
(Imagem: Reprodução)
A cada página, vamos cada vez mais mergulhando na geografia, nos atos e nos fatos que envolvem as milícias no Rio de Janeiro, percorrendo o emaranhado de lugares, acontecimentos, documentos e falas que deram origem ao livro-reportagem Como nasce um miliciano: a rede criminosa que cresceu dentro do Estado (Bazar do Tempo, 2025, 216p.) da jornalista Cecilia Olliveira.
Um livro da Bazar do Tempo, editora criada em 2015 e conduzida por mulheres, dedicada a publicar obras de autoras referência, e que agora também se volta a reportagens escritas por elas, como é o caso de Gaza está em toda parte, da jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, e de Como nasce um miliciano.
Jornalista experiente, dedicada ao tema da segurança pública, Cecilia Olliveira tem o conhecimento e a coragem para procurar entender o que são, como são, quem as fez e as faz e como se articulam as milícias para ser o sucesso que fazem. O caminho para desvendar a trama ela expõe no livro.
E não foi fácil. Muitas negativas e portas fechadas. Inclusive dificuldade de acesso por fontes oficiais a documentos que são públicos. Mas a repórter não se contenta com o não e os empecilhos à apuração. É persistente, segue e consegue.
O livro está dividido em cinco partes (nas quais se inclui a introdução). Notas, referências e uma linha do tempo ao final. Há também imagens. O projeto gráfico do Estúdio Insólito expõe o espírito ágil do texto. A capa já revela a teia intrincada das conexões com os elementos que compõem a trama. E está disponível na versão impressa e e-book. Perfeito.
A história é contada de forma não linear, porque os fatos e nem a vida são assim. Cecilia Olliveira vai pouco a pouco apresentando as engrenagens deste sistema. Tudo começa com as perguntas e são várias: O que faz um policial se tornar aquilo que se preparou para combater? Como uma estrutura criminosa se torna tão poderosa? E por que isso nos importa?
Estarrecidos, vamos vendo as respostas surgirem na revelação do que é um esquema estruturado, perene e pulsante que movimenta justiça com as próprias mãos, negócios e a política. Nada e ninguém está imune.
A milícia é um modelo de negócio e em expansão. Movimenta um mercado que tem areia, gasolina, farmácia, imóveis, água, televisão, internet, vans, todos os serviços que fazem uma cidade, e no plural: tudo que pode ser comercializado onde o poder público só chega na viatura.
E isso para não falar que é um esquema por franquias que vai se expandindo para onde há pouca resistência e possibilidade de lucro. O franqueado paga uma taxa para ter acesso à organização. É tão organizado que ele recebe suporte não só para a instalação, mas também para operação do negócio.
Uma estrutura que comanda territórios, influencia eleições e redefine políticas públicas. E não se trata de um poder paralelo. É o Estado funcionando em benefício de grupos criminosos. Grupos que têm nome, origem, história, local de atuação, meios de atuação e relacionamento. E Cecilia Olliveira não se furta a apresentar quem são, o que fazem e como agem.
É o caso de um dos milicianos perfilados no livro, o Bené, um dos chefes da “firma”, violento, temido e respeitado; pois não há milícias sem os milicianos. Tudo o que cerca o tema também está no livro: pesquisas universitárias e os planos para políticas públicas de segurança; a mídia e as suas falhas na cobertura das milícias; o sensacionalismo; a população refém e desassistida.
Todos os ângulos estão expostos, estudados e apresentados por Cecilia Olliveira. O livro é um documentário bem-acabado por escrito. Quem quiser entender ou estudar as milícias, quem quiser estudar segurança pública no Brasil, violência, política, mídia, não pode passar sem ler Como nasce um miliciano.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito, e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN).
