB?, dentre os principais diários nacionais do país, não deu manchete hoje para a redução da taxa básica de juros. O assunto foi destacado pelos demais (Folha: ?Juros caem pela 1a vez em 13 meses?, Estado?: ?BC surpreende mercado e baixa juro para 18,75%?, ?Globo?: ?Juros caem após sete meses?). A prorrogação da CPMF, por sua vez, recebeu título de chamada em todas as capas desses jornais.

Juízes de Haia

O texto ?Juízes rejeitam prova e Milosevic obtém primeira vitória em Haia? (Mundo, pág. A12) traz notícia que, tendo em conta o notici&aacaacute;rio dos últimos dias, é surpreendente. Há uma interrogação que essa notícia renova: quem são os juízes de Haia? São nomeados por quem? Têm mandato com período estabelecido?

Surpresa ou não?

O abre da capa de Dinheiro (assunto da manchete do jornal), ?Juros caem pela primeira vez em 13 meses?, afirma que a decisão do Banco Central surpreendeu os analistas de mercado. A retranca que abre a pág. B3, no entanto, sob o título ?Para analistas, BC vê queda de inflação?, informa que ?o mercado financeiro esperava por uma queda dos juros agora?, conforme indica o comportamento do chamado mercado futuro de juros. São informações cujo desencontro cria margem para confusão na cabeça do leitor.

Visto para os EUA

O texto ?Argentinos perdem privilégio nos EUA e agora vão precisar do visto? (Dinheiro, pág. B6) noticia que o país vizinho já não integra a lista dos países cujos cidadãos podem entrar nos EUA livremente. OK. A dúvida é quanto à legenda da foto que mostra uma fila de cidadãos na porta da embaixada dos EUA em Buenos Aires. Ela afirma que eles estão ali ?para tentar escapar da exigência do visto?. Como assim? Não deu para entender.

Divergências

Pela implicação direta dos jornais no assunto, vale a pena registrar uma curiosa discrepância de dados. Todos noticiam que o governo vai preparar uma lei que deverá estimular o investimento em papel de imprensa. A divergência entre os textos está no percentual de papel que é importado para esse fim hoje em dia. A Folha, com ?Globo?, ?JB? e ?GM?, fala que ele representa 80% do total. O ?Valor? afirma que são 70%. ?Estado?: de 50 a 80%.

E o Cade?

A reação imediata que tive ao ler o texto ?Nestlé compra Garoto, diz sindicato? (Dinheiro,a pág. B12) foi: e o Cade? Pelo gráfico publicado no jornal, essa aquisição faria com que a Nestlé passasse a controlar quase 54% do mercado de chocolates do país. É possível? Não teria de haver uma autorização do governo? A reportagem não toca nesse aspecto fundamental.

Ações da Vale

Um leitor chama a atenção para a ausência de uma informação importante para quem pretende investir na compra de ações da Vale com o uso do FGTS: como e quando o rendimento poderá ser resgatado pelo trabalhador? O jornal traz hoje novamente reportagem sobre o assunto, mas não entra nesse aspecto.

BBB x Casa

Pareceu-me confusa a redação da nota ?Casa dos Artistas 2 bate Big Brother? (pág. C6). Afirma que no primeiro confronto direto o SBT levou a melhor (36 pontos de audiência contra 29 da Globo) mas que, ?na média total do horário? (de 21h11 a 21h44), a Globo levou a melhor? (com uma exata inversão de números). Como assim? Quem se saiu melhor, afinal? Faltou clareza.

Nova secretária

Há uma retranca que aborda o assunto (?Vereador ?rebelde? critica a escolha?, Cotidiano, pág. C6), mas me parece que a nomeação da nova secretária da Educação do município carece de um tratamento mais aprofundado em termos políticos pelo jornal. Eny Maia, irmão do prefeito do Rio, é filiada ao PMDB. Qual é a composição política do secretariado de Marta? Em que ela se altera com essa mudança? Mesmo que a alteração seja nula, ou mínima, é uma informação que o jornal deveria trazer para o leitor. A escolha foi mesmo meramente técnica? Se o foi, não havia mais gente capacitada e menos, digamos, politicamente ?complicada?? É óbvio que não estou me posicionando contra ou a favor, mas apenas indicando que é um assunto que o jornal deveria explorar, ainda mais no momento em que as alianças eleitorais começam a se costurar de modo aberto e conturbado.

