Sexta-feira, 22 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1389

Donald Trump: “Sair de Ormuz passando por Havana ou pelo México?”

(Foto: Library of Congress/Unsplash)

Qual será o desfecho da “excursão” iraniana de Donald Trump? Por que ela não passaria por Havana ou pelo México? Os caminhos de Donald Trump são, de fato, muitas vezes inesperados. Planejada em uma mesa de fast food, em Washington ou Miami, e iniciada em 28 de fevereiro, ainda não se vislumbra, no início de maio, o fim dessa viagem persa do presidente norte-americano.

Para o presidente Donald Trump o tempo está se esgotando. Daqui a apenas seis meses, em 3 de novembro de 2026, a Câmara dos Representantes será totalmente renovada, assim como um terço do Senado. Na ausência de um resultado satisfatório para os Estados Unidos no Golfo, os eleitores poderiam dar as costas aos candidatos republicanos. Deixando Donald Trump “na mesma situação de antes”. É difícil imaginar o morador da Casa Branca ficar de braços cruzados até 3 de novembro. Mas o que ele pode fazer para sair da armadilha em que se meteu? Como ele pode tirar os pés do atoleiro de Ormuz? As saídas possíveis ou prováveis do estreito não foram escritas pelo próprio. É preciso, portanto, tentar imaginá-las revisando seu modo de agir no passado. E, ponderando bem, as pequenas pedras que lhe permitirão escapar do labiríntico atoleiro persa talvez estejam em algum lugar entre Havana e México.

Os caminhos da geopolítica não têm continuidade territorial para o chefe do Executivo dos Estados Unidos. A prioridade das prioridades é a exibição de um evento final que o coloque em destaque. As diferentes etapas de uma crise podem representar avanços ou retrocessos. O que importa é apenas o apito final. Um fracasso interno pode ser compensado por um sucesso internacional. Ou, inversamente, um revés externo pode ser apagado por uma vitória inesperada em outro cenário. Seja qual for o desfecho da crise no Golfo Árabe-Persa, o balanço de Donald Trump será pouco apresentável: ausência de uma vitória militar e diplomática clara e definitiva, perda de prestígio internacional para os Estados Unidos e seu presidente, desorganização da economia mundial, aumento dos preços do petróleo e do gás em todos os lugares, inclusive em Washington.

A única solução, já utilizada pelo presidente dos Estados Unidos, é jogar um ou mais curingas, redistribuindo as cartas e as regras do jogo. Algumas são previsíveis, como maximizar a cobertura da mídia para demonizar os migrantes. Bodes expiatórios sempre à disposição, eles já serviram a esse propósito várias vezes, desde o primeiro mandato. O presidente dispõe de um arsenal de epítetos prontos para inflamar os ânimos sobre o assunto. E, ao contrário dos iranianos, a capacidade de resposta deles é mínima: não têm nem minas, nem drones. Mas será que isso será suficiente? Se o Golfo se transformar no Mar dos Sargaços, enredando porta-aviões, fragatas e contratorpedeiros, serão necessárias outras medidas de contenção. Os migrantes derrotados sem perigo e, portanto, sem glória, oferecem apenas uma mísera porção de notícias na mídia. É, portanto, pertinente pensar que a urgência estratégico-climática poderá eventualmente levar o presidente Trump a mudar de rumo de uma hora para outra.

Mas que novos ventos ele vai provocar? Surpresa: muitos de seus bichos-papões já foram alvo de Trump desde que assumiu o cargo. Eles formam uma espécie de lista de condenados em liberdade condicional. Liberdade condicional que poderia ser suspensa pelos ventos contrários de Ormuz. Considerando um calendário apertado, a necessidade de agir rapidamente e, se possível, de forma espetacular, as ameaças dirigidas aos europeus não serão suficientes. É certo que retirar 5.000 soldados da Alemanha, ameaçar a Espanha, ironizar a França, alivia aquele que tem um grande peso iraniano no estômago. Mas esse alívio é mais pessoal do que coletivo. No fundo da gaveta, o “grande golpe” realizado em 3 de janeiro passado com o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, sem falhas, ou seja, sem a morte de um soldado norte-americano, em poucas horas, poderia aparecer como uma boia de salvação que pode ser reabastecida.

Mas onde? Na América Latina, sem dúvida. Porque os latino-americanos só têm o Direito e a palavra para enfrentar uma intervenção militar estrangeira. Mas a Venezuela já serviu de exemplo. O Panamá, ainda com o trauma da Operação Causa Justa, do presidente George Bush, em 20 de dezembro de 1989, capitulou logo nas primeiras advertências de Donald Trump, em fevereiro de 2025. O Brasil é um osso duro de roer. A Colômbia poderia ter sido escolhida para salvar o soldado Trump. Mas o país está em meio a eleições presidenciais, com dois candidatos de extrema direita em posição de elegibilidade. Então, quem? Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, El Salvador e outros sete países, ao aderirem ao “Escudo das Américas”, prestaram homenagem a Donald Trump e a seus decretos predatórios em 7 de março.

