Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Bernardo Kucinski

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"DIA 25/02/02

Jornalistas fecham com o Planalto

Quatro aspectos da cobertura nacional do final de semana mostram o alinhamento da maioria dos jornalistas brasileiros com o bloco do poder: (1) a pauleira que deram em Lula por se aproximar de José Alencar; (2) o otimismo com que comemoram a mísera subida de três pontos de Serra ; (3) o espaço desmesurado que deram à pré-convenção do PSDB; (4) principalmente, a neutralidade com que reportam a tentativa de golpe dos tucanos de ?zerar? nas regras do jogo, através da obrigação da vinculação de votos em escala nacional.

Desafios à candidatura Lula

Os comentaristas simpáticos ao Palácio fizeram uma leitura muito tucana das últimas pesquisas. Teodomiro Braga chega a especular no JB de hoje que Lula já não tem o lugar garantido no primeiro turno. Mas o que o DataFolha do domingo mostra é que com toda a subida de Roseana e Garotinho, Lula perdeu só 4 pontos e continua no primeiro lugar. Seria correto dizer que perdeu o caráter de imbatível de meses atrás, mas incorreto concluir que já perdeu a eleição.

O estreito espaço de Serra

Acima de tudo, a DataFolha mostra nova subida e, portanto, consolidação de Roseana como a segunda mais votada depois de Lula, estreitando ainda mais o espaço para o crescimento de Serra, já que ?apenas um governista chegará ao segundo turno?, como sugere hoje o Painel da Folha.

O desespero dos tucanos

Os tucanos só tem duas maneiras democráticas e uma não democrática de levar Serra ao segundo turno. A primeira maneira democrática é atacando frontalmente Roseana, para atrair seus votos. Mas isso eles não podem fazer porque (a) ofereceriam munição para a oposição e (b) inviabilizariam a posterior recomposição com Roseana, que tem caráter estratégico para o sistema de poder.

A outra alternativa democrática é fazer acordos de cúpula com PMDB e PPB. É o que Serra diz que tem de ser feito, segundo o Painel da Folha de domingo. Mesmo porque Roseana mantém a iniciativa, como mostra o JB de domingo, em ?Roseana, uma novidade duradoura?, e agora vai partir para uma maratona de viagens pelo país. A ?coluna política? de O Globo de hoje diz que Roseana já descarta acordos com o PSDB para o primeiro turno.

Resta o recurso ao golpe

Os tucanos também tentam o golpe da mudança das regras do jogo, impondo o ?voto vinculado?, como fez a ditadura militar em 1982 para proibir coligações estaduais diferentes da coligação nacional. Há um consenso, nas entrelinhas das matérias de política, de que Serra é quem ganha com a ?zeragem? das coligações. ?Me recuso a acreditar que o TSE estaria a serviço da candidatura Serra?, diz Ciro Gomes em entrevista a Época. Mas a própria revista, páginas adiante, garante que a mudança deve ser aprovada. E revela: ?No Palácio do Planalto há uma discreta torcida pela virada da mesa que poderia favorecer Serra – já que todo governo é pólo aglutinador (de alianças nacionais). ?O Estadão de hoje diz que a vinculação é boa para o PSDB, ajudando a empurrar o PMDB para Serra no Norte e no Sul?. Kátia Guimarães, na Gazeta Mercantil, revela que ?as cúpulas do PFL e do PMDB consideram a vinculação um golpe do Planalto?.

O fantasma da dengue persegue Serra

No Rio, ninguém pode ser convencido de que Serra foi um bom ministro da saúde. As mortes e a dimensão da epidemia falam mais forte. O Globo de domingo tem um caderno especial sobre a dengue, mostrando como a epidemia penetrou em todos os espaços do cotidiano carioca. As manchetes de ontem e de hoje são sobre o perigo de os planos de saúde subirem seus preços por causa da dengue. Um em cada dez cariocas está faltando ao trabalho por causa da dengue. Todos se sentem ameaçados e entidades da sociedade civil começam a agir frente à inépcia das autoridades. Deputados do Rio, informa o JB de hoje, vão pedir uma C PI da dengue.

O caráter da epidemia

A dengue se combate de casa em casa, com a participação popular, como mostra a entrevista com José Marques Ribeiro, no Estadão de hoje, contrariando a entrevista capenga com Marcos Boula na Folha. Incrível o título dessa entrevista da Folha: ?Impossível erradicar a dengue?. Além de derrotista e mentiroso, o título é claramente uma forma de isentar o governo. O Globo fez muito melhor, dando um caderno inteiro no domingo a ensinamentos para eliminar os focos do mosquito.

