Domingo, 5 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1382

O jornalismo no Brasil em 2026: entre o extremismo e a pós-vergonha

(Foto: Pixabay)

Para pensar o jornalismo e a crítica de mídia, sem cair na tentação das predições típicas neste começo de ano, recorro ao projeto “Especial Jornalismo no Brasil em 2026”, desenvolvido há 10 anos pelo Farol Jornalismo em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) – com apoio institucional do Projor/Unicamp (Instituto Para o Desenvolvimento do Jornalismo). Os 11 textos selecionados, publicados em dezembro de 2025, tratam de temas relevantes da prática jornalística no país, na esperança de contribuir para o entendimento dos desafios e transformações da profissão.

De maneira geral, as projeções para o jornalismo e prática profissional, neste começo de ciclo, indicam “um cenário em que o jornalismo precisará lidar simultaneamente com os impactos da economia da atenção, o avanço da desinformação impulsionada por IA generativa” num ambiente político marcado de forma definitiva pelos discursos de extrema-direita, que se mantém muito ativos na contramão das conquistas da civilização democrática, em escala global. Alguns analistas apostam que a “resposta aos desafios de 2026 passa pela retomada de vínculos sociais, pela valorização do jornalismo local e pela colaboração entre diferentes atores do setor”. Destacam ainda aspectos relacionados à “segurança de jornalistas durante a cobertura eleitoral à necessidade de novas estratégias coletivas diante das plataformas, as reflexões apresentadas oferecem pistas sobre como o campo pode reafirmar seu papel democrático em um contexto informacional cada vez mais acelerado e adverso” (Farol Jornalismo).

Escolhi dois textos para esta breve reflexão. O primeiro, intitulado O jornalismo em meio aos complexos circuitos do extremismo político, é assinado pela pesquisadora Letícia Cesarino, antropóloga, professora na UFSC. O segundo, intitulado 2026: a primeira eleição presidencial da era pós-vergonha”, é da lavra do jornalista Marcelo Soares, um dos pioneiros do jornalismo de dados no Brasil, fundador da Lagom Data e mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor/Unicamp.

Complexos circuitos do extemismo

O trabalho da pesquisadora Letícia Cesarino (docente da UFSC) ganhou projeção nacional com a publicação do livro “O mundo do avesso: Verdade e política na era digital” (2022), no qual ela oferece uma explicação original e inovadora para o fenômeno da ascensão da ideologia da extrema-direita após o advento das redes sociais. Cesarino recorre à obra de Gregory Bateson, a partir da cibernética, sugerindo que observemos esses processos comunicacionais e fenômenos – que supostamente teriam causas políticas, econômicas ou conjunturais – em sua dimensão técnica, ou seja, como um sistema que funciona por dinâmicas de estabilização, crises, inversões, polarizações e novas reorganizações, demonstrando a complexidade por trás da recente digitalização da política e da verdade (Cesarino, 2022).

Observando o cenário desta sociabilidade virtual de novo tipo, profundamente marcada pela ubiquidade tecnológica e os circuitos sociotécnicos, dominados por megacorporações de comunicação e dados transnacionais, Letícia Cesarino vaticina: “A violência política sempre fez parte da paisagem político-eleitoral no Brasil. O próprio jornalismo, notadamente o local, não raro se via em meio aos seus jogos de pressão, ameaças e retaliações. Já o extremismo político propriamente dito é uma preocupação recente no nosso país, manifestação do recrudescimento de processos de radicalização por meios digitais. A polarização afetiva, a calcificação de identidades políticas, além de fenômenos novos, como a onda de ataques em escolas entre 2022 e 2023 e atos de terrorismo doméstico, como o do bolsonarista Tiu França contra o Supremo Tribunal Federal em 2024. Não por acaso, coincidiram com a tensão aumentada em torno das eleições de 2022 e com seu rescaldo golpista, também inédito no contexto da redemocratização. Tendências recentes no comportamento político-eleitoral brasileiro e parte de um circuito tecnopolítico complexo, esses fenômenos devem recrudescer em 2026, enredando o jornalismo de diversas formas” (Cesarino, 2025).