Restam Cuba e o México, que, de fato, têm sido alvo de discursos agressivos e repetitivos de Donald Trump há um ano e meio. O México é atacado em várias frentes: comércio, fluxos migratórios e tráfico de drogas. Na lista de recriminações de Trump nas últimas semanas estão a renegociação do tratado de livre comércio ACEUM (Acordo Canadá, Estados Unidos, México), a suposta tolerância das autoridades em relação aos narcotraficantes e as relações com Cuba. O nível das exigências subiu um degrau em 29 de abril. O atual governador de Sinaloa, membro do partido presidencial MORENA, foi alvo de um pedido de extradição.

Cuba, sujeita a sanções comerciais e financeiras há sessenta anos, foi alvo de um embargo petrolífero. Os países que vendiam petróleo aos cubanos foram instados a respeitar essa exigência unilateral. O México, a Argélia e a Rússia acataram a medida. Os países que contrataram médicos cubanos foram convidados a repatriá-los. As Bahamas, a Guatemala, a Guiana, Honduras, a Jamaica e o Paraguai acataram a medida.

Mas não se trata apenas de exigências específicas no âmbito das relações bilaterais. Cuba e o México foram ameaçados em várias ocasiões por Donald Trump, que declarou que militares e policiais norte-americanos poderiam intervir sem autorização em seus territórios. O discurso que legitima a ingerência de Washington no continente americano foi lançado em novembro de 2025. Em nome do corolário de Trump à doutrina Monroe, os Estados Unidos se concederam o direito de intervir no hemisfério ocidental. Vários grupos criminosos mexicanos foram classificados pelo governo Trump como organizações terroristas estrangeiras (FTO em inglês), da mesma forma que a Al-Qaeda ou o Daesh. O Livro Branco de Segurança Nacional de 2026 autoriza a tomada de iniciativas militarizadas quando os países vizinhos não tomam as decisões esperadas para reduzir o impacto da criminalidade. Foi em virtude desse “direito”, invocado em nome da segurança nacional dos Estados Unidos, que foi formulado, em 29 de abril, o pedido de extradição do atual governador de Sinaloa e de nove funcionários de sua administração.

Ao mesmo tempo, a imprensa revelou a presença, em 19 de abril, de agentes armados da CIA no estado de Chihuahua, sem que isso tivesse sido comunicado às autoridades federais mexicanas. As autoridades mexicanas solicitaram a apresentação dos elementos que justificam o pedido de extradição. O que acontecerá se a presidente Sheinbaum e seu governo considerarem esse pedido infundado ou insuficientemente documentado? Em 7 de março, em um hotel de sua propriedade em Miami, Donald Trump oficializou a criação de uma aliança de Estados que concordam em agir militarmente sob a liderança de Washington para combater o narcoterrorismo.

Ainda na Flórida, durante um discurso proferido em um banquete no dia 1º de maio, Donald Trump anunciou a adoção de novas sanções econômicas contra Cuba. São visados todos aqueles — empresas ou Estados — que cooperem com Cuba nos setores de energia, minerais, serviços financeiros e defesa. Esse decreto foi apresentado como uma medida provisória. Segundo o presidente, assim que o “trabalho” com o Irã estiver concluído, o porta-aviões Abraham Lincoln será posicionado a pouco menos de cem metros da costa cubana. As autoridades locais, acrescentou ele na ocasião, dirão “Muito obrigado, nos rendemos”. Essa declaração não traz nada de novo. Em 17 de março, o presidente dos Estados Unidos havia indicado, durante uma coletiva de imprensa, ter “ouvido falar de Cuba e dos Estados Unidos a vida inteira. Quando, então, os Estados Unidos vão agir? Acredito que terei a honra de tomar Cuba, quero dizer, libertá-la ou tomá-la”.

Cuba e o México estão aberta e assumidamente na lista de alvos de interferência. Quando? Em que data? Após a resolução da terceira Guerra do Golfo? Antes do fim desse conflito? Donald Trump age sempre por instinto, de acordo com as circunstâncias. Mas ele se preocupa em plantar minas de antemão, o que lhe permite, na hora certa, detonar aquela que ofereça o máximo de repercussão midiática e benefícios materiais. Antes da aventura venezuelana, ele havia demonizado a Venezuela, “inventando” a existência de um cartel de drogas, conhecido como “Soles”, que justificou o envio de um porta-aviões. A intervenção estava anunciada, mas seu início pegou a Venezuela e o mundo de surpresa. Cuba e o México preenchem os requisitos preparatórios para uma intervenção, que não seria necessariamente da mesma natureza nos dois países. O que está em jogo nas eleições de meio de mandato é um fator que condiciona a eventual tomada de decisão. A Flórida é uma reserva de votos cubanos nada desprezível. Igualmente determinante será a saída de Ormuz que Donald Trump possa encontrar, ou não, antes de 3 de novembro.

Texto originalmente publicado em francês, em 05 de maio de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Donald Trump: « Sortir d’Ormuz par La Havane ou Mexico? »”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/133165. Tradução de Andrei Cezar da Silva e revisão de Joseli Machado da Silva.

 

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.