Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Flávio Dieguez e Bernardo Kucinski

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"03/04/02

Ética em baixa cotação

Se ao jornalismo político falta consistência e fatos concretos e sobram textos opinativos e informação duvidosa, o econômico consegue ser pior. Nem valeria o esforço de uma crítica se não fosse pelo noticiário recente das bolsas privilegiar um candidato, José Serra, em detrimento dos outros. A Folha Online de ontem, por exemplo, atribui a alta das bolsas no dia à subida recente de Serra na pesquisa Vox Populi, sem mencionar que se trata de mera interpretação e muito menos quem foi o seu autor. Nem é preciso dizer que esse tipo de explicação, usada e abusada por toda a imprensa, não explica nada (quem se der o trabalho de checar, vai ver que um mesmo fato serve freqüentemente para explicar a alta e depois a baixa das ações e vice-versa, sem nenhuma consideração pela inteligência do leitor). Mais grave é que, em ano eleitoral, o menor senso de ética mandaria ter cautela com ?informação? desse tipo. Mandaria, é bom frisar: não parece haver preocupação com isso.

Política secundária

A reviravolta completa da campanha, esta semana, não teve tratamento adequado nos jornais. Reforça a desconfiança de que preferem informar mal a reconhecer a importância do desmantelamento da aliança que administra o país há sete anos. Todos os jornais deram mais destaque à crise no Oriente Médio, que não teve novidade condizente, do que aos dois fatos centrais de ontem: a desistência do governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, à vaga de vice na chapa de Serra, e a aprovação pelo Senado de decreto-legislativo anulando a verticalização das eleições determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral, há cerca de um mês. A cobertura, confusa, nem menciona que os dois fatos estão associados entre si e à articulação da candidatura Serra, decisiva tanto para a eleição como para a constituição do próximo governo.

Má vontade de informar

O Globo, disparado, deu a pior cobertura sobre o decreto-legislativo. Sobre o envio do texto à Câmara, a seguir, diz que ?nem o líder do PMDB?, Geddel Vieira Lima, aceitaria aprová-lo. Como se o líder do PMDB não estivesse, justamente, entre os que são a favor da verticalização, segundo todas as indicações surgidas ao longo de março! Não é que ?nem? ele aceitaria; seria surpreendente se ele aceitasse. O Globo também dá bastante espaço, numa nota que poderia ser útil, à opinião de juristas sobre se o decreto-legislativo é ou não constitucional. Mas a nota só traz opinião de ?um ministro do STF?, de que o Congresso pode anular uma decisão do TSE, e omite opiniões contrárias, ouvidas pelo senador Amir Lando, relator do decreto.

Erro oculto

De passagem, vale registrar a carta do assessor de imprensa de Marta Suplicy, Alon Feuerwerker, pedindo correção em reportagem da Folha de S. Paulo segundo a qual a situação dos camelôs não se alterou no governo dela, embora o próprio texto mencione mudanças. A redação preferiu não admitir o erro, mesmo que, em editorial, a Folha reconheça que ?houve algum avanço na área?. Por que não admitir na resposta à carta? (Flávio Dieguez)

05/04/02

Guerra e terrorismo

Volto à tarefa de redigir as Cartas Ácidas depois de uma viagem de três semanas à Espanha e a Israel, durante a qual fui substituído com brilho pelo meu amigo e colega Flávio Dieguez.

A viagem começou marcada pelos assassinatos de políticos pelas Brigadas Vermelhas na Itália e pelo ETA na Espanha, seguiu com atentados terroristas na Índia e no Paquistão e culminou com as explosões suicidas diárias em Israel e a subseqüente invasão dos territórios palestinos. Há algo mais geral ocorrendo no mundo do que a mera coincidência de conflitos não resolvidos. A sensação geral é de houve um descolamento generalizado entre política e sociedade, como já estava havendo entre economia e sociedade.

Triste retorno

No Brasil, o clima três semanas depois é de aumento da violência, que parece ter atingido um novo patamar. Sucedem-se os assassinatos em escolas, que agora se tornaram centros preferenciais de distribuição de drogas. Os jornais de ontem noticiam que ex-militares desempregados estão treinando o crime organizado para ajudar os bandidos a combaterem a polícia. Um deles dá uma entrevista (sob pseudônimo) no Estadão de hoje, justificando-se: ?Tenho família para sustentar.? O Globo de hoje dá manchete de primeira página ao seu repórter Pedro Bial, também assaltado: ?Risco no Brasil é maior do que na guerra.?

Os velhos, a guerra e paz

Foi preciso morrer o chefe da UNITA, Jonas Sawimbi, antigo pau mandado da CIA, para se chegar a um acordo de paz entre UNITA e MPLA em Angola depois de 27 de guerra civil. Os pós-modernos franceses, entre outras teorias malucas, dizem que as guerras são invenções dos velhos para matar os jovens e ficar com suas mulheres. Na Palestina, Sharon e Arafat são dois velhos, que só sabem usar a força. Arafat rejeitou as propostas de paz de Barak que devolviam aos palestinos a quase totalidade dos territórios e a soberania de Jerusalém leste, preferindo apostar num aprofundamento da Intifada. Ainda mandou explodir os ônibus em Jerusalém às vésperas das eleições, ajudando a eleger Sharon, o general envolvido no massacre de Sabra e Shatila. Sharon é do tipo que acha que há sempre uma solução militar para os conflitos na Palestina.

Terrorismo e insensatez

Somente essa perda geral de referências pode explicar o apoio dado por um líder dos Sem-Terra aos atentados suicidas em Israel, a pretexto de apoiar a causa palestina. Na manifestação de ontem de apoio aos palestinos em São Paulo, houve também cartazes e faixas anti-semitas, como mostrou a reportagem de hoje da Folha. Foram retiradas rapidamente por algumas lideranças. Nesse massacre da razão, destacam-se pelo contraste, as palavras do chanceler brasileiro, Celso Lafer, de que Israel não merece um Sharon, e principalmente a nota oficial do PT , de uma notável maturidade, condenando tanto a invasão dos territórios palestinos quanto os atentados suicidas e enfatizando a necessidade da negociação. Os jornais deram a fala de Lafer e ignoraram a nota do PT.

O já ganhou e o já perdeu

O notável esforço da mídia para emplacar Serra está bem mapeado no artigo de Wanderley Guilherme dos Santos na página A6 do Valor de ontem: ?Na voz dos jornais o jogo está ganho?

Mas os fatos concretos de ontem, que os jornais tentam escamotear na administração de suas manchetes e seus espaços, estão cada vez mais favoráveis a Lula e desfavoráveis a Serra. O aumento da gasolina, a recusa de Jarbas Vasconcelos de ser o vice e a esnobada recebida depois de Itamar, e a liminar do TSE impedindo o governo de usar dinheiro do povo para eleger Serra através da campanha ?Brasil, oito anos construindo o futuro?. Além de atentar contra a lisura da disputa eleitoral a campanha do governo é um caso gritante de propaganda enganosa.

Escondendo a dengue

Voltei da viagem e notei de cara: acabou a dengue? Que nada. Como nos tempos da ditadura, em que escondeu a epidemia de meningite, a mídia agora esconde a epidemia da dengue. Ontem saíram novos totais da epidemia mostrando que ela continua a avançar apesar de já estarmos no fim do verão. Avançou para o sul do estado de São Paulo, e para o Paraná, onde houve ontem duas mortes. No Rio também morreram mais dois. Somente o JB deu a má notícia de reversão das expectativas sobre a dengue na primeira página, em nota pequena. A Folha deu duas notas internas, bem informativas, mas pequenas, deliberadamente sem destaque. O Estadão deu uma notinha interna em pé de página dizendo que diminuíram os casos no Rio em março, ou seja, descontextualizando, ignorando as novas mortes e os avanços de epidemia em outras frentes. O Globo não deu linha. Na época da ditadura a mídia atribuiu a omissão á censura. Como explicar a omissão hoje? Auto-censura.Não só hoje. Também em boa parte, naquela época.

Radicalizando contra o MST

Teodomiro Braga dedica sua coluna de hoje no JB a um ataque ao MST, baseado em ?documentos internos obtidos por estudiosos do movimento.? Diz que esses documentos mostram uma ?radicalização sem precedentes do MST.? Faltou dizer quais são esses documentos e quem são esses estudiosos. A mídia parece estar radicalizando tanto ou mais do que o MST.

Manchetes quase enganosas

A Folha de hoje registra declarações de Lula de apoio aos sem terra à reforma agrária em princípio, mas alertando contra a ação de agentes provocadores. Mas na manchete preferiu destacar um elogio de um fundador da UDR a Lula. ?Fundador da UDR elogia Lula e o PT.? O Estadão ignorou tudo isso e deu manchete gritante as reiteradas críticas de Lula aos bancos e aos banqueiros.?Lula diz que banqueiros assaltam trabalhador.? Nenhuma das duas manchetes é enganosa, mas uma está em total conflito com a outra, em cima da mesma visita de Lula a Ponta Grossa.

Lula está com a bola na porta do gol

A oportunidade está aberta para um grande avanço na candidatura Lula, especialmente pela importância dos projetos de políticas públicas elaboradas sob sua liderança nos últimos meses, com destaque para o projeto de Segurança Pública. Mas o PT ainda precisa descobrir um meio de transformar esses projetos num processo de discussão permanente com visibilidade pública. Não é fácil, dada a má vontade da mídia pró-Serra. Outro desafio do PT é o de trabalhar de uma vez só as diversas oportunidades políticas que estão se abrindo com a desagregação do bloco de poder.

A marcha da corrupção

Uma relação parcial de manchetes dos jornais de ontem mostra a corrupção como cultura nacional: ?Gasolina tem 10% de adulteração no Brasil.? Gazeta Mercantil

?Oficiais ( de justiça) de SP também são acusados de corrupção.? Estadão

?Aumenta a corrupção entre executivos.? JB

Caixa -dois vira alvo de executivo fraudador.? Folha

Não deixe de ler: a dívida externa revisitada

?Pode um país falir??. Claro que pode. A Argentina faliu e parou de pagar a dívida externa. Maria Clara Machado discute na Gazeta Mercantil da quinta (Pág A3) idéias antigas de Jeffrey Sachs para evitar moratórias unilaterais. Melhor é o artigo de Paulo Nogueira Batista, na página B1 da Folha da quinta, ?O jogo bruto da dívida externa?, em que ele resume idéias novas ainda em gestação entre os donos do poder, com o mesmo objetivo.Segundo Nogueira Batista, o FMI admite a inevitabilidade de certas moratórias, mas quer despojar os países devedores da capacidade de iniciativa. O objetivo é manter o controle da situação em qualquer circunstância. Não deixe de ler. (Bernardo Kucinski)"