20/02/2002

As proporções dramáticas da expansão da dengue e suas inevitáveis consequências políticas (além das relativas à saúde pública) têm levado os diários do Rio a dar manchetes constantemente ao assunto. Hoje: ?Globo?: ?Rio se mobiliza contra a epidemia de dengue?; ?JB?: ?Anarquia marca o combate à dengue?. Já o assunto dominante nos principais jornais paulistas hoje é o fim do racionamento de energia elétrica (Folha: ?Racionamento acaba em 1o de março?; ?Estado?: ?Governo encerra racionamento e contesta críticos?).

Primeira página

Parece-me tendenciosa a chamada ?Israel ataca QG de Arafat e mata pelo menos quatro?. Por que não se registram no título as seis mortes de israelenses ocorridas também ontem? Pode-se argumentar que a notícia principal talvez fosse o ataque ao QG de Arafat, já que as mortes, gostemos ou não, têm sido rotineiras. Nesse raciocínio, o título, creio, deveria registrar apenas o ataque ao QG. Discordo dele, porém, já que o dia de ontem, ali, não foi muito normal (ver a nota específica).

Escondida

Com o texto ?Promotoria pede dados sobre empresa de Maluf? (Brasil, pág. A8), a Folha, apesar do atraso, expõe a seus leitores a relação entre a participação de fundos do Deutsche Bank na Eucatex e o caso Jersey. Ficou, na verdade, muito difícil não fazê-lo depois da reportagem da ?Veja?. Deixou de registrar, porém, que foi o próprio jornal o veículo que primeiro levantou, ainda que parcialmente, essa participação _reivindicação de pioneirismo que não se deixa de fazer, no texto, quanto ao caso Jersey em si. Pode parecer picuinha, mas pergunto: será por falsa modéstia? Timidez? Ou será que o jornal não está querendo assumir de uma vez por todas a dianteira na apuração desse caso?

Oriente Médio

Assim como a chamada da capa é parcial, também o é o título do abre da pág. A12 (?Ataque palestino mata seis israelenses?). Na verdade, talvez a origem desses dois posicionamentos extremos seja o fato de que o jornal não conseguiu transmitir na edição de hoje, que o exigia, um quadro um pouco mais amplo (foram cerca de 20 mortes nos últimos dois dias, não é isso?) do que esteve acontecendo desde o fim de semana na região. O texto acaba ficando relatorial –uma sequência atentado-represália-atentado-represália–, numa contabilidade fria que a meu ver, para usar o jargão, mostra as árvores sem mostrar a floresta. Acho que principalmente o título e o lide do texto deveriam ter dado hoje mais atenção para o conjunto da situação.

Didatismo

O texto-legenda ?Polêmica? (Mundo, pág. A13) menciona o cineasta Costa-Gavras sem dizer nada a seu respeito (ao menos sua nacionalidade deveria estar registrada).

Racionamento

1) Não encontrei na Folha, tampouco nos outros jornais, um balanço a respeito dos cortes de luz efetuados por conta de estouros de meta reincidentes. Em reportagens de meses atrás esse número se mostrava reduzido. É um elemento, creio, relevante, para a avaliação dos diferentes aspectos do racionamento;

2) O gráfico que ilustra na capa de Dinheiro a economia de energia por classe de consumo ficaria bem mais interessante se mostrasse como andava esse consumo antes do racionamento e não apenas a partir de junho de 2001. Foi o que o ?Estado? fez, por exemplo, dando ao leitor uma dimensão mais ampla do impacto da economia de luz realizada.

