Domingo, 25 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

Tecnologia e jornalismo para novos ângulos: drones, IA e o trânsito de Goiânia

Avenida Mutirão, Goiânia, 9 de abril de 2026. (Foto: Raniê Solarevisky – BIGOD/UFG)

A reportagem ‘Capital do carro’: por que Goiânia ainda evita o transporte público, de Tainá Mariano e Ana Luiza Póvoa, se depreende de uma disciplina de Jornalismo de Drone, ministrada no primeiro semestre de 2026. O objetivo era explorar as imagens aéreas como um insumo capaz de prover contexto e informações que, de outro modo, não seria possível colher ou mostrar numa reportagem.

Vale aqui o clássico show, don’t tell: a matéria consegue ir além do que fontes documentais ou especialistas consultados poderiam dizer ao capturar imagens aéreas de uma das avenidas mais movimentadas da capital e permitir que o próprio leitor constate o volume massivo de carros nas vias, muito superior ao de motos e, principalmente, ao de ônibus. Com imagens captadas ao nível do chão, simplesmente não seria possível oferecer o mesmo nível de contexto, visualização e escala do problema—tal como se preconiza nas referências sobre dronalismo.

O texto se abasteceu com imagens captadas especialmente para a reportagem e também disponibilizadas no Banco de Imagens Goiano de Drones, o BIGOD. Trata-se de uma plataforma colaborativa em que é possível enviar e baixar imagens de drone de todo o Estado de Goiás de maneira gratuita e em alta qualidade, superando barreiras de orçamento em pequenas redações para adquirir e utilizar esse tipo de equipamento, por exemplo. As estudantes dirigiram as capturas com drones, lidando com autorizações legais, ângulos e movimentos indicados e desenvolvimento da pauta.

Não satisfeitas com as entrevistas que fizeram com personagens, estudiosos, gestores e representantes públicos dos modais de transporte, Tainá e Ana Luiza produziram uma segunda reportagem sobre o mesmo tema, também baseada em imagens de drone – mas, dessa vez, utilizaram ferramentas de inteligência artificial de aprendizado supervisionado para mapear a quantidade de diferentes tipos de veículos em imagens captadas em vários pontos da cidade. A interpretação das imagens apoiada por IA (que sempre pede revisão) reforçou o diagnóstico da primeira parte da apuração, mostrando uma proporção de carros muito superior à de qualquer outro modal em pontos de tráfego intenso, como um dos camelódromos de Campinas ou a Avenida 84, no Setor Central.

A experiência, que produziu material de interesse local evidente, revela a necessidade de dar mais peso ao termo “laboratório”, que batiza muitos espaços e disciplinas nos cursos de jornalismo. A universidade é (ou deveria ser) o lugar da experimentação guiada por critérios. É apenas com a exploração situada e orientada dos recursos da vez – drones, IA, ou qualquer novidade que venha por aí – que os cursos de jornalismo terão condições de acompanhar a marcha das trends e decidir o que vale incorporar ou reinterpretar delas. A academia não pode rezar o evangelho do mercado, mas se recusar a escutar o sermão das big techs e de seus fãs seria decidir pela ruína do método científico e da oitiva inerente ao ofício da reportagem. Nas experiências com drones e IA narradas aqui, as tecnologias não são guias. Elas foram escolhidas pelas estudantes, diante da miríade de geotecnologias apresentadas, como as mais adequadas para dar suporte, sentido e credibilidade às histórias nascidas da observação crítica da cidade em que vivem. Foi o repertório formado pelo conhecimento técnico de como cada solução opera que permitiu chegar àquelas que fossem as mais indicadas para cada caso. E é essa a história da imprensa, que sempre se associou ao que havia de mais conveniente para mediar um acontecimento à sua época — do telégrafo à notificação do seu celular.

Leia a reportagem.

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Raniê Solarevisky de Jesus é professor do curso de Jornalismo da UFG. Coordena o grupo de pesquisa Nodus, que investiga objetos na interseção entre jornalismo, mídias digitais e teorias da comunicação, sob uma perspectiva neomaterialista.