
(Foto: atiss260/Pexels)
“Como você faz pra descobrir se tem bipolaridade?” A pergunta pegou Laura (nome fictício adotado pela reportagem) de surpresa. Sua avó, Socorro, de 73 anos, convivia desde a juventude com desânimo, angústia e dificuldade para sair da cama, sintomas que a família por décadas resumiu a “preguiça” ou “lesada”. Só na velhice, incentivada pela neta, ela buscou entender o que sentia e passou a consumir vídeos sobre saúde mental. Em poucos minutos, o algoritmo já sugeria conteúdos sobre estresse, ansiedade, autismo e bipolaridade — até lhe entregar uma resposta aparentemente definitiva: ela teria TDAH.
O caso foi revelado pela reportagem “Autodiagnóstico no TikTok” (O Povo+, janeiro de 2026), que investigou como os algoritmos das redes sociais induzem a interpretações equivocadas sobre sintomas e diagnósticos. O achado dialoga com um fenômeno que a ciência já mede: uma revisão sistemática no Journal of Social Media Research, com mais de 5 mil postagens sobre saúde mental em cinco redes, identificou que até 56% do conteúdo era impreciso ou sem fundamento científico. Nesse ambiente, cresce a responsabilidade do jornalismo profissional de verificar, contextualizar e diferenciar sofrimento psíquico de diagnóstico clínico, o que impõe uma pergunta mais ampla: como informar sobre saúde mental sem substituir evidências por simplificações?
Se hoje é o algoritmo quem produz certezas apressadas, o problema nem sempre esteve nas plataformas digitais. Durante décadas, ele esteve na própria cobertura jornalística, que ajudou a associar transtornos mentais à periculosidade, ao descontrole e à loucura. Mudou a forma do erro; o erro permaneceu.
Nunca se falou tanto em saúde mental no Brasil: reportagens especializadas ganharam espaço, psiquiatras e psicólogos tornaram-se fontes frequentes, e campanhas como Setembro Amarelo e Janeiro Branco passaram a integrar o calendário editorial dos principais veículos. À primeira vista, seria natural concluir que o jornalismo enfim encontrou uma forma mais responsável de tratar o tema. Essa impressão muda, porém, quando se olha não apenas o que é publicado, mas o que permanece ausente da cobertura.
O desafio deixou de ser apenas corrigir estigmas ou enfrentar a desinformação das redes. Passou a ser outro: tratar o sofrimento psíquico como questão pública, articulando histórias individuais às políticas públicas, aos serviços de cuidado, às evidências científicas e aos determinantes sociais que moldam essa realidade.
Esse avanço, porém, não eliminou antigos padrões de cobertura. A associação entre transtornos mentais e periculosidade não desapareceu, apenas recuou e se tornou mais difícil de perceber. Um levantamento publicado nos Archives of Clinical Psychiatry, com base em 229 textos de veículos brasileiros de grande circulação que utilizavam o termo “esquizofrenia”, constatou que 27% atribuíam o diagnóstico a suspeitos de crimes sem qualquer respaldo clínico e que 34% empregavam a palavra apenas como metáfora depreciativa, por exemplo, para caracterizar uma decisão política contraditória.
Esse padrão pode ser observado em coberturas nas quais o diagnóstico ocupa um lugar central na organização da narrativa, deslocando a atenção do fato para a condição clínica, mesmo sem qualquer verificação formal. É o que ocorre, por exemplo, em reportagem sobre um feminicídio ocorrido em uma pousada de Belo Horizonte: o texto informa que o suspeito havia sido diagnosticado com “transtorno esquizofrênico”, citando como única fonte o relato de familiares, sem qualquer menção a laudo médico ou prontuário que confirmasse a condição. A informação é incorporada à narrativa do crime com o mesmo peso factual dos demais dados da investigação, ainda que sua origem seja inteiramente informal — reproduzindo, na prática, o padrão identificado pelo levantamento: o diagnóstico funcionando como explicação do comportamento violento sem qualquer respaldo clínico.
Não se trata de afirmar que a informação clínica seja irrelevante, mas de observar o lugar que ela ocupa na construção da narrativa.
Em outro caso, publicado pelo portal A Tribuna MT, o enquadramento aparece já na manchete: “Esquizofrenia: Acusado de crime em condomínio é absolvido após laudo”. Antes mesmo de o leitor conhecer os fatos do caso, o diagnóstico recebe o maior destaque do título. Mais uma vez, a questão não é a presença da informação clínica, mas a posição que ela ocupa na narrativa, tornando-se o principal elemento de identificação do personagem.
Os dois casos não são apresentados aqui como exceções ou como falhas individuais de redação. Eles ilustram um padrão de enquadramento já identificado empiricamente pela literatura e ajudam a compreender como determinadas escolhas narrativas podem reforçar associações entre transtornos mentais e periculosidade, mesmo quando essa não é a intenção da cobertura.
