Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Quando o jornalismo político vira ficção

ELEIÇÕES 2002

Antônio Lemos Augusto (*)

O noticiário político neste ano é um verdadeiro campo para análises semióticas ou coisas do gênero. Só para começar, podemos ilustrar com um exemplo imaginário. Imagine um candidato ao governo de um estado hipotético. Ele representa a situação: é o candidato do governador, que, já reeleito, precisa emplacar alguém de seu colete. O candidato imaginário já foi secretário de Comunicação. Também já foi secretário da Casa Civil. Chegou ao Senado pelas mãos do governante e lá ocupa uma cadeira, quando não está em campanha.

Repentinamente, o candidato convida a imprensa para jantar.

Não vou entrar no mérito se o candidato imaginário deveria ou não convidar a imprensa para jantar e, principalmente, se a imprensa deveria comparecer ao jantar. Mas vamos continuar nosso esforço de ficção. O tal estado hipotético tem três jornais principais. Cada jornal, dentro da tradição dos jornais, mantém uma coluna política. Na primeira edição posterior ao jantar, as três colunas políticas reproduzem notas praticamente iguais afirmando com todas as letras que o candidato será bonzinho com a imprensa. Podemos fazer literatura imaginando os textos dos jornais:

Jornal 1 ? "Se eleito governador, vai manter um relacionamento franco, aberto e responsável com os profissionais da imprensa e com os meios de comunicação";

Jornal 2 ? "Se for eleito, não permitirá a ditadura do poder econômico sobre as pautas dos jornais";

Jornal 3 ? "Quer um relacionamento aberto e leal com a imprensa" e "prometeu, além da assiduidade com a imprensa, abolir a influência do poder econômico na pauta do jornalismo".

É claro que tudo é ficção, afinal quando três jornais concorrentes se renderiam assim a promessas de um candidato com textos tão semelhantes e ocupando, nos três veículos, o mesmo lugar: a nobre coluna política?

Mas continuemos nosso esforço fictício: imagine, leitor, que nas notas veiculadas nos três jornais não há qualquer esboço de o candidato ter sido questionado sobre seu passado com a imprensa, afinal ? na nossa peça de imaginação ? ele foi secretário de Comunicação… Em nosso exercício literário, o candidato era homem forte do governador, tanto que chegou ao Senado pelas mãos do governante.

Parece, então, que o governo que o candidato representa nunca pressionou a imprensa, nunca derrubou pautas, nunca vetou jornalistas, nunca se escondeu de assuntos sérios, principalmente sociais… Até porque, na nossa ficção, não posso acreditar que os veículos de comunicação veiculassem tais notas se realmente o candidato em questão tivesse algo maculando seu currículo com a imprensa. Com certeza, no tal jantar, o candidato foi questionado, colocado na parede, pressionado sobre fatos recentes que não foram veiculados, foram deturpados, foram maquiados, foram plantados… Mas, como as notas dos veículos fictícios veiculam, tudo isso é passado, embora o candidato seja situacionista.

Nada contra o candidato, até porque tudo aqui é ficção: o candidato é ficção. As notas são fictícias. E a imprensa é fictícia.

(*) Jornalista em Cuiabá, coordenador do boletim semanal Imprensa Ética. E-mail: <arlaarla@terra.com.br>