Ações da Vale

A Folha informa que deve começar hoje a venda de ações da Vale do Rio Doce (Dinheiro, pág. B5), traz quadro de serviço, mas não informa nada sobre o prazo para a aquisição para os chamados ?investidores domésticos do varejo?, os trabalhadores. Este seria 15 de março, segundo o ?Globo?. Se essa informação é correta, revela-se uma lacuna importante no material da Folha sobre o assunto.

Contradições

1) A reportagem ?Iluminação volta ao normal em março? (Cotidiano, pág. C7) informa que ?o racionamento para consumidores residenciais e industriais deve terminar até o dia 28 de fevereiro?. Parece ter sido um texto escrito dias atrás, já que a manchete do jornal informa formalmente, ?oficialmente?, que o racionamento acaba no primeiro dia de março. Faltou comunicação/atualização;

2) Falha semelhante, embora com causa provavelmente diferente, acontece entre duas retrancas sobre dengue (pág. C9). O abre de página afirma que, ?segundo a Finasa, deverão ser 1.500 homens? (os membros deslocados pelo Exército e pela Marinha para auxiliar no combate à epidemia). A subretranca ?Total de mortes no Estado já supera o de 2001?, porém, é taxativa: ?…o Estado vai receber ajuda de mil homens do Exército e da Marinha…?. Teria valido uniformizar as informações.

Contestação

Recebo, via SR, a seguinte contestação do editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva, em relação à nota ?Linchamento?, da crítica interna de ontem:

?A Folha publicou na sua edição de domingo o abre da página 5 do caderno Brasil com o título ?Defesa usa 3 frentes para cassar ordem de prisão?. No dia seguinte, segunda-feira, o jornal publicou outro abre de página (A 4) em que o presidente do STF, ouvido por iniciativa da Folha, qualifica como ?presepada? a prisão de Jader, tal como foi efetuada pela PF. Além disso, na mesma página, outro título em três módulos acima da dobra diz: ?Sofri violência política?, diz Jader?. É só comparar o espaço dedicado pela Folha a notícias que resultam favoráveis a Jader com o que fez a concorrência para se concluir que não estamos fazendo linchamento nenhum, pelo contrário. Vale lembrar a respeito o terceiro editorial de hoje da Folha: ?Presepada de Carnaval?. Acrescento que estamos tentando desde ontem fazer uma entrevista exclusiva com o ex-senador para que ele possa externar seus pontos de vista. Também estamos em contato com os advogados do ex-senador a fim de que os argumentos da defesa possam ser confrontados com as respectivas acusações. Em resumo, a cobertura apresenta problemas e insuficiências, mas não há linchamento nenhum em curso nas páginas do jornal.?

Comento o seguinte: o que reclamei foi justamente o que está na edição de hoje do jornal: a defesa de Jader em relação às acusações que existem contra ele. Não me referi à questão da prisão. A Folha não precisava ter esperado sábado, domingo, segunda e terça para publicar algo que já constava de seu Banco de Dados.

19/02/2002

A presepada (palavra da moda) do governo federal no caso do aumento da gasolina é manchete na Folha (?FHC agora admite alta da gasolina?) e no ?Globo? (?Pedro Parente e Gros sabiam do aumento que FH vetou?). Creio que o assunto mais importante do dia, no entanto, foi a mobilização nos presídios, manchete no ?Estado? (?Onda de rebeliões e crimes do PCC deixa 17 mortos?) e no ?JB? (?PCC comanda mais uma rebelião?).

Linchamento

É impressionante o descaso da Folha com o ?outro lado? quando se trata de Jader Barbalho. Até agora, decorridos quatro edições desde a decretação da prisão preventiva do ex-senador, o jornal mostrou-se incapaz de apresentar um resumo que fosse da posição de defesa do político paraense em relação aos casos em que está envolvido. O abre da pág. A4 de hoje (?Jader insinua na TV que ACM pode tentar matá-lo?) não deve ser considerado como tal, já que se trata de uma afirmação, retórica, não-referente ao mérito das acusações. Diga-se de passagem, o jornal pronta e corretamente traz o ?outro lado? do ex-senador baiano.

