Friday, 19 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1201

Carla Rodrigues

INTERNET

“A Internet ainda vai mudar mais sua vida”, copyright Comunique-se (http://nominimo.ibest.com.br), 3/11/03

“Se fosse apenas mais um livro para contar a história do desenvolvimento da rede mundial de computadores, ?A Galáxia da Internet? (Jorge Zahar Editor, 244 páginas, R$ 34,50) já seria extraordinário. Mas o que o cientista social espanhol Manuel Castells faz é muito mais do que isso. Desde o lançamento de ?A sociedade em rede? havia esta lacuna na obra de Castells. Ampla reflexão sobre a sociedade de informação, os três volumes de ?A sociedade em rede? não dedicavam a devida atenção ao fenômeno da Internet por que foram escritos antes da explosão da rede. Com ?A Galáxia da Internet?, Castells preenche esta lacuna e vai adiante. Junta, de maneira inédita, as características que deram origem à criação da rede para explicar como se veio parar aqui, numa sociedade dominada pela web, apesar da derrocada da Nasdaq e, sobretudo, apesar do fato de a Internet não ser mais nada daquilo que já foi.

É preciso situar Castells na escola dos pensadores europeus que não considera a Internet nem uma ?bomba tecnológica?, como Paul Virilio, nem uma ?ilusão vital?, como Jean Baudrillard. É a partir deste posicionamento que ele analisa como a Internet, ?uma tecnologia obscura sem muita aplicação além dos mundos isolados dos cientistas computacionais, dos hackers, e das comunidades contraculturais, tornou-se a alavanca na transição para uma nova forma de sociedade – a sociedade em rede -, e com ela para uma nova economia.?

O que há de melhor na visão de Castells – e só por isso ele pode se diferenciar da escola dos que condenam a rede – é a sua convicção de que não somos, todos, vítimas passivas de um determinismo tecnológico que transformou as nossas vidas. Ao contrário. Para ele, a tal ?tecnologia obscura? só se propagou por causa da união, no final do século 20, de três processos independentes: as exigências de flexibilidade administrativa da economia, as demandas de liberdade individual e de comunicação aberta, e os avanços das telecomunicações e da revolução da microeletrônica.

A partir desta junção foi inagurada uma nova estrutura social baseada em redes. Foi sob essas condições sociais que o uso da Internet como sistema de comunicação de fato explodiu: no final de 1995, primeiro ano de disseminação da web, havia 16 milhões de usuários conectados em todo o mundo. No início de 2001, já eram mais de 400 milhões e as previsões apontam para 1 bilhão em 2005 e 2 bilhões em 2010.

Por isso, Castells faz uma analogia tão explícita à galáxia de Gutenberg, termo cunhado pelo teórico de comunicação Marshal MacLuhan para designar a revolução da impressão em larga escala. ?Atividades econômicas, sociais, políticas e culturais essenciais por todo o planeta estão sendo estruturadas pela Internet e em torno dela, como por outras redes de computadores.?

Determinismo histórico

Uma das grandes qualidades do trabalho de Castells é o olhar amplo sobre a história da Internet. Mais comumente associada à Arpanet, uma rede de computadores formada em 1958 pelo Departamento de Defesa dos EUA, a Internet tem outras origens, que o autor recupera não apenas por rigor metodológico, mas para se utilizar delas na sua análise sobre o que acontece na rede hoje.

Castells também revisita as velhas BBSs (em tradução literal, sistema de quadro de avisos), um movimento que brotou da interconexão de computadores pessoais no final da década de 70 nos EUA. Em 1983, Tom Jennings criou, na Califórnia, a rede de BBs chamada Fidonet, que até hoje é a rede de conexão mais barata e acessível do mundo. Essa prática da comunicação livre, reconhece o autor, foi fundamental para definir os princípios de uso da rede.

Some-se a isso a maneira cooperativada com que a comunidade Unix desenvolveu o Apache, programa código aberto usado em 60% dos servidores web, e a ousadia de Tim Berners-Lee, que permitiu a conexão pelo protocolo HTTP e a leitura de páginas em linguagem html. O que Castells faz ao narrar estas origens já conhecidas é refletir sobre elas para mostrar ao leitor que ?sem a contribuição cultural e tecnológica dessas redes pioneiras, de bases comunitárias, a Internet teria tido uma aparência muito diferente, e provavelmente não teria abarcado o mundo inteiro.?

O que há de inovador nessa leitura é o crédito que o autor concede a iniciativas que foram, sim, fundamentais, mas que costumam ficar esquecidas pelos que desconsideram as características da Internet que não estão ligadas aos aspectos comerciais que a rede adquiriu a partir do final dos anos 90. Mesmo quando trata do uso comercial da rede, Castells ressalta a inovação empresarial como mola propulsora do ambiente de negócios on-line, em detrimento do poder do capital.

