Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Nirlando Beirão

ELEIÇÕES 2002

"Patrícia Pillar já comunicou à Globo que vai fazer campanha por Ciro", copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 11/03/02

"A corajosa irrupção de Patrícia Pillar – com visual novo, ditado pelo tratamento de quimioterapia a que se submete – numa reunião de políticos em torno de seu namorado e presidenciável Ciro Gomes, esta semana, confirma que a atriz, agora, vai entrar de cabeça na campanha.

Em 1998, com o namoro ainda mantido em sigilo, ela só uma vez arriscou-se a estar nas vizinhanças de Ciro: num comício na Baixada Fluminense. Agora, Patrícia pediu licença à Globo para tratamento de um câncer e poderia dispor do tempo a seu bel prazer durante a campanha eleitoral.

Ainda assim ela preferiu, em apreço à ética, comunicar oficialmente à emissora dos irmãos Marinho que ninguém deve estranhar se, de repente, for vista no palanque ao lado do ex-governador Leonel Brizola.

À lisura da atriz, pressupõe-se que a emissora responda com algum cavalheirismo, embora os precedentes não recomendem muito otimismo. Para a Globo, basta ser amigo de Brizola para se transformar automaticamente em hiper-inimigo da casa."

 

"Momentos de paranóia política", copyright O Globo, 7/03/02

"Se você continua não entendendo biscoito, vale a pena pensar um pouco sobre dois fenômenos políticos que estão em moda: paranóia e teoria conspiratória, que existem de dois tipos, espontâneas e fabricadas. Na presente epidemia, as duas formas se confundem, tornando quase impossível distinguir a fria manobra política da reação emocional detonada pelo medo da facada nas costas.

Examinemos três episódios distintos. Quem sabe você acaba entendendo alguma coisa. Quem sabe, eu acabo entendendo alguma coisa.

Primeiro episódio, e único já praticamente terminado: os prefeitos do PT. Ao serem assassinados os de Campinas e Santo André, com curto intervalo, a paranóia produziu a sinistra teoria do crime político: próceres petistas estavam na mira do terror. O presidente de honra chegou a dizer, textualmente: ?Tem gente grossa por trás disso.?

O clima chegou a tal ponto que o governo paulista aceitou a presença de um criminalista, deputado do PT, acompanhando de perto as investigações. Num momento de bom senso, essa extraordinária exceção não seria criada: a polícia, mesmo a brasileira, não pode aceitar que alguém fique olhando por cima do ombro do delegado para que se tenha certeza de uma investigação competente. Normalmente, o advogado que representa a vítima só interfere no processo na etapa judicial. A exceção aberta para acalmar o PT cria um precedente perigoso.

No fim das contas, o advogado se portou bem, e acabou reconhecendo que não acontecera crime político algum. Falta o gesto nobre de Lula, que só não o fez certamente por desatenção ou agenda cheia: pedir desculpas à opinião pública e aos seus eleitores pela afirmação categórica sobre ?gente grossa?. Você decide: foi paranóia natural ou artificial?

Segundo episódio: a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, exigindo a monogamia partidária, das alianças nas candidaturas a presidente até os pactos para as assembléias estaduais. Políticos e cientistas políticos estão discutindo tanto o mérito da decisão em si, como a sua pertinência a esta altura do processo eleitoral. Não precisamos nos dar ao trabalho de uma análise comparativa das variadas e doutas interpretações. O mais inteligente é acharmos que tem inteira razão o último prócer ou teórico que lemos ou ouvimos: pelo menos, os argumentos ainda estão frescos em nossas perturbadas cabeças.

Mas vale a pena meditar sobre a teoria conspiratória em marcha: a decisão do TSE, andam dizendo, seria fruto de uma conspiração governista. Ninguém chama atenção para o fato de que isso exigiria cumplicidade entre Fernando Henrique e Leonel Brizola. Ambos aplaudiram a decisão do tribunal, que teria sido comandada pelo ministro Nelson Jobim, íntimo aliado do presidente, e provocada por consulta do deputado Miro Teixeira, líder do PDT.