Por falar em…

?outro lado?, é completamente desproporcional e cheio de ataques pessoais e escárnio o ?outro lado? do ex-secretário-geral da Presidência, EJ, no texto ?Ação pede quebra de sigilos de EJ? (Brasil, pág. A5). Ele exigia, por mais estranho que pareça, um ?outro lado? do procurador Luiz Francisco de Souza.

Cuidado

O sobrenome do governador do Rio é propenso a cacófatos indesejáveis. Foi o que ocorreu no título de ?PSB ratifiCA GArotinho em junho? (Brasil, pág. A8).

Didatismo

Não dá para entender o que vem a ser a tal ?doutrina da frustração?, mencionada na subretranca ?Medida não fere leis internacionais? (Mundo, pág. A10) por um professor da Universidade de Stanford ouvido pela Folha. Faltou, também, dar referência no tempo sobre a Guerra da Coréia, mencionada em ?Bush chega a Seul advertindo vizinho? (Mundo, pág. A10). Quem sabe quando foi essa guerra e seu armistício? Aliás, na legenda da foto que ilustra esse texto, em que o presidente dos EUA cumprimenta um lutador de sumô, era totalmente dispensável (e chega a ser engraçado) dizer que Bush é a pessoa ?à esq.?.

Desencontro

Afirma o texto ?Petrobras define política de preço, diz Gros? (Dinheiro, pág. B3), categoricamente, que o ministro José Jorge tinha sido encarregado, após reunião, de avisar Pedro Parente (Casa Civil) sobre o aumento da gasolina, mas não o fez. Já a subretranca ?Área técnica se esquece de avisar presidente? (mesma página) informa que o ministro das Minas e Energia afirma ter avisado Parente mas que o jornal não conseguiu confirmar com este a versão do colega. Ou seja: o tal curto-circuito não só se expressou no governo como apareceu, também, hoje, nas versões apresentadas pelo próprio jornal.

Banco francês?

A legenda da foto do abre da pág. B5 (Dinheiro) afirma que a janela atacada por um argentino é de um tal Banco Francês. Posso estar enganado, mas acho que a sigla BBVA, que aparece no vidro com nitidez, se refere a um banco de origem espanhola (Bilbao Viscaya…). Sugiro verificar, para eventual ERRAMOS.

Chamada

Creio que merecia chamada o abre da seção Agrofolha de hoje (?Brasil recorre à OMC contra soja dos EUA?, Dinheiro, pág. B18), sobre a decisão do governo brasileiro de entrar na OMC contra os subsídios agrícolas norte-americanos. Pode até virar apenas bravata, mas não deixa de ser uma decisão política importante.

Rebelião

Não identifiquei problemas maiores na cobertura da Folha, mas acho que o jornal perdeu a oportunidade de amarrar melhor os acontecimentos dos últimos dias nos presídios paulistas, a fim de refletir mais claramente a sua dramaticidade, como uma pequena onda de eventos e não casos isolados. Não por acaso, os demais jornais abriram com o total de 17 mortos, não apenas 7. Os números da Folha, a rigor, não são diferentes. Referem-se a mortes ocorridas ontem. Somando-se aqui e ali, desde domingo, se chega aos 17 mortos. Mas o conjunto não fez essa relação e, por isso, creio, ficou aquém do porte do evento.

Guga e Meligeni

Detalhe de acabamento: a retranca ?Meligeni vence e pode enfrentar amigo? (Esporte, pág. D4) trata Guga como ?companheiro de Copa Davis? de Meligeni. Como o próprio jornal afirma em outra retranca, Guga não atuou na Davis este ano. Seria, portanto, um ?ex-companheiro?, ao menos até que volte para a ?seleção?.

?El País?

Não vi na Folha o registro da morte, aos 85 anos, de José Ortega Spottorno, fundador do importante diário espanhol e filho do filósofo Ortega y Gasset. Vale recuperar.

?Casa? no UOL

Um alerta: deve-se reforçar a cautela no tratamento editorial dado à guerra de audiência entre Globo e SBT a partir do momento em que o UOL é parceiro do ?reality show? de Silvio Santos. Um belo teste para a Folha."