Uma oportunidade para as prefeituras do PT

O caráter da epidemia da dengue sugere que prefeituras com maior participação popular estão mais aparelhadas para lhe dar combate. Isso abre uma oportunidade rara para as prefeituras do PT. Muito mais do que já estão fazendo, deveriam demonstrar um comportamento contrastante com o das autoridades federais. Usar todos os seus serviços e equipamentos fixos e móveis em mutirões grandes e ostensivos, para ensinar como acabar com os focos. Botar anúncios curtos e certeiros nos jornais, rádios e TVs. Ir aos programas populares de auditório falar sobre como eliminar os focos.

Mídia tenta ressaltar as boas ações de Serra

Época e Folha, não por coincidência, fazem balanços da administração de Serra mostrando que, apesar da dengue, houve melhora generalizada na saúde. No entanto, os gráficos da Folha de 12 das principais endemias e surtos epidêmicos mostram algo mais: a partir de 1995, quando começa o governo FHC, alastram-se as endemias mais ligadas à pobreza: hanseníase, tuberculose e hepatite C.

O mote do ?bom candidato?

Está claro em algumas manchetes que o mote bolado pelo comitê eleitoral de Serra, e que mídia endossa, é o de que ?Serra é o bom candidato?: ?A hora é de mostrar que é bom candidato?, no Estadão de domingo, título na página A5)

?Terá que evitar uma contaminação da campanha pela dengue e mostrar ser tão bom candidato como foi ministro?, em Época, olho da matéria da página 25

PCC em alta

O Globo, JB e Estadão trazem no domingo grandes reportagens sobre o PCC, todas mostrando o crescimento e força dessa organização criminosa. O Globo diz que o país perde R$ 112 bilhões com o crime.

Não deixe de ler:

A dramática reportagem de Eliane Brum descrevendo o processo de exclusão e perda de auto-estima de Hustene Pereira, um dos 1,6 milhão de brasileiros desempregados na região metropolitana da Grande São Paulo. Chama-se ?O homem estatística? e ocupa as páginas 86 a 93 de Época desta semana. Esse é o homem a quem o discurso de oposição deve se dirigir. O candidato das oposições brasileiras precisa falar orações e mentes dos milhões de excluídos e suas famílias, sem alienar aqueles que têm seus empregos garantidos e as classes médias.

Retrato do Brasil

As duas últimas páginas da reportagem de Eliane são de estatística mesmo e mostram que nos últimos seis anos, na região metropolitana da Grande São Paulo, o desemprego pulou de 12,2% para 17,6% e o tempo de procura de um novo emprego dobrou de 25 para 50 semanas. A renda média das pessoas ocupadas caiu 21,9%.

22/2/2002

Lula encurrala Garotinho, peita a esquerda do PT…

Essas são as duas principais conseqüências da aproximação de Lula e Zé Dirceu com o PL, mas elas não apareceram claramente no noticiário dos jornais de ontem. Garotinho recebeu a oferta da vice-presidência numa chapa com Lula. Os jornais de hoje já trazem sua recusa e o anúncio de que agora vai procurar o PMDB. Já a esquerda do PT esperneou com a aproximação Lula-Alencar, mas vai ter que aceitar a aliança se ela prosperar.

(…) e de quebra ocupa o espaço de Serra

Lula também assombrou o campo conservador. De quebra ocupou todo o espaço da mídia numa semana em que Serra planejava oito dias de super-exposição, numa tentativa desesperada de alavancar sua candidatura, como revela Sonia Racy em sua coluna de hoje no Estadão. A Folha não resistiu à idéia de um racha no PT e deu uma página inteira ontem, e mais duas hoje, à polêmica interna do partido em torno da aliança com o PL.

Jornais apostam num racha que não vai haver

O destaque de hoje da Folha é a crítica de Olívio Dutra, que não considera o PL um partido ?democrático e popular?. Na crítica à aliança PT- PL, tanto a mídia conservadora como a esquerda do PT usam um discurso ético. Lula é acusado de desvio ideológico e oportunismo político. Quem deu uma boa resposta a essa abordagem foi Apolônio de Carvalho, homenageado por Lula no Rio de Janeiro. Esse ?ícone das esquerdas?, como define a Folha, disse ?que é positivo buscar toda aliança possível, desde que a base de aceitação seja um programa comum?.

