Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jornalismo de Estado e a servidão induzida

CHAPA-BRANCA

Ivo Lucchesi (*)

Inúmeras foram as transformações implementadas, desde os anos 90, à luz do ideário neoliberal. Uma, entretanto, se destaca, dado o efeito cascata por ela provocado. Refiro-me à redefinição das funções do Estado e as conseqüências que recaíram sobre o desempenho da "grande imprensa", principalmente no Brasil. Para tanto, será antes indispensável a prefiguração de um quadro sistêmico, a fim de dar suporte crítico e visibilidade ao tema proposto acima.

A armadilha neoliberal

No centro da estratégia concebida pelo (neo)liberalismo, situa-se uma "armação contábil", tendo como alvo prioritário o Estado, cujas finalidades fundamentais, até então, se pautavam em atuar como arrecadador, investidor e provedor. É exatamente nesse tripé que a "inteligência neoliberal" encontrou a solução operacional para a remodelagem ajustada às necessidades estratégicas que viriam mascaradas sob o rótulo da indefinida e misteriosa "globalização".

Ideólogos e economistas, principalmente alocados nas "centrais de conhecimento e pesquisa" (Harvard, Princenton, Oxford, entre outros setores responsáveis pelo controle, como Pentágono e CIA), trataram de, ainda no início dos anos 80, definir em suas pesquisas, quatro linhas de ação, correspondentes a três etapas sucessivas: 1) redemocratizar sociedades que, em épocas anteriores, foram tuteladas por regimes ditatoriais; 2) democratizar sociedades que jamais conheceram a "liberdade"; 3) promover a formação de novas "nações" (com ou sem guerras), para expansão de mercados; 4) preparar e financiar nova classe de políticos comprometida com a implantação da "Nova Ordem Mundial".

A redemocratização da América Latina, o desmantelamento do Leste europeu, a "Guerra do Golfo" (também chamada de "Tempestade no Deserto") e o conflito nos Bálcãs traduzem os primeiros passos de uma criteriosa planificação. Da mesma matriz provêm, na inauguração dos anos 90, as plataformas políticas de Collor, Fujimori, Yeltsin, Menem, Berlusconi, Clinton, Blair, entre outros. Em comum, há o fato de, à época, serem todos absolutamente desconhecidos e/ou obscuros. Eram nomes inexpressivos no cenário político internacional ou local. Certamente, não foram "produzidos" pelo "inconsciente coletivo". Desta responsabilidade, Jung está isento.

Dando curso à segunda etapa da "armadilha neoliberal", drasticamente a esfera governamental, em diferentes partes do mundo, se foi, passo a passo, desincumbindo de atividades que lhe conferiam receitas, restringindo-se a áreas nas quais lhe cabia assumir gastos. Obviamente, o novo "modelo" estava concebido para transformar o Estado numa "empresa falimentar". Mais ainda dessa fórmula se ressentiram os países cujas economias já eram portadoras de endividamentos junto ao sistema financeiro mundial, bem como em âmbito interno, além de, em alguns casos, a isso se somar instabilidade política.

O fracasso da experiência brasileira

No caso do Brasil, não é difícil perceber como as peças foram movidas no tabuleiro da ciranda econômica. Com início no governo Collor e desdobramento acelerado nos dois mandatos de FHC, verificou-se a aplicação implacável da "política do saque". Os setores públicos lucrativos sofreram radical ataque de um sucateamento feroz, sob o rótulo de "privatizações". Em nome da "modernização", promoveram-se "leilões" (vários sob correta suspeição quanto à lisura), cujas receitas serviram como repasse destinado ao parcelamento da dívida externa e dos respectivos serviços, seguindo à risca as determinações elaboradas por altos consultores filiados ao FMI e ao BIRD. Internamente, foi "criada" a fantasia de uma "moeda forte", enquanto cresciam (e crescem) as "dívidas sociais". Em nome do combate à inflação, a população brasileira abdicou da "qualidade de vida". O resultado é visível: os pobres se encontram desamparados e os ricos ameaçados, ora sitiados no cárcere privado de suas mansões, ora em cativeiros, sob a mira de revólveres.

