Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Marcelo Coelho

REALITY SHOWS

"Programas que não significam nada", copyright Folha de S. Paulo, 03/04/02

"A graça da torre Eiffel, dizia Roland Barthes, está no fato de que ela é inútil; mais do que isso: não pretende significar nada. E, não significando nada, podemos interpretá-la como quisermos. É quase um signo vazio, uma metáfora de qualquer coisa: símbolo de Paris, da modernidade, do século 19, ponte entre a Terra e o céu, pára-raios, falo, inseto, que importa?

Estou longe de achar desimportantes as discussões em torno de ?Big Brother? e congêneres. As interpretações são muito variadas, o que é normal. Mas, se o fenômeno televisivo pode ser interpretado de infinitas maneiras, talvez seja porque o conteúdo do programa em si -aquilo que as câmeras registram dentro da famosa casa- não significa absolutamente nada.

É o que sugere Ciro Marcondes Filho no caderno Mais! do último domingo: ?De nada adianta discutir o conteúdo na série. Críticas teóricas, análises de conteúdo, tudo inútil. O segredo está na superfície.?

Tendo a concordar com essa opinião. Só que, logo em seguida, vemos que, para o autor, essa ?superfície? não é tão superficial assim. Por trás dela, ou no fundo dela, haveria uma pulsão, ?a pulsão do se mostrar, do abrir sua intimidade ao outro.? Como bem diz Marcondes Filho, a internet reflete isso: ?Diários íntimos multiplicam-se na internet, pessoas expõem seus sentimentos mais interiores, seus sentimentos mais escondidos?.

O artigo de Ivana Bentes, na mesma edição, igualmente destaca ?uma hipertrofia do campo do privado e da intimidade, uma supervalorização do indivíduo?, que coloca a confissão no centro do debate.

De outro ponto de vista, Jurandir Freire Costa escreve que a intimidade ?caiu do pedestal?, perdeu sua ?atração moral e emocional?. Os ?reality shows? não desrespeitam a privacidade; ?simplesmente a retratam sem os ideais que, até então, a tornavam sublime?. Faz sentido também.

Pensei em outra coisa. O jornal noticiou outro dia que há um site na internet que transmite, durante 24 horas por dia, o cotidiano de um gato. Quase nada acontece. O bicho foi atropelado e está em recuperação. Anda um pouco, dorme, toma leite. O site é um sucesso.

Não é a intimidade do gato, imagino, o que está em jogo. Muito menos se trata de voyeurismo nosso ou de exibicionismo do animal. Ignoro por que tanta gente visita o site. Faço uma suposição, contudo. O site é visitado exatamente porque não há nada lá.

Esse motivo não é tão absurdo assim. Uma das características mais óbvias da televisão, do cinema popular, dos videogames e da própria tela da internet é a produção ininterrupta de estímulos. A publicidade faz tudo para chamar a nossa atenção; o ritmo das cenas de um filme policial já parece por si mesmo um tiroteio. O site do gato já seria um alívio.

É fácil encontrar na Bienal alguma dessas instalações com uma TV no meio, em que aparece, por exemplo, um sujeito mascando chiclete horas a fio ou preso durante dias numa redoma de plástico.

E é também fácil encontrar um ensaio dizendo que, com isso, se pretende discutir a questão da temporalidade etc. Andy Warhol filmou o Empire State horas e horas -exortando o espectador, sem dúvida, a parar de ter pressa, a fixar os olhos no nada.

Claro que um ?reality show? não é obra de vanguarda; claro que, obedecendo à lógica do entretenimento, precisa causar sensação. Silvio Santos outro dia teria dado uma bronca nos participantes de ?Casa dos Artistas?: estava faltando intriga, sexo, emoção, ibope no programa. A notícia da tal bronca, de qualquer modo, foi mais comentada do que qualquer acontecimento dentro da casa.

Voltando ao início. Tenho dúvidas de que muita intimidade esteja sendo devassada em ?Big Brother? (aquilo, aliás, é justamente o oposto de uma família comum). Acho verdade, por outro lado, a tendência para a auto-exposição e para fazer confissões em público.

