Sábado, 24 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

Recorde, política e escândalo: o que a cobertura da Bienal do Livro deixou de perguntar

(Foto: Daniela Zigante/Arquivo Pessoal)

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Distrito Anhembi de 4 a 13 de setembro de 2026, rendeu três tipos de notícia: recorde de público e vendas, presença e ausência de figuras públicas e polêmica viral. Analisei cinco matérias de veículos diferentes, publicadas antes, durante e depois da feira (lista ao final). A amostra é pequena, mas aponta padrões da cobertura cultural: dependência de fontes oficiais, fragilidade na apuração quando o assunto viraliza e pouca atenção ao que a feira teve de propriamente literário.

Antes: a coletiva vira texto

O PublishNews foi o mais informativo. Informou a base de comparação (269 expositores contra 227 em 2024, orçamento semelhante ao de 2024, área 28% maior), listou os patrocinadores e registrou a realização via Lei Rouanet. Guardou também as falas mais reveladoras de todo o corpus: a presidente da CBL comentou que 69,8% do público de 2024 foi feminino, e o curador da Arena Cultural admitiu ter equilibrado apelo comercial e vozes novas para encher a sala de 600 lugares.

Faltou questionar. O “ganho de eficiência de 65%” entrou “segundo a organização”, sem definição, e a Lei Rouanet ocupou uma linha, sem valores. É o limite típico da imprensa setorial: a proximidade dá acesso e precisão técnica, mas custa distância crítica.

A Exame publicou um guia de serviço que reproduz, com os mesmos nomes na mesma ordem, as listas de autores e espaços divulgadas na coletiva, e trata como fato o slogan “maior evento cultural da América Latina”. O link em “Espanha”, país homenageado, leva a um texto sobre as Copas do Mundo da seleção espanhola, o que sugere lógica de busca, não de serviço ao leitor. O guia explica o cashback, mas não nota que, no ingresso noturno, 100% do valor vira crédito para comprar nos estandes, ou seja, a entrada funciona como instrumento de venda. Para um veículo de negócios, seria a pauta óbvia.

Durante: a feira como cenário político

O Correio Braziliense noticiou o cancelamento de Cármen Lúcia sob o título “Crise no STF”. A justificativa oficial, divulgada pela Bienal, foi a necessidade de estar em Brasília, e o texto dedica quase todo o espaço à crise no Supremo. O enquadramento é defensável, já que havia um julgamento decisivo à vista, mas sugere uma relação de causa e efeito sem fonte que a confirme e sem avisar que não a confirma. A Revista Oeste foi além e atribuiu o cancelamento a um racha interno no tribunal, embora a versão oficial fosse outra.

O texto também omite que, segundo a Folhapress, a ministra faria o lançamento de um livro infantojuvenil e enviaria um vídeo ao público. Merece elogio o aviso sobre o uso de ferramenta de IA na produção do texto.

Durante: o caso Ghostface e a apuração frágil

A matéria do Metrópoles sobre o homem fantasiado de Ghostface no estande da editora Fruto Proibido foi a mais frágil da amostra. Ela tem três problemas.

  1. Erros factuais. Diz, no passado, que a Bienal ocorreu de sexta (4) a domingo (6), numa “zona sul” da capital. O texto é de terça (8), quinto dia de uma feira que iria até o dia 13, e o Anhembi fica na zona norte. O Band, por exemplo, informou corretamente que o evento seguia até 13 de setembro. A mesma imprecisão sobre as datas apareceu em Folha Vitória e SBT News, o que sugere replicação sem checagem.
  2. Contradição interna. O resumo automático no topo afirma que o homem foi “contratado” pela editora e que o veículo não obteve retorno de editora e Bienal. O corpo do texto traz a nota da editora, que nega tê-lo contratado, e a da Bienal. Pode ser resquício de versão anterior, mas o efeito é uma afirmação falsa e potencialmente danosa logo na primeira tela.
  3. Acusações graves com base frágil. O núcleo são relatos anônimos de redes sociais e de uma entrevistada que não se identificou, sobre condutas anteriores e externas à Bienal, incluindo supostos contatos com adolescentes. Não consta tentativa de ouvir o homem. As atribuições e os “supostos” estão lá, mas acusações dessa natureza exigem confirmação ou clareza sobre o que não foi verificado.

O explicativo sobre dark romance é um acerto. Nenhuma das matérias perguntou o essencial sobre a feira: que protocolos regem ações de estandes com público majoritariamente jovem e quem responde por elas, o expositor ou a organização.

Depois: o balanço em forma de release

A matéria do Estadão atribui o recorde de 760 mil visitantes à organização, o que é correto. Mas trata como “faturamento estimado” um indicador mais restrito: o aumento de 57% se refere à média diária de faturamento dos expositores consultados em pesquisa da CBL, sem valores absolutos nem detalhamento metodológico. O restante é um mosaico de notas de editoras, com bases de comparação distintas (2024, 2025, Bienal do Rio) e indicadores que misturam faturamento, volume e “vendas”. A declaração de Luiz Schwarcz, que chamou a feira de “Bienal da esperança”, entra sem contraponto, embora a Companhia das Letras esteja entre as beneficiadas.

Os rankings pedem leitura crítica. No Top 15 da Companhia, oito posições são de Raphael Montes e dois títulos aparecem duplicados por terem edição especial: a lista reflete estratégia de edição e marketing tanto quanto o que se leu. O caso Ghostface entra como “outro destaque”, em um parágrafo. E os números do encerramento trazem 800 autores, contra os 350 anunciados na coletiva, sem explicar a diferença. A organização também informou que mais da metade dos visitantes teve acesso gratuito, dado que pedia análise, mas não foi explorado.

O que ficou de fora

  • Fonte única. Do anúncio ao balanço, quase toda a informação veio de organizadores e editoras, sem dados independentes.
  • Conteúdo cultural ausente. Nenhuma das cinco matérias relata o que foi dito em uma mesa ou debate. Autores como Conceição Evaristo e o país homenageado aparecem apenas em listas.
  • Leitores sem voz. O público, majoritariamente jovem e feminino, é descrito por estatística e fila. Ninguém é ouvido.
  • Registros que não conversam. O recorde comercial, a notícia política e o escândalo viral correm em paralelo, sem a pergunta que os une: o que a Bienal se tornou, entre festival de emoções, vitrine de entretenimento e mercado.

Houve acertos: transparência sobre o uso de IA em duas matérias, bases de comparação no PublishNews e um explicativo útil no Metrópoles. Como o recorte é pequeno, outros veículos podem ter feito abordagens críticas que não localizei. Análises como a aqui proposta dependem, ainda, de dados independentes sobre público e vendas, que não estavam disponíveis.

Matérias analisadas (acesso em 21 set. 2026)

PublishNews. Bienal do Livro de São Paulo terá ingresso noturno, cashback e mais expositores. 4 ago. 2026.

Exame. Bienal do Livro 2026: preço dos ingressos, horários e atrações. 11 ago. 2026 (atualizada em 3 set.).

Metrópoles. Ghostface: ação com homens mascarados na Bienal gera polêmica nas redes. 8 set. 2026.

Correio Braziliense. Crise no STF: Cármen Lúcia cancela participação na Bienal do Livro. 11 set. 2026.

Estadão (via Jornal Correio). Bienal do Livro de São Paulo bate recorde com 760 mil visitantes; veja os livros mais vendidos. 14 set. 2026.

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João Pedro Spirito é estudante de Jornalismo.