
Tropas de Martinho Bugreiro. (Foto: Reprodução Portal do Rancho)
A formação de jornalistas passa, necessariamente, pelo exercício de questionar narrativas consolidadas e ampliar o repertório de vozes presentes no debate público. Foi esse o desafio assumido pela estudante Berta Thiesen ao investigar a história de Martinho Bugreiro, personagem frequentemente citado na colonização de Santa Catarina, mas raramente abordado a partir da perspectiva dos povos indígenas que sofreram diretamente os impactos dessa violência.
O objetivo era provocar uma reflexão sobre como determinadas memórias permanecem invisibilizadas e como o jornalismo pode contribuir para reconstruí-las. Por isso, a escolha editorial foi dar protagonismo à entrevista com a pesquisadora e liderança indígena Walderes Coctá Priprá, do povo Laklãnõ, cuja narrativa conecta passado e presente ao mostrar que os efeitos da violência colonial continuam presentes nas disputas por território, memória e direitos.
Um dos principais desafios da produção foi humanizar essa narrativa. Ao abordar um tema marcado por séculos de violência contra os povos indígenas, era fundamental evitar estereótipos e garantir que a reportagem não reproduzisse, ainda que involuntariamente, as violências simbólicas que historicamente atravessam essas populações. Esse cuidado também esteve presente no processo de edição, que envolveu a revisão de trechos capazes de reforçar discursos naturalizados sobre a colonização e seus personagens, buscando uma abordagem ética e comprometida com a complexidade do tema.
Outro desafio foi equilibrar contextualização e profundidade. A história de Martinho Bugreiro ainda é pouco conhecida por grande parte do público, e compreender sua atuação é essencial para entender a violência sofrida pelos povos originários durante a colonização de Santa Catarina. Ao mesmo tempo, o foco da reportagem era a entrevista com a pesquisadora e liderança indígena. Para conciliar esses objetivos, optamos por apresentar parte do contexto histórico em um material complementar em áudio, permitindo que o texto priorizasse a narrativa e as reflexões da entrevistada.
O maior aprendizado proporcionado por essa produção não foi compreender que a escolha das fontes transforma profundamente a narrativa jornalística. Ao dar protagonismo a uma pesquisadora indígena, a estudante pôde perceber como diferentes perspectivas ampliam a compreensão dos fatos e desafiam versões consolidadas da história. Como nos traz a escritora Chimamanda Ngozi Adichie, o perigo está na existência de uma história única, especialmente quando ela é contada apenas por quem ocupou a posição de poder. O jornalismo tem o compromisso de ampliar esse repertório de vozes e contribuir para uma memória coletiva mais plural, crítica e representativa.
Professora responsável: Larissa Bezerra – jornalista, mestre pelo programa de Pós-graduação Interdisciplinar Sociedade e Desenvolvimento da Universidade Estadual do Paraná, professora regente de jornalismo na educação a distância da Unicesumar e pesquisadora de futebol.