Se isso ocorre, cabe entretanto perguntar se a esfera do inconfessável, do íntimo, simplesmente não mudou de lugar. Creio que não se está mais à procura de nudez, de sexo, nem mesmo de perversão: o que se quer, de fato, é a banalização de tudo isso. O interesse das confissões, dos diários na internet ou dos ?reality shows?, é que nada é tão interessante assim.

O que excita, o que escandaliza, o que é, digamos, ?explorado pela mídia? em ?Big Brother? e ?Casa dos Artistas? é a burrice dos seus participantes. O que mais dá ?frisson? não é o corpo perfeito da Fulaninha, mas a última gafe que ela cometeu. Do mesmo modo, todos vibram quando os universitários do ?Show do Milhão? caem na esparrela.

Adolescentes adoram o ?trash?. Ninguém cometeria a ingenuidade de perguntar: ?Mas como é que eles gostam de uma coisa tão ruim??. Sabemos que eles sabem que é ruim.

O que é que se passa na cabeça de quem assiste a um ?reality show?? Talvez nada; não sei. Talvez quem assista não tenha como responder. O gosto de mandar gente embora do programa? Sonho de ser um participante do programa? Sentir que não há diferença entre um e outro lado da tela? Sentir que há diferença? Fugir da própria intimidade? Reencontrá-la? As duas coisas ao mesmo tempo? Necessidade de fugir de questões importantes? Necessidade de fugir do frenesi publicitário e da irrealidade de tantos outros programas?

Estamos diante de um mistério. É essa a intimidade que, inconformados, queremos devassar. O público desses programas (assim como os adolescentes, ou os eleitores de Enéas, ou os ?outros?, enfim) resistirá à nossa inquietação com toda a passividade, com toda a espessura de seu espírito. ?O senhor pode me desprezar. Mas aqui dentro de casa o senhor não entra.?"

"O sucesso de um programa ruim", copyright Jornal do Brasil, 04/04/02

"A audiência massacrante do episódio final de Big brother Brasil é o mais escarrado atestado de que a coisa toda foi uma unanimidade: 59 pontos no Ibope, isso em média, com picos de 64. Trata-se de uma audiência mais que absoluta, absolutista. São números que fazem lembrar Janete Clair e suas novelas que unificavam a nação. Quanto ao resultado, ou melhor, a julgar pelo perfil dos três finalistas do programa, bem, aí se pode dizer, com segurança, que aquilo tudo foi a prova cabal de que toda unanimidade não prima exatamente pelo brilho do pensamento ou pela inteligência. Unanimidades são medianas, no melhor sentido. E medíocres em seu sentido mais frio. Nélson Rodrigues dizia, como todo mundo não cansa de repetir, que a unanimidade é burra. Mas formular a coisa nesses termos, agora, talvez seja ofensivo. Kléber, o campeão dos campeões, é a melhor síntese do Brasil segundo a brodagem da Globo. Kléber é o brasileiro-símbolo. É o superbrasileiro. Se fôssemos recorrer a Euclides da Cunha, que pensou um pouco sobre a nossa gente, talvez disséssemos que o brasileiro é antes de tudo um Kléber. Ao menos segundo o BBB. Ou, talvez, que o brasileiro é, depois de tudo, um Kléber. Um Kléber apocalíptico, a partir do qual só o desalento nos redimirá. Kléber é o ponto máximo na escala evolutiva nacional, o jeca total cibernético. Ave, Kléber.

Peneirada – Kléber, com o seu sotaque de interior, aquele ??erre?? que parece que leva um til em cima, um ??erre?? que escorrega para um ??i?? mais denso, oleoso, de tal forma que quando o sujeito diz porta ele parece dizer ??póita?? ou, como o Kléber, que quando diz ??faz parte?? parece dizer ??faz paite??, Kléber é o que de melhor o Brasil tem a oferecer. Bão, né? Em Kléber, pode-se dizer, o sotaque é a maior virtude. Vixe, se é. A prosódia interiorana tem lá sua beleza singular. Ô, se tem. Pois Kléber é o que há de melhor neste Brasil, nesse mundão véio sem portêra. Faz paite.