Mas Lula precisa se explicar melhor

A mídia conservadora também aproveita a oportunidade para desgastar a imagem de Lula, trabalhando as idéias de oportunismo político, traição da classe operária e por aí afora. Foi o que fizeram os colunistas chapa-branca durante toda esta semana. Lula e Zé Dirceu têm de responder a esse desafio, falando mais claro, de modo mais substantivo e transparente sobre as bases programáticas do acordo. De preferência por escrito. É preciso que eles saiam do questionamento miúdo, subjetivo e moralista dos repórteres, e trabalhem o tema do caráter e objetivos estratégicos e táticos de uma aliança centro- esquerda, assim como os princípios de seu ?programa comum?. Esse é o debate que a mídia não quer. Mas é o debate que interessa ao PT.

Não ao ?terrorismo econômico?

O debate programático de uma aliança centro-esquerda é também a forma mais eficaz de neutralizar aquilo que Zé Dirceu denunciou no Valor de quinta-feira como ?terrorismo econômico?: o discurso de empresários, ecoado pela mídia, de que uma vitória do PT teria efeitos econômicos desastrosos. A reportagem de Valor reproduz a fala do presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos, Edgar Morel, que vinculou a evolução da taxa de câmbio ao panorama eleitoral. O JB de hoje dá primeira página a mais uma peça de ?terrorismo econômico?: declarações do presidente da associação dos importadores de veículos e representante da KIA de que ?uma vitória de Lula seria uma ruptura para a esquerda e prejudicaria o país?. O JB fez questão de apontar para a dívida de US$ 200 milhões da KIA por evasão fiscal, que FHC vem rolando generosamente, e que Lula certamente não perdoaria.

Manchetes que os jornais não deram

?Aécio acusa FHC de defender interesses menores?

?Antrax veio do programa militar americano?

?Dengue atinge mais de mil por dia e espalha o pânico?

Governo americano esconde a verdade sobre o Antrax

Lembra-se do Antrax? Os jornais brasileiros esqueceram o assunto. Mas os jornais de fora não. Na terça-feira, o Times de New Jersey destacou a acusação da cientista americana Barba Rosenberg de que o FBI já sabe desde outubro quem é o autor dos atentados, mas fica arrastando as investigações porque o suspeito fazia parte do programa de bioterrorismo dos EUA. Bárbara é diretora da Federação dos Cientistas americanos para programas de guerra química e biológica. Ela disse que muitos de seus colegas sabem que é o cara. Na quarta, a história saiu no Independent de Londres. Hoje, está tudo na internet, mas os jornais brasileiros não deram nada.

Medidas Provisórias como canal de corrupção

Com a exceção de O Globo, que mesmo assim não deu manchete de primeira página, os jornais minimizaram bastante a acusação de Aécio Neves, presidente da Câmara, de que FHC está fazendo uso abusivo de Medidas Provisórias. ?O clima ontem voltou a ser de conflito?, diz a matéria de O Globo. Aécio disse que nem todas as MPs obedecem ao critério da urgência, e ameaçou o governo com a cláusula de inadmissibilidade, pela qual o Congresso pode considerar inadmissível uma MP. A gota d?água foi a MP que permite contratar trabalhadores para furar greves.

O Estadão de hoje traz um editorial de apoio a Aécio e cita uma de suas frases mais perigosas contra MPs inspiradas por ?burocratas que defendem interesses menores?. É uma acusação séria de que MPs são usadas por grupos de pressão ou lobbies. Ou seja, de que um mecanismo específico de defesa de interesses menores está instalado na própria presidência da República.

Pânico na saúde

Os jornais cariocas de ontem e de hoje não deixam dúvidas sobre o pânico que se instalou na população carioca por causa da dengue. São mais de mil atingidos a cada dia. O Globo dá manchete à suspeita de que verbas contra a dengue foram desviadas para outros objetivos. JB destaca que hospitais estão se recusando a receber doentes pobres.O Estadão anuncia que é grande o risco de o surto assumir caráter epidêmico em Santos e no interior de São Paulo.

Assédio moral

Esse é o título de um interessante artigo de Sérgio Villas Boas no caderno Equilíbrio da Folha de São Paulo de ontem. Trata de um conceito novo, o dos danos morais infligidos a trabalhadores em seus locais de trabalho, por atitudes arbitrárias e autoritárias dos chefes. A Folha deveria aplicar o conceito na sua própria redação, notória pelas relações autoritárias de trabalho, censura interna dos textos da reportagem, alta rotatividade e stress dos jovens jornalistas.