Para Cesarino, “esse ecossistema se estrutura por circuitos recursivos em que radicalização e moderação, extremo e mainstream, atuam como dois lados de uma mesma moeda que leva, em última instância, a resultados comuns: dessensibilização para a violência, corrosão do pluralismo democrático, normalização de meios extralegais, explicações conspiratórias e escalamento de estereótipos fantasiosos de um inimigo que, culpado por todos os problemas, torna-se passível de eliminação para que as ‘pessoas de bem’ possam enfim prosperar no Brasil” (ibid). Indo mais fundo em sua análise, a pesquisadora entende que “os atuais ambientes plataformizados se organizam com base em vieses técnicos que fazem proliferar precisamente estes e outros efeitos de rede que aumentam a probabilidade de entrada em trajetórias extremas. Este tem sido, na minha visão, o principal fator impulsionador da ascensão da extrema direita em todas as regiões do globo após a crise de 2008. E considerando que essa infraestrutura não mudou – pelo contrário, tem se acelerado com a corrida pelas IAs –, o extremismo político seguirá em ascensão em 2026” (ibd).

A pesquisadora discute o papel do jornalismo e faz suas apostas de como podemos – como agentes e produtores de um conhecimento social indispensável à vida democrática tal qual a conhecemos até este momento – vencer os desafios postos. Para a professora, são dois os pontos centrais: “Um primeiro ponto de atenção diz respeito à aceleração temporal e à recursividade característica dos ambientes digitais. Embora o jornalismo nunca tenha de fato mantido uma distância objetiva em relação aos eventos que reporta, com a digitalização, os feedbacks loops (circuitos de “afetações” recursivas) entre a imprensa, os eventos e o público tornam-se bem mais intensos, acelerados e potencialmente não controláveis; um segundo ponto é que, hoje, o jornalismo precisa conviver, e competir, com mídias alternativas e influenciadores digitais que operam segundo uma lógica mais próxima à do senso comum, da economia da atenção e de seu social de crise” (ibid).

Ao final, ela aponta o que lhe parece ser um dos caminhos para o jornalismo neste vasto e recém começado 20206: Caberia, aqui, retomar uma prática de jornalismo local adaptada aos fatores de confiança social característicos do senso comum e do social de crise. Para se tornar confiável, o jornalismo precisa se tornar redundante. Essa redundância tem, por um lado, um sentido cognitivo, de trabalhar com enquadramentos de realidade e expectativas que já estão dados na mentalidade do senso comum, de entregar previsões que se mostrem acertadas e de se tornar parte dos rituais que pontuam o quotidiano das pessoas. E arrebata, por fim: “Se a insegurança, o medo e o ressentimento continuarão sendo a base do extremismo, o compromisso, a confiança e o acolhimento serão o antídoto para que o jornalismo cumpria sua função social no ano que se avizinha (ibid, grifos nossos).

Jornalismo na era da pós-vergonha

O jornalista e pesquisador Marcelo Soares faz uma previsão mais ousada nas primeiras linhas do seu artigo para a série do Farol Jornalismo: A era da pós-verdade acabou quando Donald Trump tomou posse em seu segundo mandato na presidência dos Estados Unidos, aplaudido por todos os líderes das big techs, que financiaram sua eleição. Naquele dia, 20 de janeiro de 2025, começou a era da pós-vergonha (Soares, 2025). Descrevendo um pouco mais as características desta nova era, Soares escreve: Quando a verdade factual foi vencida pelos números do que mais engaja nas redes, um líder antivacina se tornou o equivalente ao ministro da Saúde dos EUA e os bilionários da tecnologia trataram de eliminar suas iniciativas de diversidade, inclusão e moderação de conteúdo. Mais ainda, esses mesmos bilionários inauguraram uma corrida para inundar o ambiente de informação com opiniões convenientes e tornar o acesso à informação o máximo possível mediado por máquinas de encher linguística. Tempos estranhos já estão aí” (ibid, grifos nossos).

A previsão geral do jornalista aponta para uma “cobertura eleitoral será marcada pela inteligência artificial generativa acelerando a produção de desinformação em um ecossistema em que o imediato e o espetacular importam mais do que a verdade”. O carnaval na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, com a homenagem de uma escola de samba ao presidente Lula, marcou o início definitivo do ano eleitoral nos desvãos das redes e circuitos de disputa acelerada pela hegemonia das opiniões.

Para Soares, o cenário político se complexificou profundamente com o advento das IAs generativas. Ele observa criticamente: Em 30 de novembro de 2022, um mês depois da última eleição presidencial brasileira, a base tecnológica ‘tradicional’ da pós-verdade ficou obsoleta quando entraram no mercado as ‘máquinas de encher linguística’, o ChatGPT e correlatos. Vieram com uma interface muito simples, que qualquer criança poderia usar – uma caixinha perguntando ‘o que você quer saber?’ Enganosamente, os geradores de lero-lero apresentavam-se como buscadores. E assim foram adotados entusiasticamente, potencializando a mentira e afirmações descuidadas dos fatos em escala hiperindustrial (ibid, grifos nossos).