Kléber, é bom ter sempre em conta, é resultado de rigorosíssima seleção. Como seus colegas de trabalho, de internato, de cárcere privado voluntário, ou, mais simplesmente, de Big brother, passou por exames em profundidade, competindo com milhares de outros, até chegar onde chegou. A Globo avaliou um a um, todos os milhares, e escolheu aqueles que todos tivemos de ver durante esse período dentro do cárcere ao vivo. Se os que participaram do programa são mesmo os melhores, ainda bem que não tivemos, nós, o público, de ver os outros. Ainda bem que a Globo fez a primeira peneirada. Deve mesmo ter sido dificílimo.

Ficam ainda perguntas incômodas, ao fim de tudo – ao fim do mundo. Que tipo de afeto pervertido terá movido o público impiedoso a votar em Kléber? Foi desejo? Foi comiseração? Foi sadismo? A massa cruel votou em Kléber para que Kléber se expusesse ainda mais e, expondo-se para além das medidas, divertisse ainda mais a patuléia sem coração? A multidão terá descartado Vanessa por racismo implícito, porque ela se declarou seguidora do Candomblé? Esse resultado foi uma vingança contra o establishment? Ou foi simplesmente um elogio da flor inculta, aquela que, quando tocada (pela mídia) fenece? Foi uma revanche do Sermão da montanha: bem aventurados os pobres de espírito?

Ídolos – Ao fim de tudo, ao fim do mundo, resta a constatação de que Big brother, como seus imitadores, é apenas e tão-somente um programa muito ruim, este é o ponto. É um programa que mobiliza impulsos baixos, catalisa forças brutas, incultas, recruta perfis humanos não-lapidados e concorre para reproduzir o que há de mais bizarro e mais esvaziado entre o público. Que ídolos poderão ser forjados ali? Que exemplos ficam? Quais as lições? A de que a intimidade é uma moeda de troca? A de que o exibicionismo é um meio para que se consiga mais visibilidade e que a visibilidade a mais é apenas um meio para mais exibicionismo ainda? A de que o exibicionismo é um atalho para o êxtase exibicionista? A de que tudo o que vale é consumir carros zero e ser consumido pela platéia gritalhona? A de que a fama é condição para o prazer de ser ainda mais consumido? A de que ser consumido pelo consumo é o supra-sumo da felicidade? Ficam muitas perguntas, muitas mesmo. Que grandes talentos esse tal de BBB vai nos deixar? O cantor? Bem, talvez o cantor, André, que declarou tomar laxante assim, em pleno ar, ao vivo, para desconforto gástrico de Pedro Bial. André, que agora foi agraciado por uma gravadora com a promessa de que lançará um disco seu, talvez seja o maior talento revelado durante toda a gincana. Talvez ele cante umas modas caipiras, devidamente industrializadas e descaracterizadas, devidamente trucidadas, talvez ele as cante apenas para homenagear o nosso estado kleberístico de alma deslavada. A massa, emulada pelo medíocre, elege como divindade o mais medíocre ainda. Por isso tudo é que esses reality shows não passam de programas péssimos. Eles se alimentam do ruim e desovam o pior.

Não adianta dizer que isso tudo é culpa do telespectador, que adora baixaria. Isso tudo é culpa de uma televisão que desistiu de buscar fórmulas novas, que se contenta em importar a baixaria pronta, empacotadinha, com uma bula bem didática. Isso é culpa de uma televisão que desistiu de ser imaginativa e que se rendeu à condição humilhante de copiar o que não precisa de alma para ser fabricado em série. Kléber, pelo menos, vai sair dessa bobagem com meio milhão de reais na sua conta. Merecido. É um bom rapaz, que faça bom proveito. Quem mais está perdendo, achando que está ganhado audiência, é a própria televis&atilatilde;o. É ela quem diz ao Brasil, hoje, que o melhor do Brasil é Kléber. O Brasil, pouco a pouco, fica duvidando. E já não verá a TV com os mesmos olhos.

Não pense o leitor que eu exagero. Pense, antes, nos exageros medíocres que a televisão vem cometendo. E pense se você se reconhece naquilo lá."

