Pegando na veia do racismo no Brasil
Por Luiz Weis em 24/05/2011
As melhores entre as boas matérias de uma publicação jornalística são o que deveriam ser as medidas provisórias: relevantes e urgentes.
Pelos assuntos de que tratam, evidentemente, mas também pelo seu potencial de chamar a atenção do leitor para a relevância e a urgência de assuntos que ele à primeira vista não diria que são uma coisa ou outra.
Os dois termos, também evidentemente, são relativos, e pode-se discutir até o fim dos tempos – que, segundo os pessimistas, vem a galope para a imprensa em papel – até que ponto atende a esses dois critérios o conteúdo predominante em cada edição de um periódico.
Sem falar que, conforme uma certa concepção de jornalismo que, levada às últimas, é o que os americanos chamam infotainment, nem tudo o que se publica deve ser relevante – desde que a informação seja interessante, divirta, entretenha.
Aliás, não são raros os editores para os quais o “produto” ideal é aquele que oferece porções amplas de jornalismo de distração e outras tantas de jornalismo de serviço (indispensável, claro, mas que não deve ser confundido com jornalismo de utilidade pública).
Essa receita será tão mais bem sucedida quanto mais, para usar uma distinção que volta e meia aparece impressa, o leitor-cidadão ceder lugar ao leitor-consumidor – o que, fechando o círculo, não acontece sem o incentivo, cúmplice e constante, dos próprios conglomerados de mídia interessados em ampliar o mercado para o fácil, o fútil e o fugaz.
Em suma, para o tipo de informação que faz parte da esfera do espetáculo e por ele é pautado – o jornalismo é como uma modalidade entre outras de lazer.
A crítica desse descaminho não deve ser confundida com a apologia do jornalismo pesado como forma de capturar e apresentar assuntos de peso. Trata-se, isso sim, da convicção de que, levados ao público com a clareza, a simplicidade e a atratividade possíveis, eles é que balizam a distância entre um artefato jornalístico e a sua contrafação.
No limite, um jornal ou uma revista noticiosa talvez mereçam ser julgados pela frequência e a competência com que encaram aquelas questões, relevantes, urgentes e necessariamente densas, a que a imprensa não pode renunciar, na sua função de mediadora do debate público numa democracia.
Neste último fim de semana, tivemos um exemplo da diferença que faz quando um jornal pega na veia de um daqueles assuntos a partir dos quais uma sociedade se enxerga melhor a si mesma.
É o especial da Folha de domingo sobre racismo: 16 páginas sem um único anúncio, atualizando a sua primeira grande incursão pelo problema – o caderno, publicado em 1995, chamado “Racismo Cordial”.
O de agora – “O Racismo Confrontado” – também se baseia numa pesquisa do Datafolha sobre as atitudes declaradas dos brasileiros a respeito das relações entre brancos e negros. Embora obviamente preparado antes, saiu três dias depois que a Câmara dos Deputados aprovou projeto de cotas para negros, pardos e indígenas que tenham feito o ensino médio em escola pública nas universidades federais brasileiras.
A primeira “notícia” da pesquisa é que caiu dramaticamente, de 11% para 3%, a proporção daqueles que assumem o seu preconceito em relação aos negros, enquanto permaneceu estável (na casa de 90%) o contingente dos que acham que o brasileiro têm preconceito de cor.
Foi como se tivessem dito: “Eu não, mas os outros sim.” Está claro que as pessoas ficaram mais inibidas em manifestar o seu preconceito. A hipocrisia, dizem os franceses, é a homenagem que o vício presta à virtude. Mais disfarçado, o preconceito se rende ao fato de que o racismo é inaceitável.
Também caíram consistentemente as porcentagens de concordância com frases racistas, do tipo “Negro bom é negro de alma branca” (de 47% para 26%) ou “As únicas coisas que os negros sabem fazer bem são música e esporte” (de 43% para 20%).