O efeito desse enquadramento vai além da linguagem. Quando o transtorno mental aparece reiteradamente associado ao crime, à irracionalidade ou ao perigo, o público tende a compreender a doença como ameaça, e não como condição de saúde. A pessoa desaparece da narrativa; o diagnóstico passa a ocupar o centro da história e a funcionar como a principal chave de interpretação do episódio. Uma pesquisa conduzida em São Paulo por Peluso e Blay, publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria, mostrou que cerca de 70% dos entrevistados consideravam pessoas com esquizofrenia “potencialmente perigosas” — dado citado em revisão da Revista Médica de Minas Gerais —, na contramão das evidências clínicas, que indicam serem elas, majoritariamente, vítimas — e não autoras — de violência. A cobertura jornalística, evidentemente, não é a única responsável pela formação desse imaginário social, mas os enquadramentos que privilegiam essa associação contribuem para reforçá-lo e perpetuá-lo.
Se antes o jornalismo simplificava o transtorno mental ao transformá-lo em ameaça, hoje convive com um ambiente digital que simplifica pelo caminho oposto: converte qualquer sofrimento em diagnóstico. Em ambos os casos, desaparecem a complexidade clínica e o contexto social. Estigma e banalização não são sinônimos — um exclui, o outro simplifica —, mas produzem um efeito semelhante: reduzem a saúde mental a uma experiência individual, dissociada das condições sociais, das políticas públicas e da rede de cuidados que estruturam sua compreensão e seu enfrentamento.
Essa lógica também se reflete na cobertura jornalística. Histórias sobre ansiedade, depressão, burnout ou TDAH tornaram-se mais frequentes e contribuíram para ampliar o debate público sobre o tema. Ainda assim, raramente são acompanhadas de explicações sobre como funciona a política pública de saúde mental, quais serviços integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) ou porque o acesso ao cuidado permanece tão desigual no país.
Uma reportagem do portal BHAZ sobre o aumento de diagnósticos de TDAH em adultos, publicada em julho de 2026, ajuda a compreender esse tipo de enquadramento. O texto explica por que o transtorno passou despercebido por tanto tempo, como se manifesta na vida adulta e quais tratamentos estão disponíveis, privilegiando uma abordagem clínica e individual. Ao mesmo tempo, não relaciona esse crescimento da demanda à estrutura pública de atendimento, às dificuldades de acesso ao diagnóstico pelo SUS ou às desigualdades territoriais que marcam a oferta de serviços especializados.
Não se trata de uma limitação da reportagem em si, que cumpre o papel de informar sobre o transtorno, mas de uma característica recorrente do enquadramento adotado pela cobertura sobre saúde mental. O aspecto que permanece fora da narrativa é justamente a estrutura pública responsável pelo cuidado.
É justamente nesse ponto que a cobertura brasileira revela sua principal lacuna: não apenas pelo que diz, mas sobretudo pelo que deixa de dizer.
Depois de dez anos sem divulgação, o Ministério da Saúde retomou, em 2025, a publicação do boletim Saúde Mental em Dados. O documento apresenta uma Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) composta por 6.397 pontos de atenção, crescimento superior a 10% em relação a 2022.
Os números, entretanto, revelam profundas desigualdades. Segundo a edição nº 13 do boletim Saúde Mental em Dados (Ministério da Saúde, 2025), entre os municípios que, de acordo com os próprios critérios do Ministério, deveriam contar com um CAPS habilitado, 21,6% ainda não dispõem do serviço. A região Norte apresenta a menor cobertura do país. Na atenção hospitalar, o cenário também é desigual: mais de 60% dos leitos psiquiátricos em hospitais gerais concentram-se na região Sul, enquanto o Brasil alcança apenas 22,89% da meta nacional de leitos.
A desigualdade territorial, contudo, não é o único desafio. Há um déficit estrutural ainda menos debatido. Estudo publicado na revista Serviço Social & Sociedade mostra que o país deveria contar com 1.333 unidades do tipo CAPS III ou CAPS AD III, de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo próprio Ministério da Saúde. Existem apenas 265. O déficit de 1.068 serviços contrasta com o reconhecimento internacional do modelo brasileiro de atenção psicossocial e evidencia a distância entre o desenho da política pública e sua implementação. Apesar da relevância desses indicadores, eles raramente aparecem como eixo central da cobertura sobre saúde mental.
Uma reportagem amplamente repercutida sobre o fato de o Brasil ser “o país mais ansioso do mundo”, baseada em dados da Organização Mundial da Saúde, ajuda a ilustrar esse enquadramento. O texto contextualiza a prevalência da ansiedade, discute tratamentos e o debate sobre a medicalização do comportamento a partir de entrevistas com especialistas, mas não relaciona a magnitude do problema à capacidade da rede pública de atenção psicossocial, à distribuição dos CAPS ou às desigualdades de acesso aos serviços especializados. Não se trata de uma limitação da reportagem em si, mas de uma característica recorrente da cobertura: o dado epidemiológico chega à manchete; a estrutura pública do cuidado, raramente à reportagem.
Fala-se do sintoma, não do sistema.
Fala-se de quem sofre, mas raramente da estrutura que deveria acolher esse sofrimento. O sofrimento psíquico tornou-se altamente visível no noticiário; a rede pública de atenção psicossocial permanece, em grande medida, invisível.