O pesquisador alerta para o que já está posto, mesmo antes do primeiro momento deste novo ciclo: “A gororoba cuspida pelos aplicativos de inteligência artificial, o chamado ‘slop’, já ultrapassou em volume tudo o que é feito por gente. No próximo ano (2026), isso deve se acelerar. Especialmente em termos de imagens espetaculares, e espero que aqui no Brasil não tenhamos aviões despejando diarreia na cabeça das pessoas. Aspirantes a golpistas já têm acesso a cursinhos que ensinam o ‘prompt certeiro’ para fazer o doutor Drauzio Varella, uma das vozes de maior credibilidade no Brasil, vender qualquer garrafada a quem cair no golpe. Um ano eleitoral traz demandas muito além da comercial para que isso ocorra” (ibd, grifos nossos).

O fenômeno da precarização das redações e das condições gerais do trabalho para as/os jornalistas brasileiros se conecta ao cenário descrito por Letícia Cesarino e Marcelo Soares, tornando o problema ainda mais complexo, e de difícil solução à primeira vista. No entanto, há saídas. Soares arrisca um palpite: Para tentar ter alguma chance de virar esse jogo, é preciso ter uma compreensão muito sólida do que a publicação quer representar. E é fundamental buscar apoio e legitimidade num grupo pequeno, mas crescente de leitores fiéis, uma comunidade com quem se tem relação direta. Com isso, fica menos tenso encarar os grandes números de tráfego casual vindo das big techs como uma miragem em grande parte descomprometida com o que a publicação representa. Uma miragem com a qual não é possível contar para pensar onde se quer chegar, porque as big techs abrem e fecham a torneira como e quando preferirem. E, hoje, o que elas preferem é a gororoba dos geradores de lero-lero, que muitas vezes quer mais clique do que futuro” (ibid, grifos nossos).

A luz do jornalismo local: uma saída?

No começo de 2025, iniciamos um estudo sobre jornalismo local e democracia em Florianópolis. À pergunta “Como as organizações sociais avaliam o jornalismo local em Florianópolis?”, mais de 260 Organizações da Sociedade Civil responderam afirmativamente quanto à relevância da informação jornalística local, de qualidade e voltada ao interesse público, e registraram interesse em participar do processo (pautas, entrevistas, sustentabilidade). O relatório da pesquisa, em fase final de elaboração para divulgação ainda neste primeiro semestre de 2026, aponta que há espaço e caminhos promissores para organizações jornalísticas sem fins de lucros, reconectadas com os seus públicos.

Na visão do pesquisador Carlos Castilho (da equipe objETHOS)“o grande espaço novo que se abre é o do noticiário local, cuja importância cresce na medida em que a imprensa convencional se concentra cada vez mais na temática global e no acompanhamento dos grandes mercados financeiros. O jornalismo local tem diante de si um público órfão em matéria de dados, fatos e eventos relacionados ao seu quotidiano e ao seu orçamento doméstico. São bilhões de indivíduos no mundo inteiro, que estão literalmente no escuro em matéria de participação democrática porque não dispõem de ferramentas informativas locais”.

Castilho vai adiante, em contido otimismo: O futuro da imprensa e do jornalismo local é fascinante, mas seu presente é desafiador, para dizer o mínimo. A implantação de um ecossistema informativo local em regiões urbanas e rurais deve levar meses, ou anos, porque depende de a população entender o valor da notícia no seu orçamento doméstico e no seu dia a dia. Depende também da superação da desconfiança em relação à imprensa, de aceitar o jornalismo como parceiro, admitir a necessidade de pagar pelo noticiário local e adotar uma postura mais crítica em relação ao material divulgado pelos influenciadores (grifos nossos).

No equilíbrio sobre a corda bamba, valem demais os versos de Aldir Blanc musicados por João Bosco: “Mas sei que uma dor assim pungente/ não há de ser inutilmente/ A esperança dança/ na corda bamba de sombrinha/ E em cada passo dessa linha/ pode se machucar/ Azar, a esperança equilibrista/ sabe que o show de todo artista/ tem que continuar”. Segue a vida, e a luta!!!

Publicado originalmente em objETHOS.

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Samuel Pantoja Lima é Jornalista, docente do Departamento de Jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS