
Laborejo, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), abordou com sensibilidade casos de violência em comunidades indígenas. (Foto: Fabrício Serrão)
Oferecer aos estudantes experiências sem as amarras de redações tradicionais – sejam editoriais, comerciais ou de logística – é um dos trunfos dos laboratórios de jornalismo. Para produzir reportagens sobre violência de gênero contra mulheres indígenas, a equipe do Laborejo, sediado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), visitou o povo Akroá Gamella, na Terra Indígena Taquaritiua, em São Luís, onde também ofereceram uma oficina de comunicação sobre o tema aos moradores do local.
Além de utilizar métodos convencionais de apuração, com levantamento de dados e pesquisas documentais, passaram um final de semana junto das mulheres, realizando tarefas cotidianas, para então escrever as reportagens Terra e corpo em risco: violência mais que dobra quando a vítima é mulher indígena no MA e Macho para quem? Companheiros são maioria entre agressores de mulheres indígenas no MA.
Assinam os textos as alunas Sylmara Durans, Layane Santos, as professoras Maria Gislene Fonseca e Sarah Fontenelle Santos. Durante a visita à Taquaritiua, o estudante de audiovisual Fabrício Serrão também participou, sendo responsável pela captação de imagens e áudios. O grupo foi orientado a atentar para as diferenças étnicas e culturais entre autores e personagens das pautas, a fim de não reproduzir, durante as apurações, um novo processo de violência das vítimas.
A coordenadora do laboratório, Maria Gislene Fonseca, a Gisa, explica a importância da imersão. “Foi preciso entender o que é uma troca, e não chegar lá e dizer: ‘Me conta a violência que você sofreu’, porque isso é violento novamente. Quando a gente discute gênero e diversidade, insiste na necessidade de não revitimizar as pessoas”, destaca.
Sem uma perspectiva de gênero, diversidade sexual e raça, são grandes as chances de estudantes reproduzirem discursos que marginalizam grupos historicamente invisibilizados e que tomam conta da imprensa no Brasil, majoritariamente branca e de classe média. Até 2022, 77% dos funcionários das redações brasileiras eram brancos, conforme pesquisa do jornalista Luiz Teixeira publicada no Reuters Institute.
Levantamento realizado pelo Farol, em parceria com o Projor, identificou laboratórios de jornalismo extracurriculares em diferentes regiões do país interessados em abrir espaço para vozes silenciadas e que empreendem esforços para evitar a perpetuação de práticas desumanizadoras.
No norte do país, às margens do Atlântico, o Laborejo aborda com sensibilidade casos de violência de gênero, antes invisibilizados. O início das atividades do projeto, em 2024, foi impulsionado por uma parceria com a Agência Pública. Ao convidar um membro da agência para falar sobre modos de financiamento e a influência que exercem em coberturas, o laboratório recebeu a proposta de participar do Climômetro. A iniciativa da Pública mapeou em 2024 as intenções dos candidatos em relação às políticas climáticas de municípios brasileiros.
“A estreia do Laborejo já foi grande, com todo esse impacto e alcance. Ele nasce da relação da disciplina de Crítica de Mídia, da parceria com a Agência Pública e das lacunas que a gente conseguia identificar nas coberturas locais, além da falta de espaços de experimentação no curso”, explica Gisa.
Com foco em um jornalismo engajado, feminista, antirracista e ecológico, a linha editorial do laboratório passou a contemplar temas de impacto, mas que não recebem a devida atenção na cobertura local. Depois das apurações para o Climômetro, os estudantes desenvolveram reportagem sobre os níveis de poluição do ar em São Luís. Dado o sucesso da parceria, propuseram a pauta sobre a violência doméstica contra mulheres indígenas, situação que vinha incomodando os integrantes do recém-criado projeto. “Estávamos com essa inquietação para fazer a matéria e já tínhamos conversado com uma especialista daqui, indigenista. Estávamos vendo a situação se agravar”, conta a coordenadora.

Professora Sarah Santos e a estudante Sylmara Duranse, durante apurações para as pautas sobre violência de gênero em comunidades indígenas de São Luís (MA). (Foto: Fabrício Serrão)
Assim nasceram as pautas que levaram os estudantes para dentro da Taquaritiua. Conforme as reportagens produzidas pelo Laborejo, entre as violências sofridas por mulheres indígenas no Maranhão em 2024, 53% foram cometidas pelos próprios maridos das vítimas. As informações foram apuradas junto ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ligado ao Ministério da Saúde. No contexto das agressões, 46% têm características sexuais, e 42% incluem violências físicas. O levantamento mostra que 35% das vítimas são meninas de 10 a 14 anos. Segundo uma das reportagens, publicada em 21 de agosto de 2025, uma mulher indígena no estado tem 2,4 vezes mais chance de sofrer algum tipo de violência, em comparação com uma mulher não-indígena. A capital do estado, que abriga o campus da UFMA, tem mais de 1 milhão de habitantes, dos quais 1,6 mil são indígenas, distribuídos em 60 grupos ou etnias.
