Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1371

Televisão portuguesa, imigração e a pedagogia do medo no novo ciclo político

(Foto: Claudio Schwarz/Unsplash)

Nos últimos meses, a imigração voltou a ocupar um lugar central no debate público português. A proposta de revisão da Lei de Estrangeiros, apresentada pelo atual governo como resposta técnica a desafios administrativos e de segurança, surge num ambiente mediático já saturado por narrativas de risco, desordem e suspeição. Antes mesmo de se tornar texto jurídico, a imigração foi amplamente convertida em problema televisivo.

A televisão portuguesa, especialmente nos noticiários generalistas e nos programas de cunho policial ou sensacionalista, tem desempenhado um papel decisivo na construção desse enquadramento. A recorrência de reportagens sobre operações policiais, fiscalizações migratórias e episódios de conflito envolvendo estrangeiros contribui para a produção de uma gramática do medo que antecede e legitima o endurecimento das políticas públicas. Não se trata apenas de informar, mas de ensinar o público a temer.

Como observa John B. Thompson, os meios de comunicação não apenas transmitem acontecimentos, mas estruturam formas de experiência social à distância, moldando percepções sobre grupos que a maioria da população nunca encontrará diretamente. No caso da imigração, essa mediação tende a operar por meio da simplificação, da repetição e da associação simbólica entre diferença e ameaça.

A nova Lei de Estrangeiros e a preparação simbólica do consenso

A proposta de alteração da Lei de Estrangeiros não emerge num vazio social. Ela é antecedida por um longo processo de preparação simbólica no espaço midiático. A televisão desempenha aqui uma função pedagógica fundamental: ao reiterar determinadas narrativas, cria-se a sensação de que algo precisa ser feito com urgência. O direito transforma-se em resposta inevitável a um problema previamente construído.

David Garland descreve esse movimento como parte de uma cultura do controle, na qual políticas de segurança e punição ganham legitimidade não necessariamente por sua eficácia, mas por sua capacidade de responder a ansiedades sociais amplamente difundidas. No contexto português, a imigração passa a ser apresentada como fator de pressão sobre serviços públicos, mercado de trabalho e segurança urbana, mesmo quando os dados empíricos não sustentam essas generalizações.

A televisão raramente oferece espaço equivalente para contextualizações históricas, análises estruturais ou vozes migrantes. Em vez disso, privilegia o acontecimento pontual, a imagem forte e o discurso oficial. Esse desequilíbrio contribui para que a revisão da Lei de Estrangeiros apareça como medida técnica e racional, e não como escolha política atravessada por disputas de poder e concepções de cidadania.

Jovens imigrantes brasileiros entre visibilidade e suspeição

Dentro desse quadro mais amplo, os jovens imigrantes brasileiros ocupam uma posição particularmente sensível. São visíveis, mas raramente audíveis. Aparecem nas reportagens como números, ocorrências ou exemplos, mas dificilmente como sujeitos de fala capazes de narrar suas próprias trajetórias. A nacionalidade, quando mencionada, não é um dado neutro: funciona como marcador simbólico que orienta a leitura do acontecimento.

Arjun Appadurai argumenta que as sociedades contemporâneas tendem a projetar seus medos sobre minorias visíveis, especialmente em contextos de instabilidade econômica e política. O “estrangeiro próximo”, aquele que partilha o espaço urbano mas não é plenamente reconhecido como parte do corpo nacional, torna-se alvo privilegiado da ansiedade coletiva. A televisão, ao reiterar essa proximidade ameaçadora, reforça a sensação de invasão e perda de controle.

No caso dos jovens brasileiros, essa lógica é atravessada por estereótipos históricos e culturais que associam juventude, informalidade e desordem. A ausência de narrativas que mostrem trabalho precário, discriminação institucional ou dificuldades de integração contribui para uma representação truncada, que facilita a aceitação social de medidas restritivas.

Discursos de extrema-direita e normalização mediática

Um dos elementos mais preocupantes do atual cenário é a forma como discursos tradicionalmente associados à extrema-direita têm sido progressivamente normalizados no espaço mediático. Não é necessário que slogans radicais sejam reproduzidos explicitamente. Basta que certas categorias — invasão, excesso, risco, perda de identidade — passem a organizar o enquadramento jornalístico.

Roger Silverstone alertava que a mídia desempenha papel central na construção da moralidade pública. Quando determinados enquadramentos se tornam rotina, deixam de ser percebidos como escolhas e passam a ser vistos como descrições naturais da realidade. A televisão portuguesa, ao incorporar de forma difusa essas categorias, contribui para deslocar o debate migratório do campo dos direitos para o campo da segurança.

Esse deslocamento é crucial. Ele permite que propostas de endurecimento legal sejam recebidas não como restrições de direitos, mas como medidas de proteção coletiva. A extrema-direita, nesse sentido, não precisa vencer eleitoralmente para triunfar simbolicamente. Basta que suas premissas passem a orientar o senso comum mediático.

Televisão, medo e responsabilidade democrática

O problema central não reside na cobertura da imigração em si, mas na forma como ela é narrada. Ao privilegiar o medo em detrimento da complexidade, a televisão abdica de sua função democrática e aproxima-se de uma lógica de gestão emocional da audiência. Didier Fassin lembra que a distribuição desigual da compaixão pública revela quais vidas são consideradas dignas de cuidado e quais podem ser sacrificadas em nome da ordem.

No contexto português atual, a revisão da Lei de Estrangeiros torna-se um teste não apenas para o sistema político, mas também para o jornalismo. Cabe à imprensa decidir se continuará a reproduzir enquadramentos que simplificam e estigmatizam ou se assumirá a tarefa mais difícil de contextualizar, ouvir e complexificar.

Para o público brasileiro, habituado a observar processos semelhantes em seu próprio país, o caso português oferece um espelho inquietante. Mostra como democracias consolidadas podem, gradualmente, naturalizar discursos de exclusão quando a mídia abdica de seu papel crítico. A pedagogia do medo não é um desvio ocasional, mas um projeto que se constrói diariamente, imagem após imagem, manchete após manchete.

Enquanto a televisão continuar a ensinar quem deve ser temido, propostas legais restritivas encontrarão terreno fértil para prosperar. Questionar esse processo não é negar os desafios da imigração, mas afirmar que nenhuma política pública se sustenta democraticamente quando nasce do medo e do silenciamento.

Referências

APPADURAI, Arjun. Fear of small numbers: an essay on the geography of anger. Durham: Duke University Press, 2006.

FASSIN, Didier. A razão humanitária: uma história moral do tempo presente. Petrópolis: Vozes, 2014.

GARLAND, David. The culture of control. Chicago: University of Chicago Press, 2001.

SILVERSTONE, Roger. Media and morality: on the rise of the mediapolis. Cambridge: Polity Press, 2007.

THOMPSON, John B. The media and modernity: a social theory of the media. Cambridge: Polity Press, 1995.

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Cleyton Douglas Vital é pesquisador no departamento de Ciências da Comunicação, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) em Portugal. Investiga temas com foco em jornalismo policial, jovens e representações midiáticas da violência.