Sexta-feira, 10 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1383

Quando o ódio é o produto

(Foto: Simran Sood/Unsplash)

Em 2024, em pleno estouro de sua carreira, Chappell Roan divulgou um comunicado estabelecendo limites claros sobre sua relação com a fama. Quando está no palco, em drag ou falando com a imprensa, ela escreveu, está trabalhando, “em qualquer outra circunstância, eu não estou em modo de trabalho”. A mensagem era direcionada a fãs excessivamente invasivos e buscava preservar uma distinção fundamental entre a persona artística e a pessoa privada. Não podemos nos esquecer de que a palavra fã tem origem na redução do termo inglês fanatic (fanático), cuja raiz remonta ao latim fanaticus (servidor de um templo, inspirado por um deus), evoluindo para descrever entusiasmo exagerado, loucura ou admiração fervorosa.

Dessa forma, a postura da cantora não é capricho nem ingratidão, mas a tentativa articulada de resistir a uma lógica estrutural que a indústria do entretenimento e as plataformas digitais colaboram para impor: a de que o artista deve estar sempre ligado, acessível, responsivo e grato, independentemente do contexto em que se encontra. Reivindicar privacidade dentro dessa lógica é um gesto politicamente legível, e é precisamente esse gesto que tornou o episódio ocorrido em São Paulo, em 21 de março de 2026, tão analiticamente revelador.

Os fatos, em sua substância, são simples. Em São Paulo, durante o café da manhã do Palácio Tangará, hotel cinco estrelas onde a cantora se hospedava durante o Lollapalooza Brasil, Ada Law, 11 anos, filha da estilista Catherine Harding com o ator Jude Law e enteada do jogador Jorge Frello, do Flamengo, passou pela mesa da cantora, reconheceu-a e retornou ao seu lugar sem qualquer interação direta. Pascal Duvier, guarda-costas alemão de 53 anos, aproximou-se da criança, chamou-a de “mal-educada” e ameaçou registrar queixa formal junto ao hotel. A menina ficou “extremamente abalada e em lágrimas”, segundo relato posterior de sua mãe.

Diante disso, desenrolou-se um espetáculo que durou dias, mobilizou centenas de milhares de comentários nas mídias sociais, gerou cobertura em veículos de imprensa, motivou declarações do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere, sobre política cultural, demandou que a artista gravasse um vídeo negando ter ordenado ou sequer tido conhecimento da abordagem, desmentindo a acusação de não gostar de crianças e alimentou análises nos mais variados registros.

Chappell tornou-se alvo de uma mobilização de massa por algo que não fez, não ordenou e sobre o qual não tinha conhecimento. Quatro dias depois, em pronunciamento público no Instagram, o próprio Duvier declararia que não trabalhava para Chappell, não integrava sua equipe de segurança, não agia em nome de ninguém de sua cadeia de gestão e que tomara a decisão de abordar a família de modo inteiramente autônomo. Ou seja, o único sujeito que de fato agiu permaneceu anônimo e analiticamente ausente da cobertura jornalística nacional por quatro dias, e sua identificação, quando finalmente ocorreu, veio de um tabloide britânico, o Daily Mail, não dos veículos brasileiros que haviam conduzido a cobertura. Essa sequência não é um acidente de apuração. É o sintoma de um problema estrutural.

Compreender por que isso ocorre exige articular pelo menos diversas ordens de determinação. A primeira é econômica. Nick Srnicek demonstrou que o modelo de negócios das grandes plataformas digitais não é acessório ao fluxo de interações humanas, mas constitutivo dele. O capitalismo de plataformas extrai valor não da venda de produtos ou serviços, mas da captura e monetização de dados comportamentais gerados pela interação dos usuários. Nesse regime, conflitos de alta intensidade emocional não são anomalias que as plataformas precisam administrar, mas eventos de elevada rentabilidade informacional que seus algoritmos estão calibrados para amplificar. Cada comentário da torcida do Flamengo no perfil da cantora, cada repostagem do pronunciamento do jogador, cada leitura da foto com o cantor Lewis Capaldi produziu dados que retroalimentaram os modelos das plataformas. O ódio e a indignação funcionam, nesse contexto, como matérias-primas tão ou mais valiosas quanto outras formas de atenção, porque geram maior intensidade de engajamento e, portanto, maior precisão nos perfis comportamentais extraídos.

A essa primeira ordem de determinação acrescenta-se uma dimensão que aprofunda a análise; a vigilância digital não é passiva, conforme pontua Shoshana Zuboff, pois ela não apenas registra comportamentos pré-existentes, ela os induz. As arquiteturas de atenção das mídias sociais constroem as condições de possibilidade para que determinados padrões comportamentais se tornem mais prováveis, mais frequentes e mais espetaculares. A decisão algorítmica de amplificar os comentários agressivos da torcida no perfil da cantora não expressa simpatia por nenhuma das partes em disputa, expressa o reconhecimento inscrito na lógica do sistema de que o engajamento emocional negativo é extraordinariamente eficaz em termos de retenção de usuários. A foto de Ada ao lado de Capaldi com a legenda “obrigada pela gentileza”, lida pela rede como contraste implícito à conduta atribuída a Chappell, e a declaração do prefeito, que anunciou a proibição da cantora em eventos municipais e convidou a menina para ser homenageada no Todo Mundo no Rio, não são desvios da dinâmica original, mas extensões funcionais dela, cada uma gerando novos ciclos de engajamento e novos conjuntos de dados comportamentais.