Quando a cobertura deixa de contextualizar a estrutura do cuidado, uma questão de política pública se transforma em uma sucessão de histórias individuais. O sofrimento ganha rosto, mas o sistema permanece sem nome.
Os dados existem. As fontes são públicas. As políticas também. O que ainda falta, com frequência, é transformar esse conjunto de informações em pauta permanente, e não apenas em informação de apoio para datas comemorativas, crises ou campanhas de conscientização.
O problema não é falta de pauta; é falta de enquadramento.
Informações sobre financiamento, cobertura territorial e organização da RAPS estão disponíveis publicamente — no boletim do Ministério da Saúde, nos repasses do SUS e nos relatórios de instituições como o CONASS. Em algumas ocasiões, a própria imprensa demonstra que esse caminho é possível. Foi o que ocorreu na cobertura do recorde de afastamentos do trabalho por transtornos mentais, que ultrapassaram 472 mil licenças em 2024, alta de 68% em relação ao ano anterior e o maior número registrado em uma década.
Em reportagem produzida a partir de dados obtidos com exclusividade junto ao Ministério da Previdência Social, o G1 foi além da divulgação dos números: ouviu especialistas, relacionou o crescimento dos afastamentos às condições do mercado de trabalho e aos efeitos persistentes da pandemia e contextualizou a atualização da NR-1 pelo Ministério do Trabalho, que passou a exigir das empresas a identificação e o gerenciamento de riscos psicossociais.
Quando a reportagem conecta dados, políticas públicas e responsabilidades institucionais, a estatística deixa de ser apenas um número e passa a explicar um problema público.
É justamente esse movimento de conectar experiências individuais às estruturas públicas que moldam o cuidado que ainda precisa se tornar regra, e não exceção, na cobertura jornalística sobre saúde mental.
Socorro conseguiu o que o algoritmo jamais poderia oferecer: uma consulta com um psiquiatra. Foi ali, e não no feed, que seus 73 anos de vida deixaram de caber em um diagnóstico sugerido por vídeos e puderam, enfim, ser compreendidos em toda a sua complexidade.
O jornalismo brasileiro não precisa escolher entre acolher quem sofre e cobrar de quem deveria cuidar — pode, e talvez devesse, fazer as duas coisas na mesma reportagem. A história de Socorro, por exemplo, não perde força se, além de mostrar como o algoritmo confundiu seu diagnóstico, também perguntasse por que o CAPS mais próximo de sua casa talvez nem exista ou funcione muito além de sua capacidade. Um caminho não substitui o outro; um pode se somar ao outro.
Se a saúde mental já ocupa um lugar central na vida social brasileira, falta que ocupe esse mesmo lugar na cobertura jornalística, não como experiência isolada, mas como questão pública, moldada por instituições, evidências e políticas de Estado que ainda permanecem, em grande parte, fora da notícia.
Porque informar sobre saúde mental não é apenas explicar por que alguém sofre. É também explicar por que uma sociedade cuida, ou deixa de cuidar, desse sofrimento.
Fontes e referências
A TRIBUNA MT. Esquizofrenia: Acusado de crime em condomínio é absolvido após laudo. Rondonópolis, 28 maio 2021.
BHAZ. Por que tantos adultos estão sendo diagnosticados com TDAH? Belo Horizonte, 10 jul. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde Mental em Dados, edição nº 13. Brasília: Ministério da Saúde, fev. 2025.
CARTER, A.; GRACEY, F.; MOODY, J.; OVENS, A.; CHATBURN, E. Quality, reliability and misinformation in mental health and neurodivergence content on social media: a systematic review. Journal of Social Media Research, 2026.
CNN BRASIL. RS: PMs que mataram esquizofrênico agiram em legítima defesa, diz BM. 2025.
ESTADÃO CONTEÚDO. Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. Exame, 5 jun. 2019.
G1. Brasil registra maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos. Dados do Ministério da Previdência Social obtidos com exclusividade pelo g1, mar. 2025.
GUARNIERO, F. B. et al. O estigma da esquizofrenia na mídia: um levantamento de notícias publicadas em veículos brasileiros de grande circulação. Archives of Clinical Psychiatry, São Paulo, v. 39, n. 3, p. 82-92, 2012.
O POVO+. Autodiagnóstico no TikTok: a saúde mental cabe em um vídeo de 60 segundos? Fortaleza, 9 jan. 2026.
OLIVEIRA, E. F. A.; GARCIA, M. L. T. O financiamento federal dos CAPS no Brasil: a caixa de Pandora. Serviço Social & Sociedade, n. 147, p. 1-20, 2024.
ROCHA, F. L.; HARA, C.; PAPROCKI, J. Doença mental e estigma. Revista Médica de Minas Gerais, v. 25, n. 4, p. 590-596, 2015.
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Germana Plácido é mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Maranhão (PPGCOM/UFMA). Jornalista e pesquisadora com atuação em temas relacionados ao Jornalismo de Dados, à Transparência Pública, à Política e à Democracia Digital.