A outra importante revelação do levantamento é que desta vez só 37% dos entrevistados – ante 50% em 1995 – se declaram brancos. Os “pardos” aumentaram de 29% para 36%, os “pretos” continuam o que eram (12% na primeira pesquisa, 14% agora).
Mas o que é notável no caderno especial é o que a Folha fez a partir e além da pesquisa: as seis reportagens da rubrica “Retratos”, mais três artigos de estudiosos, mais uma entrevista pingue-pongue (com o ministro Joaquim Barbosa, o primeiro negro a chegar ao Supremo Tribunal Federal), mais a excelente série de seis breves depoimentos com experiências pessoais de racismo, em resposta à pergunta “Em que situações a cor da sua pele se mostra relevante?”
Do ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, por exemplo:
”Fui abordado [num vôo para o exterior] pela aeromoça brasileira em inglês e respondi que ela podia falar em português mesmo, porque eu era brasileiro. Um outro passageiro, já sentado, ouviu o diálogo e disse à moça que eu era ministro. Imediatamente, ela perguntou: ‘De qual igreja?’.”
Quase tão bom como o item da pesquisa que pedia aos entrevistados que atribuíssem uma cor a 11 “celebridades nacionais”.
Quarenta e quatro por cento disseram que Ronaldo era pardo. Comentário do jogador: “Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância.” Quarenta e dois por cento disseram que Lula – branco por todos os critérios imagináveis – era pardo também. Assim como outro branco, Caetano Veloso (pardo para 40% dos entrevistados).
A reportagem a respeito cita o historiador Luiz Felipe de Alencastro. O seu argumento:
”Quando se pede para atribuir cores a celebridades, é óbvio que os entrevistados não responderam apenas sobre a pigmentação da pele. Compõem as respostas critérios de qualificação intelectual, os papéis que a pessoa desempenha na sociedade, como ela quer ser vista.”
Daí que o ex-presidente Fernando Henrique, que certa vez se declarou “mulatinho, com um pé na cozinha” foi dado como branco por 70%, e pardo, só por 17%.
O primeiro especial da Folha sobre racismo acabou sendo publicado como livro. É o que merece acontecer com este.
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| Felipe Faria |
| Enviado em: 25/11/2008 11:21:49 |
| Na min ha opinião essa confusão de conceitos fala a favor de não-racismo. As pessoas sofrem de preconceitos outros que a cor da pele. |
| Thiago Conceição |
| Enviado em: 25/11/2008 15:08:27 |
| Esse africanismo é um câncer que está sendo importando dos EUA. Não existe lugar no Brasil para isso. O que o governo faz é criminoso. Atualmente as estatísticas são totalmente manipuladas considerando-se pardos e outros como "negros". |
| Ivan Moraes |
| Enviado em: 25/11/2008 16:19:24 |
| "Esse africanismo é um câncer que está sendo importando dos EU": o que significa "africanismo" e aonde ele aparece implicitamente no texto, Thiago? |
| Marco Antônio Leite |
| Enviado em: 25/11/2008 16:34:29 |
| Conceição e Faria, vocês voltaram com o sofisma de sempre. Vale dizer, o Brasil é o país com maior índice de racismo e preconceito no planeta terra. Nessa mistura racismo e preconceito anda de mãos dadas, a cor da epiderme, ser pobre seja branco, negro, amarelo ou arco-íres, não ter dentes, ser baixo, gordo, cabelo assim ou assado. O preconceito gira em torno daquele que usa óculos, tem a cabeça grande (há de cima), pé torto, muito seio ou pouco seio, isso demonstra toda a nossa ignorância em aceitar as pessoas como elas são de fato, mas queremos que elas fossem conforme projetamos na mente doentia que carregamos no silêncio do quem vêem cara não vê coração. |
| Marco Antônio Leite |
| Enviado em: 25/11/2008 18:18:42 |
| Primeiro preconceito pode ser uma pessoa de cor. Segundo, muita gente não quer babá "de cor". Terceiro, eu disse que não tinha problema com isso, como se isso fosse um grande empecilho para limpar fogão engordurado, fezes de bebê, mer-cadoria de cachorro peludo perambulando pela casa suja, fazer bife de sola de sapato com "zoião" frito. Essa classe média decadente adquiriu o vírus da doença chamada desvio burguês, doença incurável, pois não descobriram uma vacina que elimine o preconceito e o racismo introjetado nas mentes mal preparadas dessas pessoas. |
| Felipe Faria |
| Enviado em: 25/11/2008 21:33:19 |
| MA, assim não dá. |
| Marinilda Carvalho |
| Enviado em: 26/11/2008 01:44:22 |
| Nossa, que texto, Weis! Engrandeceu o trabalho da Folha -- maravilhoso, embora tão picadinho. Sua crítica dá unidade ao especial. |
| Alexandre Carlos Aguiar |
| Enviado em: 26/11/2008 10:24:07 |
| Do ponto de vista biológico, raça na espécie humana não existe. Ponto. Pelo lado da Antropologia, racismo existe, sim, e está solidamente encrustado em nossas sociedades. Aliás, em todas. Nenhum país do mundo pode dizer que está livre desse câncer social, pois isto está na raiz da própria formação da civilização, que não se relaciona bem com as diferenças. Até o tão "abençoado" sistema de cotas é racista, na medida em que o sujeito tem que se "provar" de uma determinada raça para obter seu quinhão. Diga-se o que for, que é propositivo, retratação histórica, reparo, mas que é racista, é. Até nós, que somos do lado branco da força (sem racismo, viu) temos que admitir nosso racismo atávico. |
| Daisy Dias |
| Enviado em: 26/11/2008 10:37:47 |
| “A Caros Amigos Editora lança em novembro a coleção “Os Negros” – A história do negro no Brasil. Realizada pela mesma equipe que publica Caros Amigos a coleção traz a originalidade e independência que caracterizam a revista além da coordenação de Joel Rufino dos Santos, historiador, professor, escritor e um dos nomes de referência sobre cultura africana no país. Ciência, arte, trabalho, literatura, religiosidade e a luta contra o racismo em 16 fascículos quinzenais. O primeiro já está nas bancas”!! Para detalhamento da coleção e mais informações acesse: www.carosamigos.com.br Eu comprei o primeiro fascículo e recomendo, a revista Caros Amigos, como poucas, têm demonstrado ao longo dos anos sua probidade e seriedade. |
| Ernesto Marra |
| Enviado em: 26/11/2008 11:24:12 |
| O Brasil ideal é o da seleção brasileira de futebol. Brancos, pardos e negros jogam lado a lado com objetivo comum de ganhar o jogo. O importante é que o ponta direita faça gols e que o goleiro defenda. Alguem quer saber se um atacante é preto oui branco, ou quer colocar cotas na seleção ? quanto menos se falar de raças , melhor. A propósito de Lula, deve ter bom % de sangue indígena, como quase toda popuçaão do nordeste |
| José Honório Cupertino |
| Enviado em: 26/11/2008 14:37:52 |
| Luiz, não concordo que haja racismo no país como dizem. Há sim o preconceito contra pobre. A população do Brasil é 99% parda e negra, não há como ter racismo. Ocorre que há mais negros pobres do que brancos criando uma falsa de racismo da pele. É uma bobagem de que se aproveitam alguns grupos de sabidos para se dar bem com benesses do estado. Racista no Brasil existe de uma forma bem localizadas e detectáveis. O resto é besteirol, tanto que chegaram a condenar o ´tiririca´ por racismo, sendo ele um pardo mais negro do que branco. Desafio voce a dar um percantual de europoides no Brasil (100% europoide). Eu sou um afro-descendente apesar da pela clara encardida, mas tenho muito orgulho de minhas raizes. Lutei e realizei alguma coisa na vida com esforço sem dar uma de coitadinho. O que é preciso é dar uma basta na elite preconceituosa que no Brasil é formada por pardos e negros. |
