
(Foto: Suzy Hazelwood/Pexels)
Qual seria o limite ético do jornalismo quando ele dá relevância de notícia a um fato que, a princípio, não estaria no foco de milhares de leitores?
O grau de relevância é uma das armas eficazes da imprensa, capaz de dar a fatos específicos o status de notícias de grande interesse informativo, recebendo cobertura especial e espaços generosos do jornal.
A estratégia tem por meta criar no público uma percepção negativa (ou positiva) de uma situação, deixando de lado critérios jornalísticos e se valendo de outros parâmetros de interesse do jornal.
É o caso da reportagem publicada pelo O Globo sobre o trabalho home office dos servidores federais, com chamada de primeira página (‘Número de servidores federais em home office cresce e já supera 100 mil’, em 14/7/2026). E logo abaixo, o gancho da leitura: “Dados do Ministério da Gestão mostram que 24% dos 445 mil servidores elegíveis atuam no home office integral ou no híbrido.Fatia cresceu desde 2024”.
A notícia em questão não engloba qualquer tipo de denúncia ou irregularidade em relação, por exemplo, a funcionários fantasmas, nem avaliações negativas sobre a eficiência e a política de resultados do teletrabalho. Discute-se a cultura organizacional e o engajamento.
Funcionalismo em foco
Outras reportagens questionando o trabalho remoto já haviam sido publicadas pelo jornal carioca em anos anteriores: “Home office federal: governo tem 16% dos servidores em trabalho remoto, que terá novas regras”, em 18/10/2024, e “Reforma Administrativa: como vai ficar o home office dos servidores? Entenda”, em 10/9/2025.
Dessa vez, no dia seguinte à reportagem, a editoria abriu espaço nobre para se posicionar abertamente contra o home office, despojando-se de uma dúbia neutralidade até então mantida.
No texto (‘Aumento de home office no setor público é retrocesso’, em 15/7/2026), a argumentação contra o teletrabalho tem como modelo o setor privado, onde “ a tendência é oposta”. As “boas razões” recomendadas pelo jornal para a volta dos servidores federais às repartições teriam como escopo facilitar o trabalho das chefias, visto que “no regime remoto, chefes de departamento percebem dificuldades de comunicação e gestão de equipes”, além de “reuniões menos produtivas” e “falta de motivação”.
O raciocínio se vale até do presidente americano como exemplo de governança nesse particular. “Ao voltar à Casa Branca, o republicano Donald Trump decretou o fim do trabalho remoto”, discorre.
Produtividade e avaliação
No entanto, na reportagem do dia anterior, é explicado que os servidores federais que trabalham em home office têm gestão por metas e resultados, com a produtividade e eficiência avaliadas mensalmente. Informando, ainda, que do total de 107,8 mil servidores em teletrabalho,“a maioria, 73,6 mil (68,4%), está no modelo híbrido”.
A matéria cita auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em cinco órgãos federais, com o registro positivo do tribunal ao teletrabalho, atestando “o aprimoramento nos mecanismos de controle e acompanhamento de metas, fortalecendo a gestão por desempenho”.
Redução de gastos
Levantamento do mesmo TCU (2025) realizado em 23 órgãos federais sobre eventuais reduções de despesas na modalidade de home office reporta informações de várias unidades da Federação nesse sentido. A Advocacia-Geral da União (AGU) obteve uma economia com locações de imóveis, no período de 2019 a 2023, da ordem de R$ 30 milhões, apesar dos custos operacionais terem crescido em R$ 9,2 milhões desde 2021 com o retorno gradual dos servidores.
Dados do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) enviados ao TCU também registram uma economia de R$ 22 milhões nas unidades do Ministério Público (segundo semestre de 2020), com uma delas informando que houve redução de 44% no consumo de água, 31% no de energia e 74% no de papel.
Em relação à Defensoria Pública da União (DPU), números do Sistema Integrado de Gerenciamento de Pessoal indicam que o gasto com auxílio-transporte baixou 41% em 2020 (retornando a 50% em 2023), e que o adicional de insalubridade que havia caído para 53% subiu para 90% em outubro de 2023.
