
(Foto: Sivani Bandaru/Unsplash)
A geopolítica é uma temática demasiadamente complexa; envolve questões econômicas, territoriais, políticas e culturais. Nos noticiários internacionais da grande mídia, essa constatação – bem óbvia, por sinal – é o argumento para o uso de “atalhos cognitivos”, recursos discursivos cujo objetivo é tornar familiar para o público o andamento das relações internacionais. No entanto, como argumentado neste artigo, tais atalhos não possuem fins didáticos, mas ideológicos. Via de regra, estão a serviço dos interesses das potências imperialistas, principalmente dos Estados Unidos.
O atalho cognitivo mais comum é o maniqueísmo, que consiste em dividir o mundo entre “bem” e “mal”. É algo a que as pessoas estão habituadas, seja na religião predominante no Ocidente, nos contos infantis, telenovelas ou filmes. Dessa forma, tal como nos épicos, a geopolítica tem seus “mocinhos” e “vilões”.
Os três focos de tensão mais presentes nos noticiários atualmente – Ucrânia, Palestina e Venezuela – exemplificam essa questão. O “bem” é representado por ucranianos, israelenses e estadunidenses. O “mal”, por russos, palestinos e venezuelanos. Com isso, tenta-se induzir o público a aderir a um dos lados em determinado conflito – via de regra, o lado do imperialismo.
Entretanto, no atual contexto informacional, diferentemente de outrora, as notícias sobre o que acontece no mundo não nos chegam apenas pela grande mídia brasileira, sucursal das agências internacionais de notícias dos países imperialistas. Elas também circulam na internet. E o que vemos na rede mundial de computadores, sobretudo nas redes sociais, contradiz as mentiras divulgadas por GloboNews e companhia.
Diferentemente dos discursos da mídia hegemônica, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, não foi uma ação “do nada”, protagonizada pelo “imperialismo russo”, mas uma resposta de Moscou às provocações da Otan, que utilizou a população ucraniana como bucha de canhão. Os ataques contínuos de Israel à Faixa de Gaza não são uma resposta ao “terrorismo” do Hamas, mas a atual etapa de um genocídio que dura, pelo menos, oito décadas. Por fim, o recente sequestro de Maduro na Venezuela não ocorreu por ele ser narcotraficante – acusação, inclusive, retirada. Foi realizado para que os Estados Unidos tenham acesso privilegiado aos recursos naturais venezuelanos e neutralizem as influências chinesas e russas no país (e consequentemente em toda a América Latina). Não teríamos acesso a todas essas informações se não fosse o trabalho da imprensa alternativa.
Diante dessa realidade, não por acaso, estudos realizados por instituições como Pew Research Center e Quaest, pesquisas que tenho realizado com alunos do ensino médio, ou mesmo breves análises de conteúdos postados nas redes sociais nos revelam que Israel e Estados Unidos, por exemplo, países representados positivamente nos noticiários internacionais, já não são vistos da mesma forma pelo público brasileiro. Ou seja, há uma capacidade reduzida de influência dos discursos midiáticos hegemônicos sobre os imaginários geopolíticos.
Se os maniqueísmos dos discursos midiáticos não surtem tanto efeito, o mesmo não podemos dizer sobre outros dois atalhos cognitivos: o jornalismo de adjetivação e a personalização.
No jornalismo de adjetivação, certos atores geopolíticos são rotulados para que juízos de valor sejam noticiados como se fossem “objetividade editorial”. Nos focos de tensão aqui abordados, os mais conhecidos são “o autocrata Putin”, “o grupo terrorista Hamas” e “o ditador Maduro”. Essas tipificações – falaciosas, por sinal – são repetidas até por críticos da grande mídia.
Nos últimos dias, não foi raro presenciarmos nas redes sociais pessoas que se dizem “à esquerda” replicando posicionamentos controversos sobre a Venezuela, enfatizando que, apesar dos ataques estadunidenses, ficamos livres da “ditadura bolivariana”. É a “esquerda” que a GloboNews gosta. Papagaios de pirata dos Guga Chacra da vida. Da mesma forma, muitos setores progressistas demoraram a demonstrar solidariedade ao povo palestino para não serem confundidos com apoiadores do “grupo terrorista Hamas”. Postura extremamente lamentável.
Já a personalização consiste em analisar a geopolítica não a partir de interesses econômicos, mas levando em conta personalidades individuais. Por meio desse atalho cognitivo, é possível, por exemplo, perceber as agressões sionistas e estadunidenses não como modus operandi clássico de Israel e Estados Unidos, mas como ações ligadas exclusivamente às personalidades controversas de Netanyahu e Trump. Com esse ilusionismo verbal, cria-se a impressão de que, quando a extrema direita sair do poder, Israel e Estados Unidos deixarão de lado as políticas externas agressivas.
Nessa lógica, na última eleição presidencial estadunidense, no ano retrasado, setores identitários da esquerda fizeram campanha pela candidata Kamala Harris, como se o simples fato de ela ser mulher, negra e filha de imigrantes fosse suficiente para produzir um mandato que rompesse com a política externa do imperialismo. Uma conhecida articulista da esquerda, inclusive, fez uma constrangedora postagem nas redes sociais com o título “Axé, Kamala”.
Portanto, o atual cenário informacional apresenta uma conclusão dúbia. No âmbito macro, que envolve as relações entre os diferentes Estados nacionais, as mentiras da grande mídia já não surtem tanto efeito. É cada vez mais complexo defender as ações de países beligerantes como Israel e Estados Unidos. No entanto, tais ações são minimizadas nos discursos geopolíticos hegemônicos ao serem associadas às personalidades de seus atuais líderes.
Por outro lado, as resistências ao imperialismo, tanto na Palestina quanto na Venezuela, ainda são vistas de maneira negativa em boa parte dos setores progressistas – ou que ao menos se consideram como tais. Isso comprova que os rótulos presentes na mídia ainda são eficientes.
Dessa forma, devemos concentrar nossos esforços na desconstrução dessas ideologias que produzem uma falsa equivalência entre oprimidos e opressores. Quem reproduz discursos como “Hamas terrorista” e “Maduro ditador” está fazendo o jogo do imperialismo, esteja consciente disso ou não.
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Francisco Fernandes Ladeira é Pesquisador de pós-doutorado do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – campus Ouro Preto.