Entrelinhas

A Gazeta Mercantil noticiou em poucas linhas a importante declaração do ministro da Indústria do Uruguai, Sérgio Abreu, rifando o Mercosul. Ele propôs o fim da Tarifa Externa Comum, o que é o mesmo que enterrar o Mercosul.

Não deixe de ler

Raramente os jornalistas conseguem fazer uma análise interessante do que é o PT, ou porque não querem ou porque é difícil mesmo. O partido já foi definido por um cientista social como uma ?anomalia política?, tal a diversidade de seus grupos fundadores. Mas Ricardo Lessa conseguiu captar razoavelmente bem o que é essa ?anomalia política?, no seu artigo ?Partido quer mudar de rumos sem mudar de lado?, publicado na página A7 da Gazeta Mercantil de ontem, a propósito dos 22 anos de fundação do partido."

20/2/2002

A complexa operação para o fim do racionamento

Todos os jornais entraram no oba-oba do fim do racionamento. Mas nas páginas internas, todos trazem também entrevistas com especialistas que consideram arriscado o fim do racionamento. Essa contradição entre o rabo preso das manchetes e o tratamento interno menos governista é um traço marcante do alinhamento da mídia com FHC. O Estadão de terça-feira traz a crítica de James Correa, da Universidade da Bahia, um dos idealizadores do racionamento. Ele acha que teria sido mais prudente esperar até abril. A abordagem crítica mais completa está em Valor da terça-feira.

É nas entrelinhas do anúncio que está a revelação de sua intenção eleitoreira: FHC hesitou não porque teme faltar energia no ano 2003, e sim porque com o fim do racionamento acabaria também o bônus para as famílias de faixas menores de consumo, que tem conseguido economizar. O resultado, portanto, poderia ser o oposto do desejado: mais descontentamento ainda, mesmo porque nesse intervalo as tarifas aumentaram. Solução de FHC: manteve o bônus por mais um mês e, enquanto isso, vai bolar m jeito de diminuir as tarifas dessa faixa de consumidores.

A segunda rebelião do crime organizado

Quatro atentados a bomba e dois dias de rebeliões sangrentas em dezenas de presídios vieram demonstrar que nada adiantaram as promessas do governo feitas após a primeira rebelião. O crime organizado continua bem organizado sim. Ao mesmo tempo, foram rebeliões dos anônimos, dos infames, como definiu Foucault, dos que não tem fama. Por isso, o número de mortos variou tanto de um jornal para outro. Um a mais, um a menos, não importa. Foram 7 mortos na Folha de S. Paulo, 15 no JB e no Globo e 17 no Estadão. Quem melhor expressou o desprezo por esses infames foi o secretário de segurança de São Paulo, Nagashi Furukawa: ?O dia não foi normal, mas não vejo a coisa tão grave assim, se considerarmos o número de presos sob responsabilidade da secretaria, são 69 mil em 104 unidades.

A terceira morte de Celso Daniel

A primeira foi a morte física, há um mês. A segunda foi o seu assassinato moral pela imprensa. A terceira foi a morte de sua memória. No aniversário de sua morte, o assassinato e sua impunidade passaram sem registro nos grandes jornais, com a exceção do Estadão, que deu manchete interna: ?Um mês. Onde estão ao assassinos de Celso Daniel??

Investigação tomou rumo errado

Nem mesmo o balanço burocrático da polícia sobre seu trabalho no caso foi registrado pela imprensa. Em um mês e um dia foram tomados 97 depoimentos e feitos 7 retratos falados . A maioria dos depoimentos foi de familiares e amigos de Celso Daniel, sem nenhuma relação com suspeitos. A polícia paulista aproveitou o crime para desencadear uma devassa na vida de Celso Daniel. Ontem ouviram Ronan Pinto, sócio do amigo de Sérgio Gomes, chamado como ?testemunha?. Testemunha de que, se ele não testemunhou nada? Perguntou Maria Lídia, na CBN, começando tardiamente a desconfiar que alguma coisa está errada no comportamento da polícia e já bastante incomodada como comportamento de seus colegas. No caso de Toninho, não só não foi esclarecido o crime, como foram fuzilados por um comando da polícia quatro suspeitos de ligação com o caso, que haviam se refugiado em Caraguatatuba, e que poderiam falar. Um caso típico de queima de arquivo.