Os descaminhos irresponsáveis inspirados no modelo adotado não duraram o tempo calculado a princípio. A bolha estourou: a crise no abastecimento de energia e a epidemia de dengue, intermediadas pela onda triplicada de seqüestros, revelaram ao país o custo das mentiras. O Brasil, que vinha já de um longo período de perversões, em pouco mais de uma década, foi amesquinhado e conduzido a ser uma nação sem energia, uma população amedrontada e, por fim, infectada. Descrito o painel, pode-se agora tratar dos aspectos que figuram no título deste artigo.

O jornalismo de Estado

O que agora interessa aqui enfocar é o papel desempenhado pela "grande imprensa", frente às crises que não puderam ser maquiadas. A retórica cosmética não podia impedir a evidência das situações.

Especificamente quanto às três mais expressivas questões (energia, seqüestros e epidemia), fica a impressão de que surgiu uma nova modalidade de jornalismo, a julgar pelo tratamento dado às coberturas. Refiro-me ao "jornalismo de Estado". Assim nomeado, pode sugerir que se trata da reprodução do modelo já plantado em regimes socialistas. Na verdade, porém, em nada dele se aproxima. De imediato, perceber-se-á a impropriedade de um juízo apressado.

Ninguém pode acusar a "grande mídia" (impressa ou eletrônica) de controlar a informação, por omissões ou falsificações. O processo é bem mais sutil e eficaz. Todos soubemos, e até exaustivamente, dos acontecimentos, bem como do alcance da gravidade deles. Então, aparentemente a democracia foi resguardada. Quem pretendeu ler e ver deparou-se com farta oferta de material: editoriais, reportagens, entrevistas, fotos, tudo em larga escala. É, pois, justo nessa ampla exposição que se instala o propósito da manipulação, deixando a sensação de que se deu um delito sem rastro, ou o popular "crime perfeito".

Na condição de fiel contratada ("grande mídia") do não menos fiel anunciante (governo ? federal, estadual e municipal), a mídia cumpre a obrigação contratual de repassar e multiplicar a mensagem desejada por quem paga (o verdadeiro emissor ? Governo). A estratégia (fórmula) é a mesma para situações diferentes: 1) o impacto do fato em si ("falta de energia", "aumento da violência", "ameaça de epidemia"…); 2) exposição intensa de situações dramáticas (fatos, depoimentos, imagens tensas, pessoas desesperadas…); 3) difusão do medo e de punições severas (multas, cortes, mortes…); 4) a mídia conclama a população para o enfrentamento dos graves problemas, fazendo-se parceira e obreira, a fim de, em mutirão, erradicar a "invasão do mal".

O "jornalismo de Estado" é assim: assume a função de "porta-voz" do Governo. O efeito, dada a massacrante divulgação, gera, nas camadas populacionais, o processo de sensibilização. Assim, além de pagarem dezenas de impostos (e cada vez mais caros), ainda se transformam em "funcionários públicos desassalariados". A categoria de "servidores públicos" recebe legiões de "servilistas do medo".

A última etapa do processo consiste na redenção heróica dos "escravos": o "Jornalismo de Estado" cobre a adesão em massa, enaltecendo o espírito da "cidadania participativa". A maioria "escrava", sem mágoas, sem revolta, sem o mínimo de indignação, (e até feliz), retorna para casa, após cumprir a agenda do "lazer-escravo". Chamo à atenção que o presente quadro não se confunde com o que o jovem La Boétie, ainda em 1577, escrevera com o título de Discurso da servidão voluntária. Naquela época, não havia mediadores tão sedutores que induzissem a população à negação de si. Menos ainda, data daquele tempo, um "sociólogo italiano e consultor de empresas ? Domenico De Masi ? para escrever e conceder entrevistas, em peregrinação pelo mundo, sobre o prazeroso e idílico futuro, sob a égide do Ócio criativo. Enquanto isso, a maioria tende a não perceber o presente mais imediato. Nele, a promessa do "ócio criativo" está ocupada pelo "lazer destruído". Vamos ilustrar o que se está afirmando…

No episódio do "apagão", era visível em muitos a comemoração (auto-satisfação), ante a "vitória" de suas estratégias de racionamento. A mídia se empenhava em focar pessoas que se regozijavam pela economia e por se salvarem do draconiano e ilegal corte de energia em suas residências. Consumiram suas energias vitais para atender a arrogância dos irresponsáveis e delituosos. Recompensados também se sentem aqueles que, horrorizados diante da crueldade de seqüestradores, acompanham os noticiários, agradecem por não terem sido ainda vitimados. Outros tantos fortalecem sua auto-estima se entregam a campanhas salvíficas, percorrendo quilômetros sob escaldante temperatura, à procura do "mosquito maldito". A tudo se submetem com o plácido sorriso de quem viveu profunda experiência gozosa.

