Sunday, 07 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1199

Indígenas e a pandemia: a tragédia que se repete

(Foto: Alex Pazuello/Fotos Públicas)

No final de junho de 2020 a terra indígena Yanomami localizada em Roraima no Amazonas recebeu um grupo de mulheres de militares fazendo doações de roupas, maquiando as mulheres indígenas e instalando um pula-pula, o que causou a aglomeração de crianças e adultos indígenas sem o uso de máscaras. O acontecimento foi descrito como uma “ação social” pelo Ministério da Defesa.

Até 16/07/2020 foram registrados 280 casos de Covid-19 e quatro mortes entre o povo yanomami.

O episódio promovido pelo governo de Jair Bolsonaro não só desrespeitou o povo yanomami como também o expôs aos riscos da aglomeração em tempos de pandemia, já tendo casos de infectados entre eles. O irônico acontecimento chamado de “ação social” com o intuito de oferecer algo ao qual os povos originários não pediram é apenas parte de uma história bem mais antiga. A história da colonização e do extermínio dos povos originários das Américas.

Dados de 25/07 de 2020 da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), apontam que há 571 indígenas mortos pela Covid-19 no Brasil. Os números crescentes e a falta de esforços para reduzir o contágio mostram que o Estado brasileiro além de ser omisso a situação dos indígenas, também é diretamente responsável pela propagação do vírus, levando-o para as aldeias através de profissionais da saúde, garimpeiros e grileiros, que aumentaram as invasões durante a pandemia.

Em março, a Funai suspendeu ações assistenciais cortando cestas básicas em terras indígenas, aumentando a desnutrição e consequentemente aumentando a vulnerabilidade ao Covid-19, em abril, o primeiro indígena é infectado por um médico da Sesai.

A maneira que o auxílio emergencial foi distribuído também contribuiu para a contaminação dos povos indígenas, muitos tiveram que sair de suas aldeias para receber o auxílio, o governo não elaborou uma estratégia para que aqueles que não possuíssem internet pudessem receber o auxílio sem se expor ao vírus.

O descaso do governo para os povos nativos não se resume ao Brasil, nos Estados Unidos, em maio, o número de infectados do povo indígena Navajo havia ultrapassado o número de casos em Nova Iorque e doenças cardíacas, obesidade e diabetes contribuíram para piores resultados do Covid-19. No estado de Arizona, a taxa de mortalidade para povos indígenas é seis vezes maior que para os brancos e em Mississippi a taxa é dez vezes maior, de acordo com o Laboratório de Pesquisa APM.

Os números refletem a época de colonização dos europeus, as tribos estão hoje tentando combater um vírus sem recursos adequados, fazendo um paralelo histórico de quando povos indígenas foram dizimados por doenças infecciosas, como o sarampo, cólera e febre tifóide, cujo historiadores acreditam serem responsáveis pela morte de mais de 70% dos nativos que não possuíam imunidade a essas doenças.

A história dos indígenas com pandemias é antiga, ainda no século 19 as doenças eram utilizadas propositalmente para exterminar tribos. Vírus foram usados como arma biológica contra nativos. Em 1500 a população indígena excedia dois milhões de pessoas, em 2001 restavam apenas 300 mil.

O ato de sobreviver a uma pandemia não está relacionado apenas a história, está no sangue indígena. É um fato que as condições dos nativos que povoam a América é o que os tornam vulneráveis, não é apenas sobre imunidade, é pobreza e descaso.

Muitos estão morrendo e não são contabilizados, estão sendo eliminados dos dados porque a etnia indígena é constantemente ignorada ou mesmo classificada erroneamente. Sem esses dados, os nativos estão sendo apagados da história. Com base nos números que o Ministério da Saúde disponibilizou, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves calculou que indígenas tem 98% a mais de chance de vir a óbito do que pessoas da cor branca.

O povo indígena não precisa de maquiagem e pula-pulas, não precisa de aglomeração e desrespeito, precisa de atenção e apoio médico, precisa de cuidado, alimento e soluções reais, estratégias que os exponham o mínimo possível ao Covid-19, como por exemplo, uma forma de receber o auxílio emergencial sem precisar sair do isolamento social. É obrigação do governo oferecer suporte e preservar a vida dos indígenas.

Está na hora de parar, sentar e aprender com o passado, ouvir o que os nativos de nosso país tem para nos ensinar, antes que a história seja apagada completamente e nossas raízes sejam perdidas.

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Leandra Diamor é estudante de Letras Vernáculas na Universidade Estadual de Londrina e escritora freelancer.