Nenhuma mente livre de paixão consegue imaginar Fernando Henrique e Leonel Brizola unidos numa cabala. Na cascata de denúncias apaixonadas, ninguém mencionou a dupla Miro-Brizola – esses palacianos incorrigíveis – embora sem o gesto do primeiro, com a concordância do segundo, nada aconteceria. Falou-se apenas numa trama entre o Planalto e os ministros do tribunal.

É cômico e é grosseiro. Principalmente porque, no primeiro momento, era impossível identificar os mais prejudicados. Como a regulamentação divulgada terça-feira não é taxativa a respeito, pode-se concluir que a regra nova (ou a vigência inesperada de regra velha, como lembram alguns) atrapalha, em graus diferentes, a vida de todos os candidatos e pelo menos alguns planos de todos os partidos.

No terceiro episódio, a conspiração é contra o PFL, vitimado na pessoa da governadora do Maranhão. Contra Roseana Sarney estariam mancomunados o Planalto, a Justiça Federal e o Ministério Público, unidos para eleger José Serra.

É outra improvável aliança: quem ignora o que já sofreu o governo federal em face da sanha inquisitorial dos jovens turcos do Ministério Público? A eles o país deve uma incansável luta contra variadas formas de corrupção; por outro lado, muitos deles devem ao país aprender a trabalhar direito, sem tratar indícios como provas e suspeitas como certezas. Esse tipo de comportamento se agrava quando, para garantir que os inquéritos avancem, eles fazem públicas suas suposições ou deixam vazar o que deveria ser sigiloso. Infeliz-mente, a imprensa, com constrangedora freqüência, aceita fazer-se docilmente sócia desse comportamento. Comete o erro de considerar jornalismo investigativo – que dá um trabalho danado – a aceitação cômoda e acrítica dos vazamentos.

Segundo a teoria conspiratória, desta vez o vazamento não partiu das fontes habituais, e foi uma armadilha montada pelo Palácio do Planalto visando a desmoralizar a candidata do PFL e ajudar a candidatura José Serra.

Não vale: é preciso ter mais do que desconfianças e indícios para garantir que desta vez a imprensa não foi abastecida pelos fornecedores de sempre. Além disso, toda a indignação da governadora e de seu pai não oculta o que houve antes do vazamento: um procedimento judicial legítimo, determinado por quem podia fazê-lo e executado por quem de direito, no curso de uma investigação iniciada há tempos. O ato legal não ofende – e a queixa inicial de que a ação foi de surpresa é espantosa. Não poderia ser de outra maneira, a não ser num país que não desejamos que exista mais. Um país que lembrava a fábula orwelliana da ?Fazenda dos animais?. Alguém não leu? Quando os porcos assumiram o controle total, o principal mandamento da revolução contra os humanos foi reescrito: ?Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros.?

É preciso ser muito ?mais igual? para ter direito a aviso prévio de uma operação legal de busca e apreensão.

A governadora, na verdade, tem apenas dois adversários óbvios. O primeiro é o ânimo adesista de seu próprio partido, que sente falta de ar quando distante do poder. O segundo é a sua própria estratégia de defesa, procurando negar ao juiz e ao promotor os documentos apreendidos no escritório. Por que fazê-lo, se nada há a ocultar? Melhor do que liderar um motim contra o governo e a governabilidade – além da crueldade de tirar o irmão de um ministério onde ele ia tão bem – seria exigir que fosse exibido, e não trancado, o papelório encontrado. Sem esquecer de explicar um pouco melhor o dinheirinho em espécie. Provar inocência seria, e ainda pode ser, politicamente mais inteligente do que tentar jogar um partido inteiro na onda da paranóia.

De resto, não fica bem a qualquer político que se sabe honesto ser flagrado beneficiando-se, pelo menos na aparência, do mesmo conceito jurídico que almas malvadas atribuem a Paulo Maluf:

?Todo homem é inocente enquanto o inquérito não vai em frente.? (LUIZ GARCIA é jornalista.)"