Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

Julgamento do STF mostra o fôlego do jornalismo de cobertura ao vivo

(Foto: Alejandro Zambrana/STF – Public Domain Mark – Esta obra não está mais protegida por direitos autorais e pode ser usada livremente. Saiba mais. Atribuição para esta foto: “Sessão plenária extraordinária do STF – 15/09/2026” por Supremo Tribunal Federal STF, Public Domain Mark)

O julgamento da semana passada no STF (Supremo Tribunal Federal), que ensaiou analisar a possibilidade de ministros da própria corte serem julgados por seus pares, demonstrou que a potência do jornalismo profissional está longe de perder seu fôlego.

O assunto, de interesse público em sua forma mais ortodoxa possível, mobilizou audiências no país, batendo recordes. A CNN Brasil anunciou que sua transmissão da audiência no Supremo, via YouTube, foi “a maior live do mundo” naquele dia, com um pico de 467 mil espectadores simultâneos, de acordo com dados da plataforma Google Analytics.

Este foi apenas um dos canais digitais a transmitir o julgamento. O próprio perfil do STF no YouTube beirou os 200 mil espectadores online em seu momento de maior pico. Outros grandes portais e emissoras, como UOL, GloboNews e Folha dedicaram-se à acompanhar ao vivo a discussão dos ministros sobre a possibilidade de julgar as relações de alguns deles com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que, segundo mensagens interceptadas em seu telefone, e fotos e vídeos que seguem vindo à tona, pagava jantares, dava carona em jatos e possivelmente fazia negócios com magistrados do mais alto escalão no Brasil.

Certamente o mundo digital não se resume ao jornalismo e suas “hard news”. Na Copa do Mundo, a CazéTV passou de 24 milhões de aparelhos conectados nas lives dos jogos. Porém, a expressiva audiência do caso no Supremo mostra o quanto os canais profissionais da mídia ainda são uma referência para o público interessado em acompanhar os fatos mais importantes da República.

A missão do jornalismo é antes de tudo mostrar o mundo, e não necessariamente amar e mudar as coisas, como cantava Belchior. Na semana passada, a mídia brasileira prestou o serviço com louvor ao dedicar seus links de transmissão ao vivo ao julgamento, que em nada deu. Com o pedido de vistas do ministro Flávio Dino, tudo fica suspenso por até 90 dias, deixando a matéria provavelmente para depois das eleições.

A procura dos leitores pela transmissão mostra o quanto o papel de mediador é importante, e neste caso, em sua forma mais essencial. O brasileiro pôde, através da imprensa, ver para crer. Nada precisaria ser dito por comentaristas, a notícia estava ali, acontecendo, em frente a todos que assistiam. Jornalismo puro.

No domingo, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Alexandra Moraes, que participa nesta semana do Seminário de 17 anos do objETHOS, em Florianópolis, contou as vezes em que o Supremo esteve nas manchetes do jornal em setembro: de 20 capas, o tribunal foi tema principal em 11, sendo que em outras, o tema tocava a corte. Um dado que mostra o trabalho da imprensa em acompanhar o escândalo do Banco Master, talvez até ofuscando outros assuntos importantes, como ponderou a colunista.

Outro convidado do objETHOS para a próxima sexta-feira (25) na UFSC, o professor Eugênio Bucci criticou a espetacularização do julgamento, a começar pela “performance” dos próprios magistrados, hoje celebridades de um reality show judiciário com mocinhos e vilões.

É importante que o trabalho da imprensa se concentre no essencial, pois é esta qualidade que muitas vezes faz assinantes pagarem assinaturas, é o que conquista um clique disputado no feed do Instagram ou do YouTube. É também o que mantém leitores em tempos de polarização aguda e cansaço de notícias. Se as plataformas das transmissões mudaram, coberturas como a do julgamento no STF mostram que a missão do jornalismo segue a mesma, de sua forma mais primária e conceitual, forte e mais viva do que nunca.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Marco Britto é Jornalista, doutorando no PPGJor/UFSC e pesquisador no objETHOS.