| Lucas de Alencar Oliveira |
| Enviado em: 26/11/2008 17:34:47 |
| Dizer que inexiste racismo no Brasil é tamanha ingenuidade, dessas que beira ao absurdo! Basta estar num local próximo à pessoas que frequentam colunas sociais para constatar o quanto o racismo ainda é um grave problema para a nação brasileira. Preto em nosso país (pra essas pessoas aí, das colunas sociais) só serve pra divertir branco, pra votar em corrupto, pra pegar lugar dos brancos nas instituições de ensino superior, pra ser bandido..... e por aí vai....não porque é pobre. A ignorância dos que insistem em afirmar a inexistência do racismo representa imenso obstáculo à conscientização da população para a importância de se respeitar o próximo, com tudo que há de adverso(ser pobre, rico, remediado, negro, branco, amarelo, vermelho, LBTTTTTT, muçulmano, católico, protestante - histórico ou evangélico -, ateu, até os vascaínos...). A mistura de povos à que se referem esses que insistem em negar o racismo é real, fez e faz parte da dinâmica social da nossa nação. Contudo, achar que, porque há miscigenação, não há racismo, e que o preconceito deriva somente das condições econômicas e não da cor, é desconsiderar que toda essa união de povos se deu(e se dá) por meios absolutamente violentos(velados ou não), dentre os quais figura o discriminação em razão da cor. “Em toda sociedade em que há fortes e fracos, é a liberdade que escraviza e é a lei que liberta” (Lacordaire) |
| Carlos N Mendes |
| Enviado em: 26/11/2008 18:00:40 |
Uê, cadê meu comentário de ontem ? Tomou Doril ? Nota do OI: Não o recebemos. |
| Marco Antônio Leite |
| Enviado em: 26/11/2008 18:38:34 |
| Senhor Cupertino, vossa senhoria esta totalmente equivocado com relação ao racismo ou ao preconceito. Ambos andam juntos, o racismo existe em alta escala contra os negros, bem como, o preconceito existe contra o branco, negro, amarelo pobre e inculto. O Brasil esta inserido entre os países mais racista e preconceituoso do mundo. Essa história que existe o mulato, o marronzinho, o escurinho, o negrinho entre outros nomes pejorativos é pura invenção burguesa para que os negros se sintam mais valorizados na cor da epiderme, não se engane? |
| Ivan Moraes |
| Enviado em: 26/11/2008 19:28:34 |
| Thiago Conceicao, pela segunda vez, o que significa "africanismo" e aonde ele aparece implicitamente no texto -ja que explicitamente nao aparece me lugar algum? |
| Thiago Conceição |
| Enviado em: 27/11/2008 00:25:21 |
| Lucas, se todas as pessoas que promovem ideais racialistas no Brasil realmente se importassem em estudar o mínimo para poder discutir, sabe, ler algumas coisas sobre o racismo no mundo, não teríamos esse movimento horrendo afrocentrista que existe hoje. A ignorância é a força motriz de quem defende leis raciais no Brasil. Aqui está um refresco para ti: http://www.jornaldedebates.ig.com.br/debate/ter-computador-suficiente-para-inclusao-digital/artigo/ter-computador-suficiente-para-inclusa . Aconselho-te a procurar se informar melhor e a estudar o que é racismo de verdade. |
| Ivan Moraes |
| Enviado em: 29/11/2008 01:47:28 |
| "esse movimento horrendo afrocentrista que existe hoje": mas eh "afrocentrista agora? Nao era "africanista" ha poucos dias atraz? Eh africanista, afrocentrista, o afrodisiaco, Thiago? O link que voce enviou nao esta so errado, pois isso nao te bastaria, ele tambem nao tem absolutamente nada a ver com qualquer assunto abordado no artigo. |