No mundo dos negócios, o autor chama atenção para o fato de a Internet ser muito mais utilizada como ferramenta de trabalho do que como sistema de comunicação entre indivíduos. Em 2001, 80% das transações comerciais on line eram B2B (business to business), numa demonstração de que o fracasso pontual de iniciativas comerciais B2C (business to consumer) em nada atravanca a evolução do uso da rede.

O mito da comunidade virtual

Castells é um dos grandes teóricos da sociedade da informação, e por isso mesmo é um pensador que trabalha com a idéia de que, embora a organização em rede seja tão antiga quanto a família ou a máfia, houve uma transformação no mundo que fez com que as redes horizontais se sobrepusessem às velhas estruturas verticais e hierárquicas. O fato de que a Internet serviu como plataforma é, para ele, mera conseqüência. No capítulo dedicado às comunidades virtuais, analisa o que a cultura da Internet acostumou-se a batizar de ?comunidade virtual? e que, para ele, é a expressão mais bem acabada da predominância da organização em rede que tomou conta de toda a sociedade.

Por isso, Castells afirma que o desenvolvimento da Internet fornece um suporte apropriado para a difusão do individualismo em rede como forma dominante de socialibilidade. Assim, o autor faz côro contra os mitos de que o usuário de Internet é, a princípio, um ser anti-social, indisposto para a vida fora do ambiente on line. Aposta num novo padrão de sociabilidade baseado no individualismo – afinal, um traço tão marcante do comportamento na sociedade atual – e trabalha com conceito que, à primeira vista, pode soar contraditório: o individualismo em rede.

Para o usuário em grande escala, é fácil entender. Trata-de do sujeito que escolheu a Internet como mecanismo de contato com diferentes universos, inclusive como instrumento de reforço a contatos presenciais, e que fez disso o que Castells chama de ?padrão de sociabilidade específico?. Ou seja, não é um nerd maluco escondido atrás de uma tela de computador, mas alguém que optou por privilegiar a interação social on line. Pode ser você, leitor, que escolheu esse artigo na web ao invés do tradicional suporte em papel. Seja bem-vindo.”

 

RÁDIO

“Blecaute na Ilha: o radinho deu um banho”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 3/11/03

“Um senhor, na madrugada do domingo, dia 2, confessou a uma emissora de rádio de Florianópolis: ?Bons tempos aqueles em que os radinhos de pilha eram o nosso único meio de comunicação confiável?. Exagero, claro. Mas foi o rádio, sem dúvida, que manteve a Ilha de Santa Catarina ligada, prestando serviço e informando com competência a população, durante o blecaute de 53 horas que aconteceu na semana passada. E vice-versa, talvez.

Pois a versão oficial para as causas do ?apagão? ganhou o mundo no Jornal Nacional: enquanto cinco homens faziam a manutenção dos cabos de energia elétrica que atendem Florianópolis, nas galerias internas da ponte Colombo Salles, o botijão de gás que usavam explodiu, dando início a um incêndio que iria, em pouco tempo, romper os cabos e interromper o abastecimento de luz à Ilha. Três dos homens conseguiram fugir, os outros dois se atiraram ao mar e foram resgatados.

Um outro ouvinte, então, levantou a dúvida: se o procedimento que os funcionários das Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) faziam na quarta-feira, dia 29, era normal, habitual, corriqueiro, por que o explosímetro não foi usado? Sim, o explosímetro, segundo o ouvinte, é o aparelho usado para verificar vazamentos de gás no ambiente antes que chamas ou labaredas sejam acesas. A maquininha não funcionou, não foi usada ou funcionou de maneira incorreta?

E os funcionários que fizeram o serviço: causaram o acidente ou foram vítimas dele? Quem são? Quais são seus nomes? São de uma empresa terceirizada ou treinados pela Celesc?

Nem os radiorrepórteres, que muito viram e descreveram, conseguiram essas respostas. Incansáveis, trabalhando horas a fio, levaram às pessoas, em suas casas ou carros, mergulhadas na penumbra, sem TV ou internet, sem água e às vezes até sem telefone, as informações que envolveram a lengalenga do ?volta a luz, não volta a luz? das autoridades. As emissoras também abriram seus microfones e disponibilizaram suas linhas para as pessoas, dos mais variados recantos da cidade, exporem suas dificuldades e angústias, críticas e elogios.

