
(Foto: Benita Barnard/Pexels)
Um espectro tomou conta das transmissões do Grupo Globo nesta Copa do Mundo de 2026: o espectro do boleiro opinador.
Lembra quando a grande preocupação da Fenaj era com a participação de uma influenciadora famosa em um programa de entretenimento? Pois bem, Vírgínia flopou e foi retirada do ar.
Os jornalistas respiraram aliviados? Não os que sonhavam ocupar o cargo de comentarista do Grupo Globo no maior torneio de futebol do planeta.
Aliás, antes de entrar no tema principal, vale lembrar que essa distinção hierárquica entre o profissional que toma chuva no treino e aquele que curte o ar-condicionado do estúdio gerou polêmica em 2018, quando Juninho Pernambucano falou no Sportv que a qualidade dos setoristas dos clubes era ruim. Para piorar, concluiu que só os competentes conquistavam a honra de fazer comentários no ar.
Apesar de ter batizado um programa da maior emissora do país, a profissão repórter é injustamente subestimada por gente que esquece que não foi um colunista que derrubou Richard Nixon. Para quem vê de fora, o profissional da opinião parece mais importante do que a pessoa que ganha a vida correndo atrás de pautas. Por esse raciocínio torto, Natália Beauty teria mais prestígio na Folha do que Patrícia Campos Mello.
No entanto, é inegável que acompanhar treinos se torna cansativo ao longo do tempo e a memória de cronistas incríveis, como João Saldanha e Nelson Rodrigues, transforma a velha e boa mesa-redonda em uma aspiração natural para os jornalistas esportivos.
Mas se essa resenha for o Seleção Copa, do Sportv, melhor desistir. O time que acompanha o apresentador André Rizek foi escalado com Renato Augusto, Paulo Nunes, Felipe Melo, D´Alessandro e Luís Felipe Scolari. Chama a atenção a busca pela virilidade na escalação. Tirando Renato, absolutamente todos os outros são lembrados por ter protagonizado pancadarias em campo. A um ano do Mundial Feminino, a testosterona está mais em alta do que nunca. Quem precisa de neurônios, não é mesmo?
Ah, mas só de virilidade vive a turma dos boleiros? Não, claro! Tem o elemento ginga do jogador-raiz, tarefa cumprida por Denilson: aquele que gritava “Deu Green” muito antes desta história de BET virar modinha e passou a fazer piadinhas no estilo do programa do Craque Neto justamente numa empresa que sempre buscou adotar um padrão de qualidade maior do que o da concorrência.
Sem falar nos baladeiros. Caso de André Balada, como o apelido já diz, e de Roger Flores, cujo currículo de conquistas amorosas chama mais a atenção do que o de títulos.
Foi-se o tempo em que a solidão de Ana Thaís Matos no ar era fruto apenas do machismo (que continua, dado o alto índice de “parceiragem” dos seus colegas homens). Agora, ela é também uma jornalista de formação quase solitária ao lado de Caio Ribeiro, Grafite, Cristiane, Rodrygo, Ricardinho, Richarlyson e Jorginho, craque do Flamengo, que afirmou não ter opinião sobre uma partida porque viajou e não viu.
Nessa, quem viajou mesmo foram aqueles que o contrataram para a função.
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Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio, com reportagens publicadas no Extra e O Globo Online. Já publicou artigos no próprio Observatório da Imprensa e em veículos como CartaCapital e Yahoo. Autor do livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.