O documento do TCU (Acórdão 526/2025) publicado no site do tribunal, em 17/3/2025, apresenta ainda, na seção de “aspectos financeiros”, as despesas listadas pelos órgãos da Administração Federal que mais pesam nos custos operacionais, tais como serviços públicos (água, energia elétrica, telefonia); infraestrutura (conservação de imóveis próprios, locação de imóveis); viagens e deslocamentos (diárias, passagens, manutenção e combustível de veículos próprios, locação de veículos); materiais de consumo e de escritório (café, copos descartáveis, impressão, papel, produtos de limpeza); e benefícios e vantagens (auxílio transporte, adicional de insalubridade).
Pandemia e home office
Capital da República até 1960, quando foi substituída por Brasília, o Rio de Janeiro concentra mais de uma centena de repartições públicas federais. De acordo com o Anuário Estatístico do IBGE (2024), são 85.792 funcionários federais civis ativos, o segundo maior contingente depois de Brasília, com 93.938.
Relator do grupo de trabalho que elaborou a proposta da Reforma Administrativa (PEC 38/2025, em processo de discussão no Congresso), que deverá restringir o percentual de servidores em home office, o deputado federal Pedro Paulo é do Rio de Janeiro, ocupou a pasta da Casa Civil e foi secretário de Fazenda e Planejamento na prefeitura do Rio.
Como político ligado à cidade, ele acompanha a difícil recuperação do centro comercial e histórico do Rio, juntamente com o empenho das autoridades municipais e o apoio da mídia na tentativa de revitalizar a área, desestruturada pela pandemia de Covid-19.
Passados mais de cinco anos, a região continua com centenas de edifícios comerciais esvaziados, prédios públicos abandonados e deteriorados, milhares de salas de escritórios fechadas, um número incontável de lojas e restaurantes com negócios encerrados.
A municipalidade vem tentando reverter a situação com programas de incentivos e investimentos em parceria com o setor imobiliário e de serviços, inclusive dando o aval para a adaptação de prédios comerciais em residenciais. No entanto, ainda é flagrante a degradação de imóveis privados e públicos na área, muitos deles de órgãos federais, persistindo as dificuldades para a retomada dos negócios e do comércio na área.
Imóveis vazios
Repercutindo “a sensação de decadência do bairro”, O Globo tem chamado a atenção para o problema em várias matérias, entre elas a de 13/5/2026: “Nos últimos 4 anos, mais da metade das agências bancárias e postos de atendimento no Centro do Rio fecharam as portas, deixando imóveis vazios”.
Nesse contexto, o jornal saudou a “reocupação gradual” do edifício sede da Petrobrás, após a reforma do imóvel (‘Petrobras inicia reocupação de sede histórica no Centro do Rio após primeira grande revitalização em 50 anos’, em 12/6/2026), mas, enfatizando, em reportagem posterior, a difícil situação do centro do Rio, “com imóveis de grande porte, muitos deles históricos, sem uso, degradados ou à espera de uma solução definitiva” (‘Palacete invadido, antigo IML, hospital fechado e sede histórica dos Correios retratam desafios da revitalização do Centro do Rio’, em 24/7/2026).
No início do ano (14/1/2026), a sede da prefeitura foi palco do lançamento do livro “Rio, Capital do Brasil: Ensaios sobre a Capitalidade”, uma coletânea de textos de acadêmicos que analisam o papel do Rio de Janeiro como capital do país, desde o período colonial. Na ocasião, o prefeito Eduardo Paes ressaltou o que, segundo ele, “todo carioca sente na pele: o Rio nunca foi uma cidade comum”.
– Foram quase 200 anos de capital do Brasil, e isso não é apenas um dado histórico. Isso moldou a cidade, a política, a cultura e a própria ideia de Brasil, disse.
Uma afirmação que encontra ressonância na alma carioca e, em se tratando do Globo, reverbera na lógica contra o regime de home office dos funcionários federais, um dos possíveis vilões da lenta recuperação dessa área do Rio.
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Sheila Sacks é Jornalista formada pela PUC/RJ. Trabalhou em assessoria de comunicação social no serviço público de 1982 a 2024.