Deve-se ressaltar que a cantora é uma mulher lésbica que se posiciona politicamente, defende a Palestina e rompeu com sua agência de talentos, pois o fundador foi citado nos Arquivos Epstein. Além disso, de acordo com a empresa GUDEA, a onda de ódio foi um ataque online coordenado, pois 4,2% dos perfis envolvidos foram considerados atípicos, muito provavelmente de bots, e esses perfis foram responsáveis por mais de 23% das postagens.

A terceira ordem de determinação é subjetiva. A psicopolítica, elaborada por Byung-Chul Han, nomeia o regime em que o poder opera pela modulação voluntária dos afetos. Diferentemente das formas tradicionais de coerção, que disciplinam os corpos, a psicopolítica age explorando o desejo, o sentimento de pertencimento e a indignação moral como vetores de controle. Nenhum torcedor do Flamengo foi coagido a comentar no perfil de Chappell, assim como nenhum fã da cantora foi obrigado a entoar gritos de protesto nas arquibancadas do evento musical. Todos o fizeram voluntariamente, mobilizados por sentimentos que reconheciam como genuinamente seus. É precisamente essa voluntariedade que torna a psicopolítica eficaz e difícil de identificar como forma de poder, visto que o sujeito explorado não percebe sua exploração, porque ela coincide com sua autoexpressão. Quando Jorge, que não estava em São Paulo no momento do incidente, publicou no Instagram sua versão inflamada com alcance de milhões, o circuito de cancelamento se ativou em questão de horas, não porque os fatos haviam sido verificados, mas porque a narrativa era afetivamente coerente com disposições pré-existentes, a celebridade distante e arrogante punindo a criança inocente e o pai indignado.

Que essa narrativa fosse factualmente incorreta do início ao fim foi irrelevante para sua circulação. E quando os fatos corretos finalmente emergiram, o dano reputacional já havia sido consumado, o prefeito já havia feito sua declaração e a artista já havia desmentido a acusação de não gostar de crianças. A cena em que Chappell precisou gravar o vídeo é pedagogicamente valiosa, porquanto demonstra que a lógica do cancelamento não precisa de provas para ser eficaz, precisa apenas de um enquadramento narrativo que ative disposições afetivas pré-existentes e de uma arquitetura tecnológica que amplifique esse enquadramento antes que qualquer verificação seja possível. A declaração posterior do próprio Duvier, confirmando que atuara de modo inteiramente autônomo, gerou incomparavelmente menos engajamento do que a postagem original. Essa assimetria é evidência empírica de que as plataformas não têm mecanismo estrutural de incentivo à verificação, têm mecanismo estrutural de incentivo à amplificação.

Por fim, a quarta ordem de determinação, e a mais diretamente relevante para a crítica de mídia, é narrativa, haja vista que os grandes veículos de comunicação dedicam editoriais e reportagens especiais ao fenômeno da polarização digital, diagnosticando-a como sintoma grave da contemporaneidade democrática. Contudo, ao mesmo tempo em que constroem esse diagnóstico, operam sistematicamente com as mesmas estruturas narrativas que produzem e amplificam a polarização que pretendem apenas descrever. A cobertura desse caso é exemplar dessa contradição, pois matérias com títulos do tipo “Entenda a treta” e “Perdeu, Chappell Roan” não informam sobre viralização, são momentos constitutivos dela. A distinção entre cobertura jornalística e participação no espetáculo torna-se, nesse contexto, analiticamente insustentável.

Essa contradição tem raízes nas formas narrativas consolidadas pelo jornalismo e intensificadas pela economia da atenção. A imprensa habituou-se a organizar o mundo em pares de oposição cuja estrutura binária facilita a comunicação, torna os conflitos inteligíveis e permite enquadramentos rápidos num ambiente informacional que penaliza a complexidade. Ao traduzir a realidade em duelos bem definidos, o jornalismo não apenas descreve a polarização, ele a produz. A pergunta factualmente relevante, quem era o segurança que abordou a família, a quem respondia e por que agiu daquele modo, raramente apareceu como objeto central da cobertura. O que apareceu foi o confronto entre dois campos e a escalada de seus gestos simbólicos subsequentes. A complexidade foi comprimida até caber nas categorias pré-fabricadas do “quem teve razão”, produzindo exatamente o empobrecimento do debate público que a imprensa afirma lamentar.

A entrada de atores institucionais, como o prefeito do Rio, revela um desdobramento que a crítica de mídia precisa examinar com atenção, uma vez que quando um gestor público converte um conflito de entretenimento em declaração de política cultural, está realizando uma operação de captura simbólica cujos benefícios são mensuráveis em termos de visibilidade e engajamento. A imprensa que cobre essa declaração como notícia, sem contextualizar sua função performática e sem interrogar sua racionalidade política, não está apenas relatando um fato, está fornecendo a infraestrutura de amplificação sem a qual o gesto perderia sua eficácia. O jornalismo torna-se, nesse circuito, um operador involuntário da psicopolítica, pois ao tratar como notícia o que é, fundamentalmente, conteúdo produzido para viralização, reproduz a lógica que deveria estar em condições de analisar criticamente.

O caso em análise é um dispositivo de revelação que torna visível o circuito completo que conecta a arquitetura econômica das plataformas, a lógica psicopolítica de modulação afetiva, os mecanismos algorítmicos de amplificação e as práticas narrativas do jornalismo, em que cada elemento desse circuito se alimenta dos outros. Nenhum desses atores age com má-fé deliberada, no entanto, operam segundo as racionalidades inscritas nas estruturas em que estão inseridos.

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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutor em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa: Arte & Democracia e Comunicação, Arte e Literacia Midiática.