Os telejornais de sábado (9/3/02) proclamavam que, no estado do Rio de Janeiro, havia sido mobilizado o contingente de 15 milhões de pessoas, além de distribuição de 20 milhões de folhetos. Bem, quanto às pessoas, fica a pergunta: quem as contabilizou e com tanta rapidez? Quanto aos folhetos, outra pergunta: quanto os cofres públicos pagaram pelo encarte? No mínimo, o custo industrial da impressão com três cores é mais que R$ 1,00. Que teriam feito preventivamente com mais de R$ 20 milhões, se destinados a programas efetivos? Será que dinheiro existe só para publicidade?

Os jornais, na edição de domingo (10/3/02), davam conta das seguintes chamadas: "Voluntários vão às ruas contra dengue" (O Globo), arrematando com o saldo na cidade do Rio de Janeiro: "Dia D tem forte mobilização e autoridades estimam que 550 mil participam da campanha". A manchete do Jornal do Brasil era "Dengue muda modo de vida dos cariocas". As duas edições remetiam o leitor para mais três páginas. Nenhuma denúncia, a não ser o fato de que proprietários de automóveis seriam multados, caso estivessem abrigando focos do "invasor assassino". Nada contra ministério e secretarias da Saúde. Nada contra o descaso quanto a políticas de educação que, se aplicadas convenientemente, são menos custosas e mais duráveis. A depender da atuação da "grande mídia", nada será alterado. O "jornalismo de Estado" não existe para causar incômodos a quem lhe fornece apetitosas receitas…

O jovem La Boétie e o velho Hegel nem de longe podem ser considerados ultrapassados. Apenas, à luz da "Nova Ordem Mundial", precisam ser re-atualizados. Afinal, não poderiam prever tantos desdobramentos, com tanta margem de antecedência. Claro, Hegel estava correto quando, tratando da dialética do senhor vs. escravo, sentenciava: "O escravo só é escravo porque teme a morte". Só que Hegel não tinha dados que pudessem insinuar a condição de escravidão divorciada de um fantasma mais terrível. Como poderia Hegel conceber que alguém optaria pelo regime de escravidão para sentir-se feliz? Pois no atual cenário, é exatamente essa a dedução para quem sabe ler o enredo. A nova estratégia, sob o reforço dedicado do "jornalismo de Estado", faz inflar, em nome da "democracia-cidadã", bolsões de agregados servis, cuja responsabilidade consiste em chamarem para si (e pagando) o ônus a fim de continuar integrando a "sociedade flagelada".

Assistimos, portanto, a um modelo duplamente perverso: a aliança entre práticas engendradas pela fria e despótica matriz capitalista, em versão neoliberal, e práticas desenhadas pela impessoal matriz socialista, em versão de "democracia participativa". E mais, com a agravante de não haver nenhum tipo de consolo quanto ao que se possa extrair de benefício tanto de uma quanto de outra. O projeto neoliberal desmantelou o bloco socialista, com o intuito de poder, sem nenhum pudor, incorporar o que, no socialismo, havia de mais nefasto. Enfim, numa ponta o soberano capital; na outra, a servidão induzida. No meio, o "jornalismo de Estado" como avalista da perversão. Ao capital, fica o encargo de desenhar a servidão; ao "jornalismo de Estado", cabe a responsabilidade de aprimorar os mecanismo de indução. À população servil, resta o empenho de encontrar satisfação na função de "escravo feliz", abraçado à democracia neoliberal que exige dele: denunciar, vigiar, precaver-se contra tudo, cuidar de sua saúde, de sua educação, de seu meio ambiente, de seu emprego, de sua habitação, de sua segurança. Caso contrário, será punido com a supressão da liberdade ou com a pena capital: a morte… Se a ingenuidade, porém, der lugar à criticidade, poderá, quem sabe, haver alguma chance.

(*) Professor de Teoria da Comunicação, ensaísta, mestre em Literatura Comparada pela UFRJ e doutorando em Teoria Literária pela UFRJ. Participante do programa Letras & Mídias, exibido mensalmente pela UTV