Não há repórteres de polícia como antigamente

Até hoje, nenhum jornalista teve a iniciativa de investigar a investigação da polícia paulista sobre as mortes de Toninho e Celso Daniel, apesar dos inúmeros indícios de que a polícia tem feito de tudo para não chegar à verdade dos fatos. Será mera coincidência o fato de que quando o crime organizado se tornou questão central, sumiram de cena os grandes repórteres de polícia? Pena Branca já morreu. Caco Barcelos agora dedica-se a reportagens sobre o terceiro setor e Percival de Souza escreve livros duvidosos sobre Fleury, Cabo Anselmo e outros anti-heróis da repressão.

Inércia jornalística

Se não tinham meios para grandes investigações, os repórteres poderiam ao menos entrevistar Luiz Eduardo Greenhalgh, que tem acompanhado as investigações sobre o caso Celso Daniel desde o início, e poderiam fazer um balanço circunstanciado das investigações. Na única entrevista, rapidinha, no Estadão, ele reclama que polícia sequer divulgou os retratos falados dos suspeitos. De que adianta fazer o retrato falado se ele não é divulgado?

Dois seqüestros, duas polícias, duas imprensas

Novas perguntas que os jornalistas não fizeram: por que os retratos falados dos seqüestradores de Washington Olivetto foram imediatamente divulgados e os de Celso Daniel não? Por que as transações bancárias de Celso foram abertas após o seqüestro para se descobrir rastros dos criminosos, que teriam levados seus cartões de crédito, e as de Olivetto não, se dele também levaram os cartões? Por que as polícias uniram esforços no caso Olivetto e não se unem até hoje no caso Celso Daniel? E, principalmente: por que a polícia paulista, muito antes do seqüestro do Celso Daniel, estava fazendo um dossiê sobre ele, conforme informou Frederico Vasconcelos na Folha de S. Paulo?

Os nexos entre as várias formas de crime organizado

O jornalismo foi salvo pela entrevista de Marisa Fogato com Sérgio Adorno, um dos especialistas do Núcleo de Estudos da Violência da USP, publicada na página C5 do Estadão da terça-feira. Sérgio Adorno propõe, talvez pela primeira vez, que as últimas manifestações de crime organizado, inclusive os assassinatos de Celso Daniel e Toninho, as bombas e a onda de seqüestros, estão todas conectadas. ?Provavelmente é uma rede complexa, com múltiplos interesses agindo de maneiras distintas, vinculada ao crime organizado? . Adorno chama atenção para a entrada nas prisões de novos jovens ligados ao tráfico, com capacidade de estabelecer conexões internas e externas.

As elites e as algemas de Jader

Os barões da mídia não gostaram das algemas em Jader. Nenhum editorial se manifestou a favor. Boris Casoy criticou. Até ACM criticou. O episódio parece ter tido uma grande força emblemática. Uma lembrança de que as elites e ladrões comuns estão na mesma categoria. Mas o povo gostou. Saboreou os poucos minutos de igualdade. Isso apareceu claramente nas seções de cartas dos jornais.

Retrato do Brasil

As taxas de desemprego no Brasil podem ser muito maiores do que as aferidas. Uma surpreendente pesquisa do Ipea, publicada na página 11 do JB de ontem, revela que o desemprego atinge 43,7% das pessoas com 9 a 11 anos de instrução e 37 % daquelas com 5 a 8 anos de instrução. Entre as pessoas com menos anos na escola, a taxa é de 31%. Os dados são do ano passado e assustam porque mesmo a mais abrangente metodologia, usada pelo Dieese, que inclui parte dos desempregados que já desistiram de procurar emprego, aponta taxas da ordem de 17%. Na pesquisa do Ipea, somente na faixa das pessoas com mais de 12 anos de instrução a taxa de desemprego é relativamente pequena (9,4%). Mas essa faixa contém uma minoria da força de trabalho.

Não deixe de ler

?Água não é mercadoria?, ensaio de Newton de Lima Azevedo sobre nosso atraso em abastecimento de água corrente e saneamento básico. Na página 2 da Gazeta Mercantil da terça-feira.

?Ecossistema caótico?, um resumo da proposta de Plano Diretor para São Paulo, de Marta Suplicy, que só a Gazeta Mercantil informou. Na página 3 do caderno Grande São Paulo da edição de terça-feira."