Domingo, 14 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1392

O que será da imprensa se o El Niño não for “super”?

(Foto: ricardo cristian/Pexels)

Neste semestre, como era esperado pela comunidade científica, as águas do oceano Pacífico passaram a se aquecer acima da média, indicando a transição de uma fase neutra para um novo período de El Niño. O fenômeno climático é algo natural e milenar, e se alterna entre fases de água fria (La Niña), neutra e quente (El Niño), cada qual influenciando a distribuição de ventos e umidade a partir da linha do Equador, com efeitos em escala global.

Especialistas do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) destacaram em maio, ao detectarem o exagero de algumas manchetes, que o frisson sobre um “super El Niño” estava gerando sensacionalismo. A meteorologia mundial costuma trabalhar com uma precisão segura para três meses adiante, e hoje os dados do próximo semestre estão ofuscados pela chamada “barreira da primavera”. Classificar a força do El Niño neste momento entra no território da especulação, como seguidamente vem sendo destacado por especialistas em reportagens dos portais brasileiros.

Segundo as maiores agências científicas mundiais, o El Niño ocorrerá. Contudo, atualmente há 25% de chance de um fenômeno de intensidade forte e outros 25% de probabilidade de se configurar um fenômeno de intensidade muito forte, o que ocorre quando a temperatura na porção central do oceano Pacífico supera em mais de 2°C o valor normal (o El Niño é decretado a partir de 0,5°C de aquecimento).

A preparação da infraestrutura é indispensável, e a imprensa vem mostrando como os estados estão se preparando, em menor ou maior escala, com tecnologia e engenharia. Raramente, entra nos planos a ampliação de áreas naturais protegidas, contenção mais eficiente para a mudança climática e seus efeitos extremos. O aquecimento do planeta é gerado, em primeiro lugar, pela poluição e desmatamento desenfreados.

Porém, quando pesquisas como o Reuters Digital Report mostram que menos da metade dos leitores de notícias confiam na imprensa no Brasil, ou levantamentos como o feito pelo News Literacy Project nos Estados Unidos indicam que 37% dos adolescentes pesquisados consideram a imprensa mentirosa, é preciso cautela em antecipar catástrofes em nome do clique. A competição é feroz, e a audiência, preciosa, eu sei, mas o prejuízo para as marcas vem se mostrando flagrante: em dez anos, a faixa de credibilidade da imprensa brasileira caiu de 62% para 42% do público, sem considerar aqueles que sequer fazem questão de acompanhar o noticiário.

Um super El Niño fica bonito nas manchetes, mas ainda não se sabe o que vai acontecer, e uma busca mínima nas notícias mostra que, enquanto o título fala em “super”, o conteúdo das matérias é vago. Porém na mente das pessoas, inclusive daqueles sensíveis ao tema da crise climática, o desastre já é uma certeza. Como desmobilizar essa apreensão, se necessário?

Outra ressalva importante é de que, em 2024, quando o Rio Grande do Sul ficou submerso e Amazônia e Pantanal arderam em chamas, estivemos sob efeito de um El Niño considerado moderado. O aquecimento global adiciona uma camada de calor que intensifica os efeitos deste fenômeno sazonal, amplificando-o, como já analisou o coletivo científico WWA (World Weather Attribution). Este é o verdadeiro perigo.

Estamos, portanto, diante de uma situação séria, porém com algum grau de incerteza em 2026. Há chances, inclusive, de o Brasil sentir efeitos mais severos apenas em 2027, no segundo ano de El Niño, assim como ocorreu em 2024.

O meio ambiente, assim como as causas indígenas, nunca foi um campeão de audiência. Mostrar a relação da mudança climática com as nossas vidas é uma boa estratégia editorial, no entanto, perdem-se oportunidades diárias de se fazer isso, na previsão do tempo, por exemplo. Há ferramentas gratuitas online, ao alcance de qualquer orçamento, que permitem explicar como às vezes estamos como o sapo na água que lentamente esquenta.

Em resumo, o El Niño deve certamente ser motivo de atenção da imprensa, pois tornou-se infelizmente um alerta vermelho do clima. Mas adotar a tática do medo para atrair a audiência flerta com o populismo e fortalece a cultura do conteúdo “sabor notícia”.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Marco Britto é Jornalista, doutorando no PPGJor/UFSC e pesquisador no objETHOS