Os jornais aumentaram o corpo das manchetes e, por isso ou não, esgotaram suas tiragens. No dia seguinte ao acidente, as capas alardeavam caos e clima de guerra. Outro exagero. Houve engarrafamentos, semáforos desligados, mas não mortes, brigas ou discussões, tragédias no trânsito. Houve uma grande demanda, no comércio que permaneceu aberto, por água mineral e velas, mas sem saques, quebra-quebras, roubos, destruição. Houve prejuízos por todos os lados, mas ninguém saiu às ruas querendo fazer justiça com as próprias armas. O transporte público funcionou, o clima de feriado foi total. As ocorrências de crime, segundo a Polícia Militar, caíram 40% na primeira noite de escuridão. E os próprios textos das matérias acabavam desmascarando o sensacionalismo das capas: nunca se leu tanto os termos ?civilidade?, ?espírito de cidadania? e ?civilização? nos jornais da Capital.

Parêntese: No sábado, dia 1?, outro ?apagão? parou a Ilha, por mais algumas horas, e as edições dominicais dos jornais não deram uma linha: elas são fechadas na sexta-feira. Ou melhor: são fechadas na sexta e vendidas no sábado com preços de domingo.

Mas, como nos jornais, nem tudo foi perfeito no rádio também. Nas emissoras, de fato, muitos jornalistas usaram a palavra ?caótico? para descrever certas situações cotidianas em qualquer ?cidade grande?, como filas e congestionamentos. Palavra mal empregada, pois sem abusar muito da filosofia é possível dizer que não houve ausência completa de ordem, nem grandes confusões (como sugere o Aurélio Século XXI). E não faltaram um certo bairrismo e um certo ufanismo da Ilha que o poeta Zininho imortalizou no seu hino, executado várias vezes em algumas estações.

Sem entrar nas discussões políticas em que se envolveram a prefeita, que no fim de tudo chorou, e o governador, que no início de tudo sumiu – ambos disputando, mesmo que uma e outro neguem, espaços na mídia -, a lição do radinho à pilha sensibilizou as pessoas. Os florianopolitanos parecem ter redescoberto, de uma vez por todas, os poderes e encantos do rádio.”

 

“Anatel estuda ?dança das cadeiras? no dial das FMs”, copyright Folha de S. Paulo, 29/10/03

“Sem fazer alarde, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) estuda a possibilidade de modificar o dial das FMs em São Paulo. A intenção é conseguir abrir espaço a uma frequência para rádios comunitárias, a 87,9 MHz, como determina a lei.

Na atual configuração, o dial paulistano não comporta uma nova estação, segundo a agência.

A primeira dificuldade é o excesso de emissoras. A capital já tem nos 88,1 MHz a Gazeta FM, que poderia sofrer interferência dos 87,9 MHz. A superlotação se deve, em grande parte, a rádios com concessão de cidades da região metropolitana e até do interior que instalam ilegalmente seus transmissores na capital -não raro, em plena avenida Paulista.

Além disso, emissoras genuinamente paulistanas ampliam a potência de seus transmissores sem autorização do governo.

O primeiro passo para conseguir espaço a uma comunitária em São Paulo é uma consulta pública lançada neste mês. A Anatel propõe que a faixa de FM, hoje iniciada nos 87,8 MHz, seja ampliada até os 87,4 MHz. Assim, haveria duas alternativas de frequência para comunitárias: 87,5 e 87,7 MHz -isso poderia ser útil também a outras grandes cidades.

A Anatel divulga que o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações) testou 12 aparelhos para avaliar se esses duas novas frequências poderiam ser sintonizadas. Apenas um não as sintonizou. Esta coluna apurou que o CPqD deu preferência a marcas mais baratas e a rádios de casa (não a de carro). Razão: a idéia de que esses seriam os alvos de uma comunitária.

A consulta pública ficará aberta para sugestões no site da Anatel (www.anatel.gov.br) até o dia 29. Mas, mesmo que a ampliação do dial seja aprovada, a situação não estará completamente resolvida em São Paulo. A partir daí, o CPqD entraria na segunda e mais complexa fase do processo: reorganizar o dial retirando emissoras ilegais e mudando a frequência de algumas FMs regulares.

Nem é preciso dizer que haverá resistência. Mudar a frequência de uma rádio poderá prejudicar sua audiência, já que o ouvinte teria que decorar a nova sintonia.

Enquanto as comerciais vão pressionar de um lado, do outro estará o movimento das comunitárias. Já na próxima quarta, às 13h, acontecerá na Câmara Municipal de São Paulo o encontro ?Cadê Canal para a Capital??. A Comissão de Administração Pública indagará à Anatel por que o dial da região metropolitana paulista ainda não tem espaço para uma emissora comunitária.

A briga promete.”