
(Foto: Tara Winstead/Pexels)
A capacidade humana de imaginar uma inteligência artificial vem de tempos muito distantes e, desde então, fascínio, medo e curiosidade se misturam nessa que é uma das jornadas mais instigantes na história da humanidade. O conceito de criaturas artificiais e realistas data de pelo menos 2,7 mil anos atrás, segundo disse em entrevista ao site da Universidade Stanford Adrienne Mayor, historiadora de ciência e autora do livro “Gods and Robots: Myths, Machines, and Ancient Dreams of Technology”. “Muito antes de os avanços tecnológicos tornarem os dispositivos autônomos possíveis, ideias sobre a criação de vida artificial e robôs foram exploradas em mitos antigos”, afirmou. Como exemplo, ela cita que as primeiras referências à Inteligência Artificial, robôs e autômatos aparecem nas obras dos poetas gregos Hesíodo e Homero, em algum momento entre 750 e 650 a.C.
A longa estrada da IA tem sido construída desde aquela época, tijolinho por tijolinho, com diferentes engenhocas nos vários trechos desse percurso. Mas a certidão de nascimento da IA na era moderna, digamos assim, foi carimbada na Conferência de Dartmouth, em 1956, segundo a plataforma History of Data Science. Realizado no campus da Dartmouth College, em New Hampshire, nos EUA, o evento seminal reuniu um pequeno grupo de cientistas com o objetivo de debater o Projeto de Pesquisa de Verão de Dartmouth sobre Inteligência Artificial. O termo Inteligência Artificial, aliás, foi usado pela primeira vez ali e sua autoria é creditada a John McCarthy, professor de matemática em Dartmouth e um dos organizadores da conferência.
Hoje, quase 70 anos depois, a IA alcançou um status de tecnologia definidora dos rumos do mundo. E aqui chegamos ao ponto central: está na hora de discutirmos que futuros a IA está moldando – ou como usá-la para criar os futuros que sejam favoráveis aos humanos em vez de nos prejudicar. Por exemplo: um mundo em que a IA, em vez de ampliar o fosso da desigualdade digital, possa se disseminar de forma mais igualitária e não excludente. Outro ponto que exige atenção é o uso da Inteligência Artificial como arma de guerra, algo que já ocorre em larga escala na Guerra de Gaza, com as Big Techs no coração do conflito, oferecendo sua Inteligência Artificial para o governo americano, formando aquilo que o professor e sociólogo Sérgio Amadeu classifica como “complexo militar-industrial-dataficado” no livro “As Big Techs e a guerra total”.
A voz sábia do Papa Leão XIV
É por isso que a encíclica “Magnifica humanitas: Desarmar a IA”, apresentada pelo papa Leão XIV recentemente, é tão importante. É o primeiro grande líder global a abordar, com profundidade e a devida seriedade, um tema decisivo para o mundo. Na encíclica, o papa defende regras éticas para o uso em conflitos e diz que o controle da Inteligência Artificial não pode ficar na mão de “poucos”, numa referência ao fato de a IA e a infraestrutura computacional que a sustenta estarem nas mãos de um punhado de gigantes da tecnologia. Argumenta também que vários princípios devem ser aplicados ao desenvolvimento dessa tecnologia, como a proteção dos empregos das pessoas e a subordinação da IA a “estruturas legais robustas, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não abdique de sua responsabilidade”. “A Inteligência Artificial deve ser desarmada”, disse o papa. “A palavra é forte, eu sei, mas foi escolhida deliberadamente porque este momento precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar as consciências e indicar o caminho a seguir para a humanidade.”
Os benefícios da IA são inúmeros e já bem difundidos. Além das questões relacionadas à produtividade, eficiência e outros ganhos comerciais, ela também pode, se bem utilizada, ampliar nossa criatividade, capacidade de análise e ajudar a estudar melhor e a aprender mais. Ela também exerce um papel importante na medicina, ajudando no diagnóstico de doenças como câncer ou Alzheimer.
Preocupações éticas
Mas não podemos perder de vista que o avanço dela também levanta preocupações éticas. Se um carro autônomo se encontrar numa situação que deve decidir entre bater em uma criança ou em uma parede para salvar a vida da criança, mas podendo matar o passageiro, o que a máquina deve escolher? “Quantas decisões e quanto dessas decisões queremos delegar à IA? E quem é o responsável quando algo dá errado”, escreve Mark Coeckelbergh, professor de filosofia da mídia e da tecnologia na Universidade de Viena, no livro “Ética na Inteligência Artificial”. “Qual é o futuro do trabalho? Que tipo de vida teremos quando as inteligências assumirem os empregos? E quem é o ´nós`? Quem ganhará com essa transformação e quem perderá”? questiona Coeckelbergh.
No livro, ele também destaca os efeitos da IA atual, como os vieses de raça, gênero e classe social contidos nos modelos de treinamento, proteção de dados, desinformação e seus impactos nos sistemas políticos e no meio ambiente. Para ele, a ética não deve entendida como item menor nessa discussão, mas deve estar presente no momento em que os modelos de IA são desenvolvidos (ética by design).
O papel da mídia e dos profissionais de comunicação
A solução para esses problemas seria o alinhamento da IA aos interesses humanos. O alinhamento é o que determina se a tecnologia será usada para fins benéficos ou nefastos. “Alinhar uma IA exige não apenas deter um possível deus alienígena como também levar em consideração esses outros impactos e o desejo de criar uma IA que reflita a humanidade”, argumenta Ethan Mollick, professor da Wharthon School e autor de “Cointeligência – a vida e o trabalho com IA”. Esse debate não cabe apenas às corporações de tecnologia ou aos governos, mas sim a toda a sociedade, com “coordenação entre empresas, governos, pesquisadores e sociedade civil”. “Precisamos de normas e padrões acordados para o desenvolvimento e uso ético das IAs, moldados por meio de um processo inclusivo que represente diversas vozes”.
E a população precisa de letramento em IA para poder fazer um uso mais consciente e também exigir um futuro alinhado. Aqui, vejo a mídia e os profissionais de comunicação com um papel fundamental: os veículos devem promover debates, artigos, reportagens e informações sobre ética na Inteligência Artificial. O futuro está sendo construído agora. As decisões tomadas hoje por empresas, governos e pesquisadores terão efeitos por décadas, que podem ser benéficos ou não. Isso não vai ser resolvido por uma comissão de notáveis. É um trabalho de todos nós.
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Clayton Melo é jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR Comunicação.
