Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

Quem guarda a memória de Perus: duas mortes e um romance

Amelinha Teles, da Comissão de familiares de mortos e desaparecidos, durante coletiva de imprensa na UNIFESP que apresenta a identificação de duas ossadas de desaparecidos políticos (Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva). (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Duas mortes

Em 2026, a vala clandestina de Perus perdeu dois de seus guardiões. Em maio, morreu Antônio Eustáquio, ex-administrador do Cemitério Dom Bosco. Toninho, como era conhecido, atuou em parceria com o repórter Caco Barcellos, que investigava denúncias relacionadas ao Instituto Médico Legal, de modo que a vala fosse descoberta em 4 de setembro de 1990. Nela, foram encontradas 1.049 ossadas de pessoas enterradas como indigentes, entre elas desaparecidos políticos assassinados pela ditadura militar, cuja identificação passou a ser objeto de investigação.

E, em 15 de setembro último, onze dias depois de completados 36 anos da descoberta da vala, morreu aos 81 anos Maria Amélia de Almeida de Teles, a Amelinha, uma das principais vozes na luta pela identificação dos desaparecidos. Ela foi presa e torturada em 1972 no DOI-Codi paulista, com os filhos pequenos levados a presenciar a violência. Posteriormente, integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e foi uma das principais lideranças na reivindicação pela memória, pelos direitos humanos e pelos direitos das mulheres.

Até o momento, apenas seis das 1.049 ossadas foram identificadas. Então, mais de três décadas após a descoberta pública da vala, cabe perguntar: quem mantém viva essa história quando as testemunhas se vão?

Parte da resposta está no trabalho paciente das instituições, e Amelinha teve atuação decisiva nele. Em 2014, sua atuação foi fundamental para a criação do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, antiga reivindicação dos familiares, que hoje conta com a atuação de seu filho, Edson Teles. É lá que estão as ossadas, ainda em processo de identificação. A memória passa de mão em mão, de geração em geração.

Um romance

Outro encaminhamento para a resposta vem da literatura. Em Caderno de ossos (Companhia das Letras, 2025), romance de estreia de Julia Codo, uma mulher volta de Londres a São Paulo, instala-se na casa do avô, tomado por uma doença degenerativa, e encontra o caderno da tia, Eva, desaparecida na ditadura, cuja ossada talvez esteja na vala de Perus.

Codo, nascida em 1983, relatou em entrevistas que, ao começar a escrever a história, conversou com Amelinha Teles, amiga de sua mãe, e disse querer falar de uma geração que não viveu a ditadura, mas sofreu seus efeitos. Amelinha esteve, assim, na origem do livro.

O romance se constrói por buracos. Há a vala, mas há também os vazios da casa (o buraco na garagem da casa, os lapsos da família), o buraco negro do espaço sideral, o buraco humanitário da pandemia de Covid-19, o buraco do olho de Eva, os buracos da própria narradora-personagem, e esses buracos deslocam a discussão para o tempo.

O trabalho dos arqueólogos forenses, que limpam e ordenam os ossos para dar a eles lugar em uma história e, nessa medida, um lugar na História, adquire uma dimensão temporal: escavar o passado é também pensar em quem, no futuro, escavará o nosso presente.

Essa temporalidade diz respeito ao envelhecimento, à morte, à demência. Memória individual e coletiva se espelham: o avô esquece por doença, um país pode esquecer por escolha ou omissão, e é preciso cuidado para não igualar as duas circunstâncias. A analogia permite ver apenas o efeito comum, a perda do fio que dá sentido ao que fomos.

O desaparecimento forçado é um luto interrompido – ou que sequer pôde se instalar –, sem corpo e sem ritual. Elaborar o luto exige nome, lugar, testemunho. Em diversos momentos de sua trajetória como ativista, Amelinha Teles costumava dizer que não se podia virar a página sem antes lê-la e compreendê-la.

Jornalismo, literatura, ciência forense e família são formas de manter a página aberta, cada uma a seu modo: a reportagem de Caco Barcellos, com a imprescindível participação de Toninho Eustáquio, desenterrou a vala; o testemunho de Amelinha Teles e tantos outros são verdadeiros antídotos ao desmentido; o laboratório tenta devolver os nomes aos ossos; e o romance de Julia Codo mantém viva uma história que tentam apagar.

Uma forma de fazer o luto das mortes de Toninho Eustáquio e Amelinha Teles, honrando inclusive o legado que deixaram, é zelar para que a memória de Perus continue sendo um trabalho de todos.

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Renato Tardivo é psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, do ensaio Cenas em Jogo – literatura, cinema, psicanálise (Ateliê/Fapesp) e do romance No instante do céu (Reformatório). Foi Professor Colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.