Sexta-feira, 14 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1401

O que acontece quando três jornais escrevem a mesma manchete?

(Foto: Paul Espinoza/Pexels)

Em 31 de julho de 2026, as capas de Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo trouxeram, quase com as mesmas palavras, a notícia de que o ministro Flávio Dino autorizava a Polícia Federal a investigar o filho do presidente Lula por suposto tráfico de influência. O sujeito era o mesmo, o verbo era o mesmo, a ordem da frase era praticamente a mesma. Um leitor apressado, folheando as três capas em sequência, poderia facilmente confundir uma manchete com outra.

Não é incomum. Quem acompanha vários portais de notícia ao mesmo tempo já deve ter notado esse tipo de coincidência antes, num fato de grande repercussão ou noutro. A pergunta que fica, normalmente sem resposta muito precisa, é se isso é exceção ou rotina. E, se for rotina, o que ela significa, se é que significa algo.

É uma pergunta que soa simples, mas que esbarra logo de cara num obstáculo prático. Confirmar que três manchetes se parecem exige comparar o texto de uma com o texto das outras, e isso é fácil de fazer de olho quando são só três capas, num único dia. Fica bem mais difícil quando se quer saber se esse padrão se repete todos os dias, em dez ou vinte portais, ao longo de meses. Ninguém tem tempo de ler tudo isso e comparar cada título manualmente.

Talvez por essa razão prática, mais do que por qualquer resistência editorial, esse tipo de observação costuma ficar no campo do palpite. Alguém repara na semelhança de um dia específico, comenta, e o assunto se dissolve. Ninguém guarda registro, ninguém compara com a semana anterior, ninguém sabe dizer se aquele dia foi atípico ou apenas um exemplo qualquer de algo que acontece o tempo inteiro sem que se perceba.

Foi tentando entender melhor esse ponto, mais por curiosidade do que por qualquer outra coisa, que nasceu o Terminômetro (terminometro.com), uma ferramenta gratuita que compara, a cada dez minutos, os títulos publicados pelos principais portais de notícia do Brasil, medindo o quanto o texto de cada manchete se parece com o texto das demais.

Uma curiosidade que virou método

A ideia por trás da ferramenta é simples. O sistema coleta os títulos em destaque de cada portal monitorado e compara cada um com todos os outros, calculando um grau de semelhança textual entre eles. Isso se repete ao longo do dia inteiro, todos os dias, formando um retrato contínuo de como as manchetes se aproximam ou se afastam umas das outras conforme o noticiário avança.

O resultado é, antes de tudo, um mapa. Dá para ver em que horários do dia as manchetes tendem a ficar mais parecidas entre si, quais assuntos concentram essa aproximação e como ela se dissolve, ou não, conforme cada redação segue com a cobertura ao longo das horas seguintes. É informação bruta, sem interpretação embutida. Cabe a quem olha os dados tirar as próprias conclusões.

Vale reforçar esse ponto, porque é fácil pular direto para uma leitura mais dramática do fenômeno. A ferramenta não afirma que o jornalismo brasileiro é homogêneo, nem que os veículos copiam uns aos outros, nem nada parecido. Ela apenas mede uma coisa bem específica, a proximidade textual entre títulos, e deixa em aberto o motivo dessa proximidade existir.

Esse motivo, aliás, pode ser bem menos interessante do que parece à primeira vista. Manchetes sobre o mesmo fato, saído da mesma fonte oficial, tendem a se parecer naturalmente, porque descrevem o mesmo acontecimento com o vocabulário mais óbvio disponível. Duas redações diferentes escrevendo sobre a mesma decisão judicial, por exemplo, vão quase sempre usar os mesmos nomes, o mesmo verbo de autorização, a mesma referência ao órgão envolvido.

Talvez seja só isso, talvez não

Ainda assim, fica uma pergunta solta no ar. Se a semelhança entre manchetes for algo que acontece o tempo todo, e não só em dias de grande repercussão, talvez valha a pena entender melhor o que está por trás disso. Pressão de tempo nas redações, uso mais intenso de notas de assessoria, otimização de título para mecanismos de busca, convergência natural de vocabulário jornalístico. Qualquer uma dessas explicações é plausível, nenhuma delas está comprovada pelos dados do Terminômetro sozinhos, e provavelmente a resposta real é uma combinação de várias.

O episódio das três capas de 31 de julho serve bem como ilustração porque é visualmente óbvio, mas o interessante mesmo está no que fica invisível no dia a dia. Sem uma ferramenta que registre isso de forma contínua, esse tipo de coincidência só vira assunto quando alguém, por acaso, repara nela e resolve comentar. O Terminômetro tenta transformar esse acaso em série histórica, algo que dá para olhar semana a semana, mês a mês, e comparar.

Isso interessa a públicos bem diferentes, cada um por um motivo próprio. Para pesquisadores de comunicação, é uma fonte de dados que antes praticamente não existia de forma sistematizada e de fácil acesso. Para jornalistas que cobrem o próprio campo da imprensa, é um jeito de checar impressões que, de outra forma, ficariam só no campo do palpite. Para o leitor comum, é uma curiosidade que talvez confirme algo que ele já desconfiava, ou talvez mostre que a desconfiança era exagerada.

Nenhuma dessas leituras está fechada. É perfeitamente possível olhar os dados do Terminômetro e concluir que a semelhança entre manchetes é pontual, ligada só a fatos muito grandes que dominam o noticiário por algumas horas. Também é possível olhar os mesmos dados e achar um padrão mais insistente do que se esperava. As duas leituras são válidas, e provavelmente a resposta certa muda dependendo do período observado, do tema e dos veículos escolhidos para comparação.

O que parece mais seguro dizer é que esse tipo de pergunta ganha outra qualidade quando existe um instrumento capaz de acompanhá-la ao longo do tempo, em vez de depender de um exemplo isolado, capturado por sorte num dia qualquer. Não porque o exemplo isolado seja inválido, mas porque ele conta uma história menor do que a história completa. As capas de 31 de julho mostram um momento. O que vem antes e depois desse momento, dia após dia, é o que talvez valha mais a pena acompanhar. O acompanhamento fica disponível, ao vivo, em www.terminometro.com, para quem quiser ver o mapa se formando minuto após minuto e tirar as próprias conclusões.

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Lucas de Souza é programador, atua em uma consultoria de logística e cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas. É natural de Governador Valadares (MG) e criador do Terminômetro, ferramenta que compara manchetes de portais de notícia brasileiros.