Sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1375

The New Yorker, uma revista em cem anos de ficção

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Uma revista longeva tem em seu arquivo um relicário com muito a contar de um tempo: o seu. Nascida em 1925, voz e centro da cultura norte-americana na cidade que lhe deu nome, Nova Iorque, na The New Yorker se fez de um tudo. Inclusive, uma forma de jornalismo, o novo jornalismo.

E não só. A revista também abrigou o melhor da ficção. Quer ver? Basta mergulhar na seleção de contos da revista na comemoração do seu centenário: A Century of fiction in The New Yorker (1925-2025), editora Knopf, 2025, ‎1152 p., por Deborah Treisman.

Você vai conhecer o jovem George Stoyonovich, leitor de verão, e o seu vizinho Mr. Cattanzara, no conto de Bernard Malamud; e uma mulher entediada com o seu casamento e as suas rosas em The Weeds, de Mary McCarthy. Também vai ver um homem que se sente extorquido por sua família, obra de Saul Bellow.

Tem também a secretária que virou madrasta e o fim de um relacionamento: e tudo por conta de uma escada, ou melhor, da ausência dela. Vai se horrorizar e perder a respiração em The Lottery, da contista de mistério e horror Shirley Jackson. Vai ler um dos fabulosos contos de Nabokov e outro surpreendente e famoso de Salinger, sobre Bananafish.

Alguns podem até ser trágicos e Bananafish está nesta categoria. É um conto e tanto. Não é à toa que é Salinger. E bastante comentado, por sinal. Os bastidores revelam que chegar àquela versão deu trabalho a ele e aos editores. Acontecimentos da história literária e de uma revista que publicou o melhor da literatura do seu tempo.

O maior da literatura está aqui, sem exceções. Mary McCarthy, Salinger, Nabokov, Updike, Roth. E tem mais. Cada conto é notável. Uma das histórias de Goodbye, Columbus, de Roth, está aí, com todos os debates sobre o antissemitismo que suscitou. E alguns contos foram até parar no cinema.

O que mostra que a ficção não esteve distante das questões do seu tempo. Histórias que existem também pelo que está além delas e de toda repercussão e debates que causaram. Assim se dá com o conto de Roth e não é diferente com o de Shirley Jackson, que levou a redação a receber uma enxurrada de cartas indignadas.

A literatura na New Yorker sempre esteve em debate não só pelo estilo. A coletânea é um retrato disso. Estão aqui os efeitos pós-traumáticos da Segunda Guerra Mundial na alma dos ex-combatentes, uma Nova Iorque cosmopolita, a questão racial e o movimento pelos direitos civis nos anos 1960.

E tudo que cerca uma história concorrida dos últimos cem anos de uma nação: medos, violência, traumas, imigração, inadequação, aceitação. Tudo. E mudanças estilísticas. O fluxo de consciência do assassino do ativista Medgar Evers é chocante, parte da história conturbada norte-americana que sobrevive.

Outras novidades em vocabulário, sintaxe, colagens, de tudo um pouco e que marcam contos surpreendentes como o de Muriel Spark no caldeirão de novidades dos anos 1960. E aqui um caso de violência contra os indígenas é parte dessa história publicada na ebulição da Guerra do Vietnã.

Até o apartheid africano aparece. Não só pela separação de cor, mas pela separação de mundos que os tornam completamente alienígenas um do outro, em um caso de amor improvável, assunto de City lovers, da grande sul-africana e Nobel Nadine Gordimer.

Aliás, a New Yorker não tem fronteiras. Cosmopolita, nela sempre coube uma Nadine Gordimer como coube o inventivo, único e surpreendente argentino Jorge Luis Borges, em conto traduzido do espanhol para o inglês; e Bruno Schulz, traduzido diretamente do polonês.

Vidas à deriva, como Rosa, Magda e Stella no meio do frio no terror diante da morte no campo de concentração nazista no conto The Shawl, de Cynthia Ozick; como também estão J.P. e sua esposa Roxy no conto de Raymond Carver, Where I´m calling from. E assim, se chega aos anos 1980.

Uma mãe às turras com a filha jovem e sonhadora, um tantinho mentirosa, em The Red Girl, de Jamaica Kincaid, cuja história de vida pode se confundir com a personagem. Aos 16 anos Jamaica foi mandada pela mãe de Barbados para trabalhar numa casa de família rica em Nova Iorque. Revoltada, ela nunca mandou dinheiro de volta.

Susan Sontag inaugura formas no inventivo e coletivo diálogo em The way we live now, de 1986. A absurda e envolvente Emergency (1991), de Denis Johnson, onírica, surreal, incrível; assim como Brokeback Mountain (1997), de Annie Proulx, e o surpreendente conto de Tobias Wolff, Bullet in the Brain (1995).

Um homem baleado em um assalto a banco vê episódios do seu passado, enquanto a bala do revólver atravessa o seu cérebro. How to Date a Brown Girl (Black Girl, White Girl, or Halfie), do dominicano Junot Díaz, assume praticamente a forma de manual, classificado de irônico e satírico, sobre como encontrar garotas de diferentes etnias.

Impossível não mencionar People Like That Are the Only People Here, de Lorrie Moore. Relato sofrido e de cunho autobiográfico sobre uma família com um bebê com câncer na perspectiva dos pais, por uma mãe narradora que é escritora, e sobre a postura diante da situação e de outras famílias em situação semelhante. É preciso ler esse conto!

Os anos 2000 em diante trazem os aclamados Haruki Murakami, Roberto Bolaño, Alice Munro, David Foster Wallace, Salman Rushdie, Edna O’Brien, Don DeLillo e Chimamanda Ngozi Adichie, abrem espaço para os indígenas e continuam a explorar a experiência do afrodescendente e do imigrante.

É a vez dos nativos americanos Sherman Alexie e Louise Erdrich; de Edward P. Jones, que escreve sobre a experiência afro-americana, e da sino-americana Yiyun Li, que foi para os Estados Unidos estudar imunologia e lá, para melhorar o inglês, acabou se tornando escritora. E do sucesso de Drinking coffee elsewhere, de ZZ Packer. 

Robert Coover com a sua narrativa curta e experimental comprime a vida de um homem em um único parágrafo; Nathan Englander, autor de contos e romances judeu-americanos, provoca a refletir sobre a experiência do outro. 

A britânica de ascendência jamaicana Zadie Smith aborda a imigração, multiculturalismo e a vida moderna. Kristen Roupenian viralizou no contexto do movimento #MeToo na pauta dos relacionamentos modernos, consentimento e a percepção feminina, em Cat Person.

Entre tantos contos, autores e temas, a seleção marca a celebração do centenário de uma revista que não só fez jornalismo e um novo jornalismo, mas também fez das suas páginas o espaço para o melhor da ficção. E continua.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.