
Equipe da Vera Cult. (Foto: Jade Assunção)
A reportagem “Pela transmissão de valores e histórias, a cultura no bairro Vera Cruz perpetua e rompe fronteiras”, produzida por Jade Assunção para o Lab Notícias, jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UFG, surgiu de uma dúvida.
A proposta era produzir reportagens a partir do sorteio de pautas feitas pelos colegas. Jade ficou com uma pauta sobre o quanto o acesso à cultura em Goiânia seria caro e restritivo. Ao invés de segui-la, conversou comigo para saber se poderia mudar a angulação, já que tinha a impressão de que havia muita oportunidade de acesso gratuito a todo tipo de atividade cultural na cidade – mas bem diferente dos shows no estádio Serra Dourada ou dos ingressos superfaturados de cinemas de shopping.
A reorientação valeu a pena: conseguimos tanto material que tivemos que dividir o trabalho em duas reportagens. Uma, sobre o fomento à cena cultural da cidade, com iniciativas ainda concentradas no centro da capital e coletivos independentes e pesquisadores apontando dificuldade de acesso a recursos públicos para financiar arte e cultura. A outra, dedicada inteiramente a um dos projetos que mostram uma saída inspiradora para os problemas apontados na primeira matéria.
O VeraCult é um coletivo comunitário que oferece oficinas de teatro, música e cinema, tudo feito pelos e para os moradores do setor Vera Cruz, um bairro periférico de Goiânia. O projeto abriga uma gravadora e uma biblioteca e já acumula prêmios pelos curtas e séries criados no ponto de cultura em que opera. A iniciativa ainda ajuda a semear possibilidades para as crianças do bairro, resumidas nas palavras de uma das fundadoras, Rochelle Silva: “A vida deles será diferente da nossa. Terão outras oportunidades, enxergarão o mundo de maneiras distintas e estão à frente da nossa geração”.
Na matéria, feita inteiramente pela estudante – que se encarregou até mesmo das fotos –, Jade conseguiu muita liberdade para falar com os entrevistados e compor personagens cativantes, como os irmãos que fundaram o VeraCult. Na edição, valorizamos as falas dos entrevistados justamente para permitir que eles mesmos contassem sua história. Apesar da orientação oferecida pelo professor em diferentes fases da produção, é importante destacar que a estudante soube observar a necessidade de dar voz a quem frequentemente não tem acesso ao microfone, além de demonstrar apetite por conhecer o projeto em detalhes, indo até o local, fotografando e buscando profundidade na narrativa.
É deste tipo de jornalismo que precisaremos mais de 2026 em diante: uma produção hiperlocal, com olhar crítico e sensível ao que podemos fazer, como comunidade, por nós mesmos e uns pelos outros. Historicamente, esse tipo de pauta não consegue capa porque sequer chega até os portões do gatekeeping. Bem antes da guilhotina do editor, não tem a chance de nascer pela falta de atenção (ou de alteridade) do repórter. Para enxergar além dos limites do próprio repertório, o jornalista precisa cambiar lentes, alternando perspectivas que só podem ser acessadas pelo exercício de uma oitiva legítima e pelos instrumentos oferecidos pela sua formação – essa última parte, responsabilidade de um curso como o da UFG.
Pelo lado da cultura, frequentemente reduzida a releases de eventos enviados por assessorias contratadas por quem tem dinheiro para pagar por elas, a matéria abre janelas para reflexão. Quanta coisa há na cena de arte e cultura da sua cidade que não aparece no feed do Instagram, este noticiário moderno que supostamente cobre tudo o que lhe interessa? A experiência em tela mostra que diminuir a velocidade e pausar para olhar ao redor pode ser uma ótima maneira de ver seu mundo ficar bem maior, mais interessante e mais vivo.
Leia a reportagem “Pela transmissão de valores e histórias, a cultura no bairro Vera Cruz perpetua e rompe fronteiras”
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Raniê Solarevisky de Jesus é professor do curso de Jornalismo da UFG. Coordena o grupo de pesquisa Nodus, que investiga objetos na interseção entre jornalismo, mídias digitais e teorias da comunicação, sob uma perspectiva neomaterialista.