O Laborejo é um projeto de extensão extracurricular, mas também publica conteúdos elaborados em disciplinas. Bastante alinhados às interseccionalidades estão o Guia de Linguagem Inclusiva, a plataforma Margem – que monitora pesquisas de gênero na UFMA – e a exposição virtual Raízes Vivas: Ancestralidade, Resistência e Contemporaneidade das Culturas Afro-Indígenas no Maranhão, com fotografias, documentários, entrevistas e reportagens.
Apesar de o mercado de trabalho perpetuar tecnologias sociais que marginalizam e inviabilizam a existência de grupos dissidentes – ou talvez por isso mesmo – Gisa espera que a experiência universitária do laboratório seja mais forte que as normas pré-estabelecidas. “Nosso propósito é formar jornalistas que pensem sobre a profissão para transformar. Mesmo que não exista tempo ou linha editorial para nossos recortes, que eles saibam fazer quando puderem.”
“Você merece estar aqui”
Em outro local da Amazônia, vivências e aprendizados são narrados na coluna e websérie Fala, Preta!, da Agência Experimental de Comunicação (AGCOM), criada às margens do rio Amazonas, na Universidade Federal do Amapá (Unifap), em Macapá. Com nome derivado de outro trabalho da AGCOM, o Fala Amazônia, o produto é resultado de entrevistas com fontes de Lylian Rodrigues, professora da instituição com trajetória marcada pela relação com movimentos sociais e que, até 2024, coordenou a agência. Em texto escrito em alusão ao Dia da Consciência Negra, ela explica que desde o princípio tentou, com o projeto, “enaltecer amigas, negras, lindas, corajosas, amáveis, decididas, controversas, combativas, ousadas e sabidas”.
Mulheres como Lívia, Elane, Alexsara, Simone, Teca e Laura foram as primeiras a compartilhar relatos baseados na experiência de gênero com recorte racial, por meio de vídeos na websérie, a partir de 2020. Em formato de conversa, em pouco menos de 20 minutos, as convidadas relatam como é ser uma mulher negra e amazônida. “Alunos que me procuraram [para participar da AGCOM] gostavam de experimentar com o audiovisual e fazer fotografias. Pelas dificuldades de captação em razão da pandemia só conseguimos finalizar em 2021”, relata Rodrigues.
Um dos encontros mais marcantes, segundo a ex-coordenadora, foi com Alexsara Maciel, professora da Unifap, sócia e fundadora do Instituto de Mulheres Negras do Amapá. Por escolha, a entrevistada não costumava receber muitas visitas, mesmo antes da emergência sanitária global, e seu relato emocionante registrado em vídeo quase foi perdido em razão da ausência de técnicas e equipamentos adequados para a gravação – o que demandou trabalho de recuperação.
“Eu digo para mim: ‘Você é filha do universo, irmã das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo que não possa perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino. Eu acredito nisso, minha preta’”, diz Alexsara, quase em tom de oração, na gravação da primeira temporada.

Alzira Nogueira (esquerda), Esmeraldina dos Santos (centro) e Maria Almeida, conhecida como Durica (direita), em episódio da websérie Fala Preta!. (Foto: Reprodução / YouTube)
O Fala, Preta também conta com conteúdos em texto. Rodrigues conta que a ideia de abrir um espaço para essa linguagem apareceu após receber uma carta na qual a autora revelava dor e solidão profundas. “Nosso protagonismo feminino se manifesta na rede que criamos. Não é sobre mim, é sobre eu com ela. Elane buscou acolhimento mostrando a violência que sofreu, e resolveu falar dela e de outras mulheres. Não deu o nome do agressor, mas todos sabiam. A vítima sempre aparece ao denunciar, enquanto o agressor é protegido”, desabafa a professora.
Depois de colaborar com a coluna compartilhando a própria experiência, a aluna e repórter da agência Brunna Silva seguiu com as entrevistas para a websérie. Na segunda temporada, intitulada Filhas de Marielle, relatos de candidatas negras que participariam das eleições naquele ano, em 2022, receberam destaque. A última temporada produzida foi também tema de um trabalho de conclusão de curso da estudante e do colega Vinicius Trindade. “Cada episódio é um retrato íntimo e político dessas vozes que moldam a história do estado a partir das vivências quilombola, comunitária e institucional”, dizem os produtores.
Lylian Rodrigues deixou a coordenação da AGCOM em 2025, mas a coluna que criou segue aberta para receber contribuições em texto. No momento, a agência é coordenada pelo professor Alan Milhomem e dá vazão às produções das disciplinas, publicando reportagens no site e outros conteúdos em redes sociais. Mesmo após se afastar da iniciativa, a ex-coordenadora torce pelo futuro do projeto, que integra mapeamento feito pelo portal Info Amazônia como mídia promissora com foco em pautas socioambientais.
