
(Foto: Daniel Reche/Pexels
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), ao incluir a obrigatoriedade de gerenciamento dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), representa uma mudança estrutural na forma como empresas brasileiras devem lidar com saúde mental no trabalho. No entanto, a cobertura jornalística sobre o tema tem se concentrado, majoritariamente, nos aspectos burocráticos e nas possíveis penalidades, deixando em segundo plano um ponto central: a cultura organizacional e o papel estratégico do treinamento.
A imprensa tem noticiado a NR-1 como mais uma exigência regulatória, ampliando o repertório já conhecido de obrigações trabalhistas. Esse enquadramento, embora tecnicamente correto, é limitado. Ao enfatizar custos, fiscalização e risco de multas, parte da mídia reforça a percepção de que a norma é apenas um ônus adicional às empresas, e não uma oportunidade de transformação estrutural.
Pouco se discute, por exemplo, que riscos psicossociais — como assédio, sobrecarga, ambiguidade de papéis, falhas de comunicação e liderança tóxica — não são eliminados por documentos formais, mas por mudanças comportamentais sustentadas por treinamento contínuo. A própria lógica da prevenção pressupõe desenvolvimento de competências socioemocionais, comunicação assertiva e gestão de conflitos. Sem isso, o cumprimento tende a ser apenas formal.
A cobertura também raramente diferencia laudos técnicos de processos educativos. Ao equiparar saúde mental a relatórios e avaliações pontuais, parte do noticiário contribui para uma visão reducionista do problema. O risco psicossocial não é apenas um dado estatístico; ele emerge de interações humanas mal geridas, decisões sob pressão e culturas organizacionais baseadas no medo ou na omissão.
Há um paralelo evidente com setores de alta complexidade, como a Aviação, onde a prevenção de acidentes deixou de se apoiar exclusivamente em normas e passou a investir sistematicamente em treinamento em fatores humanos e comunicação. A lição é clara: protocolos são indispensáveis, mas comportamentos treinados salvam vidas — e preservam organizações.
Ao não aprofundar essa dimensão, a imprensa perde a oportunidade de qualificar o debate público. A NR-1 não trata apenas de cumprir uma obrigação legal; trata de repensar o modelo de gestão que naturaliza o adoecimento como efeito colateral da produtividade.
O jornalismo poderia contribuir de forma mais consistente ao questionar: as empresas estão apenas atualizando documentos ou estão investindo em formação contínua? Estão revisando práticas de liderança? Estão preparando gestores para reconhecer e mitigar riscos psicossociais?
Em um país que lidera índices de ansiedade e burnout no ambiente corporativo, a abordagem superficial do tema pela mídia reduz um debate complexo a uma agenda de conformidade legal. A NR-1 pode ser mais do que uma norma: pode ser um marco cultural nas relações de trabalho. Para isso, porém, é preciso que o jornalismo vá além do protocolo e ilumine o que realmente sustenta a prevenção — o treinamento e a mudança de comportamento.
A crítica de mídia, neste caso, não é sobre omissão deliberada, mas sobre enquadramento. E enquadramentos moldam percepções. Se a narrativa dominante for a da obrigação, teremos resistência. Se for a da prevenção inteligente, poderemos ter transformação.
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Bárbara García é socióloga, pós-graduada em neurociências e comportamento humano com mais de 25 anos de experiência em gestão de projetos no setor público e privado. Especialista em Corporate Resource Management, metodologia aplicada em ambientes corporativos para conformidade NR1 e proprietária da Aviation2Corporate.
