
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Agora, com os ânimos amainados, o que nos resta da sessão plenária do STF de 15 de setembro? Restou a figura acovardada e mesmo acuada do ministro André Mendonça, incapaz de impor em debate as acusações contra seu colega Alexandre de Moraes, o inaceitável pedido de desculpas da ministra Cármen Lúcia, que permaneceu inativa e calada durante os debates e votou para julgar Mores e Mendonça em separado, a certeza de haver um objetivo eleitoral na iniciativa do relator André Mendonça de punir Moraes às vésperas das eleições, o risco dos procedimentos ilegais de Mendonça levarem à uma anulação geral dos processos contra Daniel Vorcaro e, pela agressividade de Gilmar contra Mendonça, se pode esperar e quase apostar num impeachment de Mendonça, um ministro que se revelou sem qualificações jurídicas para o cargo.
Depois de oito horas de debates, pouca gente entendeu – como declarou o veterano jornalista do UOL, Ricardo Kotscho – o processamento jurídico do encontro, transmitido ao vivo pela televisão e redes sociais, para discutir acusações do ministro André Mendonça contra seu colega Alexandre de Moraes por contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Isso não impediu que muitos jornalistas e editorialistas criticassem duramente o funcionamento do STF e sua própria estrutura. Para isso, talvez tenham sido inspirados pela ministra Cármen Lúcia, que chegou a pedir desculpas aos brasileiros pelo motivo da convocação da plenária do STF e pelo “mal-estar cívico provocado nestes dias pelo STF”.
Entende-se, pois o clima de acusações mútuas entre dois ministros é inédito. O conjunto de críticas e decepções relacionadas ao STF acabou servindo para alimentar a extrema direita, empenhada na obtenção de uma maioria no Senado para pedir o impeachment de alguns ministros e aplicar reformas que impeçam o funcionamento independente do STF.
A grande mídia, ao adotar essas críticas, parece ter esquecido da importância do STF durante a pandemia do Covid, diante de um governo negacionista contrário ao confinamento e à vacinação em massa da população. E, ainda recente, a atuação independente do STF contra a tentativa golpista do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Por essas duas razões, o movimento bolsonarista aliado aos evangélicos de extrema direita combate o STF. Suas redes sociais comemoraram a crise desencadeada dentro do Supremo pelo ministro e pastor André Mendonça, que se considera escolhido por Deus com para executar uma missão divina.
Escolhido por sorteio como relator dos processos relacionados com o Banco Master, as relações do banqueiro Daniel Vorcaro, o desvio de dinheiro de aposentados do INSS e a produção do filme Dark Horse sobre a vida de Jair Bolsonaro, o ministro André Mendonça, segundo denúncia proclamada no STF pelo ministro Gilmar Mendes, estaria fazendo uso seletivo das provas colhidas pela Polícia Federal.
Assim, Mendonça teria “sentado em cima das provas existentes”, segundo o vocabulário usado pela imprensa, para encobrir todo material relacionado com Flávio Bolsonaro a fim de não prejudicá-lo nas eleições. Ao mesmo tempo, usou do que seriam provas mostrando relações entre Vorcaro e Moraes para pedir a instauração de investigações contra o ministro Moraes.
Entretanto, um dia antes da reunião do STF, os ministros tiveram acesso aos celulares de Vorcaro, fragilizando a situação de Mendonça, que, de acusador, poderia ser alvo de acusações.
Embora a sessão plenária do STF fosse para julgar Moraes, foi Mendonça quem parecia ter assumido seu lugar. Sentado entre Moraes e Dino, talvez Mendonça tenha percebido, mas muito tarde, ter provocado uma briga para a qual não tem calibre.
Ou será que ele esperava mesmo um milagre, como aqueles contados nos contos bíblicos, com as orações dos seus milhões de seguidores evangélicos?
Senão, de onde lhe veio a ideia de enfrentar o saber e a experiência jurídica desses monumentos que são Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, que o desmoralizou, chamando-o de pixuleco, boneco de eleição?
Gilmar também não perdoou sua falta de colegialidade, talvez por se considerar superior aos seus colegas juristas, por estar ali, no STF, por escolha de Deus! Se acredita mesmo no que tem falado aos seus irmãos evangélicos, seria bom consultar um psiquiatra. Isso é uma síndrome ou delírio.
Praticamente acuado e sem força para reagir, fez lembrar a queda de um outro terrivelmente evangélico e também pastor, abandonado por Deus sob acusação de corrupção. Foi o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, em plena ascensão, ou pelo menos assim pensava, hoje quietinho como pastor em Santos.
A releitura do Velho Testamento com a teologia do domínio subiu na cabeça de muitos pastores, que começaram a se considerar como heróis bíblicos, capazes de fazer milagres com o apoio das orações de seus seguidores. Milagres em favor de Jair Bolsonaro e de seu filho Flávio.
E ter um cargo no STF, o mais alto cargo público, como disse Mendonça num vídeo para seus seguidores evangélicos, é o instrumento que lhe teria sido dado por Deus para agir dentro da política brasileira.
Nota – É preciso destacar a maneira ágil e profissional como as jornalistas Daniela Lima, do Uol, e Gabriela Varella, do canal ICL asseguraram, cada uma com seu estilo, uma cobertura inteligente da sessão plenária do STF do 15 de setembro.
Algumas referências:
STF
https://www.migalhas.com.br/depeso/341345/a-atuacao-do-stf-na-pandemia-de-covid-19
https://www.youtube.com/watch?v=G7yiDwneaLg
Bob Fernandes
https://www.facebook.com/reel/1092890809995276
UOL – Daniela Lima
https://www.youtube.com/watch?v=IXsMm4EGve8
Gabriela Varella
https://www.instagram.com/reels/DdKk30Bkujt/
Reinaldo Azevedo
https://www.youtube.com/watch?v=PuaBJZHXKb4
sobre Cármen Lúcia
https://www.youtube.com/watch?v=Nh81W-y24EQ
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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