As possibilidades no encontro com a literatura
Na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), o professor Marcus Lima uniu jornalismo e literatura para ecoar narrativas com diversidade sexual e de gênero. A iniciativa surgiu após experimentações em uma agência de notícias universitária e nos estudos do pós-doutorado em Londres com o sociólogo Nick Couldry. Ao criar o Laboratório de Linguagem e Diversidade Sexual (Lalidis), Lima ofereceu espaço para que pessoas LGBTQIAPN+ pudessem compartilhar o que ele chama de “narratividas”.
“Meus colegas professores tinham resistência às minhas ideias, diziam ‘é o jornalista quem sabe o que é notícia’. Então eu respondia que não estava falando o contrário, mas sim para ouvirmos como essas pessoas querem ser representadas”, lembra o professor da Uesb.
(colocar este parágrafo em destaque, se for possível)
Ainda há limitação no Brasil em relação aos números que descrevem a presença de parte da população LGBTQIAPN+. Dados de 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) apontam 2,9 milhões de pessoas adultas no espectro LGB (lésbicas, gays e bissexuais), mas excluem homens e mulheres trans e pessoas transexuais não binárias. Conforme levantamento produzido por pesquisadores da Unesp e da USP em 2022, 12% dos brasileiros (19 milhões de pessoas) se identificam como LGBTQIAPN+. Apesar da invisibilidade no censo oficial, o contingente aparece em dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que revela 80 assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025 (em 2024 foram 122 assassinatos, e 145 em 2023).
O objetivo do projeto, segundo Lima, era proporcionar a oportunidade de resistência, de transformações e até mesmo de uma dimensão terapêutica utilizando a escrita e a produção e a divulgação de conteúdos. “Eu chamo de tecnologias de subjetivação. Muitos dizem: ‘Eu só descobri quem eu era quando comecei a escrever’ ou ‘comecei a escrever para poder saber quem eu era’”.
Vinculada à pós-graduação em Letras e à graduação em Jornalismo, a iniciativa tomou forma enquanto projeto de extensão em 2019, com a proposta de fazer circular a perspectiva da comunidade queer. Não fosse a covid-19, teria funcionado presencialmente como agência de notícias, mas o isolamento social imposto pela emergência global alçou o site ao status de plataforma principal do projeto. Ali passaram a circular entrevistas, matérias e, devido ao vínculo com a formação em literatura, contos, crônicas e poesias segundo óticas plurais, com identidades de gênero e de sexualidade que não correspondem às normas heterossexuais e cisgênero, a partir da experiência de alunos e de pessoas de fora do meio acadêmico.
Antes da pandemia, o Lalidis provocou a comunidade acadêmica com colóquios, oficinas, minicursos e aulas abertas — como a Sextou na balbúrdia, que ocorreu ao longo de um ano, sempre às sextas-feiras, e foi alvo das primeiras ações de ódio e preconceito. “Vivíamos recebendo ameaças, nos chamavam de vagabundo, dizendo que era ‘viadagem’ e investimento de dinheiro público em pornografia. Esses argumentos são da extrema direita”, conta Lima.

Membros do Lalidis no evento Fazendo e Desfazendo Gênero. (Foto: acervo do laboratório)
O último ataque, relata o coordenador, ocorreu em 17 de setembro deste ano, quando o perfil do laboratório no Instagram foi hackeado e usado para a divulgação de jogos de azar online. Outro ataque pode ter ocorrido há poucos meses, quando a plataforma do projeto saiu do ar de repente, e não voltou mais. Ainda sem poder afirmar com exatidão a causa do problema – e como resolvê-lo –, o professor lembra que o temor diante de possíveis represálias motivou certa independência desde que as primeiras ideias foram colocadas em prática. “O site está hospedado num lugar particular, mas poderia estar no servidor da universidade. Nunca me deram essa oportunidade, e também não sei se gostaria de tê-la. Acho que poderia haver censura, então prefiro seguir sem”, argumenta.
Diante da atual inoperância do site, poucos conteúdos do laboratório ficaram salvos no YouTube. Atualmente, Lima está afastado da iniciativa, mas planeja retornar em 2027, quando pretende retomar o objetivo inicial de dar vida a uma agência universitária com conteúdo especializado, possivelmente mirando um público fora das fronteiras de Vitória da Conquista, onde está localizado o campus da Uesb. Segundo o coordenador, apesar do município abrigar quase 400 mil residentes, ainda não vive a “cena gay”. “Se focarmos em notícias com nossa temática para falar só daqui, vamos ter matéria de três em três meses, e provavelmente serão sobre violência. A internet é legal porque é nacional e às vezes internacional – recebíamos e-mail de gente do Paquistão, da Itália.”
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João Neto é repórter na Matinal. Durante a graduação, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-FW), foi membro do milpa – laboratório jornalismo.