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"?Reality shows? e videoteipe", copyright Folha de S. Paulo, 07/04/02

"Como aconteceu em muitos outros países, os ?reality shows? vão se integrando à rotina da televisão também no Brasil. Viraram normalidade. E olhe que estamos só no começo do ciclo. Há muito ainda a ser explorado no novo gênero antes que a saturação o esvazie de uma vez: podem vir aí programas mais picantes, como os dedicados ao adultério, e também os que exploram o medo extremo. Mesmo assim já se pode dizer: os ?reality shows? mal começaram e já fazem parte do cotidiano da TV, como o sofá da Hebe.

Estão integrados porque nasceram integrados. No início, passavam a impressão de ser uma ?revolução?, para usar esse termo tão caro à mística publicitária pequeno-burguesa, mas nunca foram mais que um prolongamento da mesmice que já estava aí. Hoje, isso é mais fácil de ver. Para começar, eles são o prolongamento daquelas gincanas tolas dos programas de auditório, como as ?pegadinhas? ou o ?topa tudo por dinheiro?, assim como das ?videocassetadas? do Faustão, esse inventário descartável do pastelão da vida privada anônima na sociedade de consumo. São aparentados, do mesmo modo, de primitivismos como os ?testes de fidelidade? do João Kléber.

A televisão, desde sempre, compõe-se dessa pulsão dupla: a sanha voyeurista e o furor exibicionista. O voyeur eletrônico, o sujeito que ?gosta de olhar?, aquele a quem se dirigia, explicitamente, a propaganda do ?Big Brother?, é o avesso do exibicionista virtual, o tal que gosta de mostrar. As duas vertentes se completam no olhar instantâneo e permanente da TV. As duas se realizam no olhar, no olhar do outro ou no olhar para o outro, o que dá no mesmo. Em tempo: televisão é isto. Televisão é só isto.

Favela Naval, quem não se lembra? Em abril de 1997, uma câmera anônima, oculta, um cinegrafista ?voyeur?, gravou os policiais criminosos que torturavam e alvejavam os passantes. Um momento memorável do ?Jornal Nacional? e, também, um ?reality show? avant la lettre. Agora, o pediatra Eugênio Chipkevitch assombra multidões. Consta que ele mesmo gravava em vídeo os abusos cometidos. Por quê? Obsessão mórbida do cientista, que a tudo quer documentar? Desejo inconsciente de adquirir existência na virtualidade, de desaguar, um dia, quem sabe, no olhar social? Tanto faz. O fato é que ali também, no triste episódio do pediatra pedófilo, consumido como bacalhau pela mídia, há de novo um ?reality show?.

O ?Big Brother? ou a ?Casa dos Artistas? prolongam e aprofundam esses traços constitutivos da televisão. Não rompem coisa alguma. Apenas radicalizam. Intensificam, por exemplo, a mania de fazer pesquisas para decidir o destino dos aquosos personagens de novelas (muita coisa dos enredos das novelas, quase não nos damos conta, vem dos palpites da platéia, repartida em grupos fechados nas pesquisas qualitativas). Novelas, quem diria?, são interativas. Como o ?Você Decide?. Como a ?Casa dos Artistas?.

Não é verdade que telenovelas sejam comunicação de massa em estado puro e que ?Big Brother? seja pura interatividade. ?Reality shows? e telenovelas são ao mesmo tempo comunicação de massa e interatividade mercadológica. Essas categorias se mesclam feito geléia. Do mesmo modo, o apelo sensacionalista do pediatra pedófilo e a gritaria espetaculosa de um competidor no ?Big Brother? têm mais semelhanças do que diferenças. Um e outro teatralizam as próprias perversões, mercadejam com elas, ainda que apenas potencialmente. Um e outro, considerados como objetos do espetáculo e não em suas misérias individuais, exprimem a mesma patologia social, ainda que em patamares distintos. Um é o videoteipe do outro.

E daí? Quem perde com isso não é o público, nem o país, nem a moralidade. Quem perde é só a TV. Quanto mais ela ceder ao que é apelativo e fácil, menos terá condições de falar do que interessa. É uma pena."