
(Foto: Ron Lach/Pexels)
A imprensa perdeu para os partidos e movimentos ultraconservadores a palavra final na determinação do que as pessoas irão debater, ou seja, a agenda pública de notícias. É uma mudança que afeta diretamente não apenas o papel do jornalismo na abordagem dos grandes temas nacionais e internacionais, mas principalmente a forma como a busca de soluções para os problemas cotidianos das pessoas é tratada pela imprensa.
Hoje, acusações inverossímeis, denúncias espalhafatosas, factoides descabidos e revelações escandalosas ganham de imediato as manchetes dos grandes jornais e telejornais, saltando imediatamente para as plataformas digitais, onde qualquer tema se transforma imediatamente num vale-tudo político e ideológico.
Trata-se de uma estratégia desenvolvida por políticos e ativistas de extrema direita empenhados em desestabilizar instituições, leis e estruturas vigentes usando fake news, desinformação e sensacionalismo. O compromisso com a verdade deixou de ser uma preocupação de homens públicos como o presidente Donald Trump, que não se importa de mentir ou falsear desde que ele fique em evidência nos meios jornalísticos.
A omissão da imprensa
O problema é que, consciente ou inconscientemente, a imprensa acaba ajudando os adeptos do negacionismo político ao reverberar em jornais, telejornais e sites noticiosos o impacto dos factoides impulsionados por agentes políticos. Afirmações irresponsáveis, como as feitas pelo presidente argentino Javier Milei, passam a ocupar um espaço desproporcional na mídia, ofuscando questões que afetam o dia a dia das pessoas, como é o caso, por exemplo, das mudanças climáticas agravadas pelo El Niño.
Secas, enchentes e furacões deveriam ser prioridades na agenda da imprensa porque a abordagem destes temas implica decisões governamentais, novas estratégias empresariais e a mudança de rotinas, regras e valores de cada pessoa. É uma temática extremamente complexa que não será resolvida rapidamente, pois mexe com todo o nosso cotidiano e já está causando milhares de mortes e perdas econômicas incalculáveis. Basta ver as enchentes no sul do Brasil e os incêndios na Europa. Quando o nosso verão chegar, seguramente teremos também incêndios aqui. Mas em vez de criar consciência sobre a necessidade imediata de preparativos, a imprensa prefere discutir as diatribes do Milei ou o vídeo fake do Bolsonaro.
A proximidade de eleições intensifica os esforços para controlar a agenda de debates, pois a imprensa deixou de atuar proativamente como parâmetro de objetividade e imparcialidade na análise dos temas que ela submete ao crivo da opinião pública. Basta alguma personalidade com visibilidade midiática fazer alguma declaração sensacionalista para o tema entrar imediatamente nas primeiras páginas dos jornais e nas chamadas dos telejornais.
Parceria ameaçada
Interessados em cargos eleitorais, influenciadores buscando monetização de suas postagens em plataformas e marqueteiros empenhados na promoção de produtos e serviços estão usando a imprensa para divulgação de seus propósitos, aproveitando-se da falta de controle sobre a confiabilidade, exatidão e utilidade pública dos conteúdos publicados. A procura frenética de audiências capazes de reequilibrar orçamento e fluxo de caixa está levando a grande imprensa a desconsiderar, frequentemente, o que preconizam seus manuais de redação.
A falta de perspectivas imediatas para a ‘insustentabilidade’ financeira do atual modelo de negócios da imprensa convencional pressiona os donos de conglomerados midiáticos a relaxar os critérios para avaliar o que pode ou não ser inserido na agenda diária de notícias. É uma razão objetiva que esconde um grave desafio. O aviltamento da agenda atual da imprensa acelera o seu desgaste perante a opinião pública e compromete a credibilidade futura das mídias jornalísticas.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
