Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

Isso o Fantástico não mostra: a ameaça socioambiental da IA omitida em reportagem

(Foto: imgix/Unsplash)

A série de reportagens Entre Dois Mundos, do Fantástico, levou ao ar numa das edições mais recentes do dominical da Globo a corrida entre Estados Unidos e China pelo domínio da Inteligência Artificial. Durante os 17 minutos de duração, o episódio trouxe à tona as vertentes econômicas e geopolíticas que permeiam o campo do IA, e que colocam estadunidenses e chineses no centro de uma disputa acirrada. A reportagem tenta mostrar que o que está em jogo é a hegemonia sobre o controle de uma tecnologia que já começa a ditar os rumos da humanidade, para o bem e para o mal.

Com informações (e sobretudo imagens) que encantam até os menos fascinados por invenções tecnológicas e que, ao mesmo tempo, preocupam a todos de alguma forma pelas proporções que o tema adquiriu na atualidade, a série do Fantástico se empenhou em mostrar uma espécie de “guerra fria” pelo domínio da IA entre as potências oriental e ocidental. A matéria expôs as vantagens de cada país nessa corrida, as polêmicas envolvendo o apelo feito pela Anthropic para desacelerar o avanço da IA devido aos seus riscos – bem como o aceno negativo de Donald Trump a esse pedido – e as armas de que dispõe cada um desses gigantes globais nessa guerra tecnológica não declarada.

Que o desenrolar dessa contenda de dimensão global é extremamente relevante, ninguém duvida, e também não é novidade. Afinal, são inúmeros os veículos de comunicação que vêm explorando o assunto nos últimos anos à medida que a IA ultrapassa as fronteiras do mundo digital, passa a interferir nas relações sociais e adentra as instituições políticas e econômicas, influenciando suas decisões. Mas também não é novidade que reside na IA aquilo que pode agravar as consequências geradas pela crise climática: o alto consumo de energia e água.

Preocupada tão somente com o andamento de um conflito tecnológico entre as maiores potências econômicas mundiais, a reportagem, todavia, esqueceu-se de um dos aspectos mais urgentes a compor a disputa. Para que a IA funcione, cresça e se desenvolva, o acesso a recursos hídricos é vital. Tão vital para os computadores que a sustentam quanto para a humanidade. E é justamente o acesso à água o outro lado dramático não contado dessa “guerra” entre dois mundos.

Devoradores de energia e água: os paradoxos socioambientais

Nesse ponto é que entram os data centers, estruturas centrais para sustentar o avanço acelerado da IA no mundo. Funcionando como uma espécie de condomínios feitos para abrigar supercomputadores, essas instalações são famosas por usarem grande quantidade de energia para mover toda a engrenagem necessária ao uso cada vez maior de ferramentas digitais como ChatGPT (americana) e DeepSeek (chinesa), por exemplo, além de tantas outras plataformas já existentes ou que surgem na velocidade das inovações no setor. E como energia gera calor, é preciso refrigerar esses superprocessadores para mantê-los funcionando sem descanso. Mas, para isso, são necessárias grandes quantidades de água, recurso natural finito, cada vez mais escasso, inclusive para o consumo humano, que agora tem um concorrente de peso.

Essa realidade está afetando diversas comunidades dos Estados Unidos e do resto do mundo, principalmente no Sul Global. São territórios e populações de regiões muitas vezes periféricas, com acesso já escasso à água, mas que se tornaram extremamente vulneráveis com o aumento da cobiça das big techs por recursos hídricos que antes vinham sendo utilizados apenas por pessoas e atividades econômicas locais.

Nos EUA, país com o maior número de data centers (mais de quatro mil deles), a Virgínia é uma boa ilustração de uma realidade socioambiental preocupante. Por lá, moradores protestam contra os impactos desses “condomínios” de supercomputadores, que já somam mais de 600 só naquele estado. No vizinho México, em Querétaro, a expansão dessas empresas teria coincidido com uma crise hídrica que passou a gerar restrição do acesso à água para milhões de pessoas, que agora questionam o funcionamento desse tipo de empresa.

Segundo o Olhar Digital, pesquisa recente revelou uma grande preocupação entre os norte-americanos: 70% deles são contra a instalação de data centers em suas cidades em virtude dos riscos socioambientais, dos impactos na infraestrutura urbana e do aumento nos custos da energia. O site The Intercept mostra que a estimativa para o consumo de energia nesse setor deve alcançar, ainda neste ano, 800.000 GWh. Isso equivale, de acordo com a publicação, a dez vezes o que a usina hidrelétrica de Itaipu produziu em todo o ano de 2023. Já a Agência Internacional de Energia informa que o consumo desse bem irá mais que dobrar até 2030, em relação a 2024.

O lado do Brasil nessa “guerra”

Eis aqui o outro lado de uma disputa com cara de geopolítica – mas que na verdade é essencialmente econômica e liderada mais pelo mercado do que pelos Estados nacionais – que o Fantástico preferiu não mostrar. Essa outra face da IA tem tudo a ver com o Brasil, que, por ser fonte abundante de energia renovável, tornou-se um dos alvos preferidos dos conglomerados internacionais de tecnologia. Estes não medem esforços para encontrar um oásis que possam chamar de seu e que movimenta supermáquinas responsáveis por armazenar e processar um universo infindável de dados.

Conforme o InvestNews BR, são 206 data centers no Brasil, onde está concentrada metade dessas empresas na América do Sul. Não à toa, o país entra nesse conflito não como um combatente na busca por liderança mundial no desenvolvimento de dispositivos essenciais para o setor, caso este de China e EUA, pelo contrário. O interesse do Brasil tem a ver com atrair essas empresas para que se instalem em terras brasileiras. Governos daqui, federal e estaduais, têm oferecido incentivos fiscais e outras vantagens para que data centers, americanos e chineses, operem até em regiões conhecidas pela escassez de água potável no cotidiano de populações inteiras, como no Nordeste.

Os vários mundos no meio da disputa

O Ceará é o caso mais emblemático da expansão acelerada de grandes data centers no Brasil, puxado por Calcaia, município da região metropolitana de Fortaleza com a segunda maior população do estado, onde está prevista a construção de dois grandes data centers, além daquele pertencente ao TikTok, cujo investimento chega a R$ 200 bilhões. O consumo de energia desses dois novos empreendimentos será o equivalente ao de 4,5 milhões de residências, segundo informações do canal UOL. Números assustadores, ainda mais quando são confrontados com a realidade de uma região onde o acesso à água potável é precário, o clima é semiárido e os rios, em sua maioria, são temporários.

Mas o avanço desses negócios devoradores de água e energia já encontra resistência entre populações do entorno onde os data centers serão erguidos, inclusive de comunidades indígenas locais, que veem a integridade de seus territórios ameaçada. A falta de transparência e controle social que envolve esse mercado aparentemente “imparável” (sobretudo os de IA), aliada a todos os riscos socioambientais citados neste artigo, é o que move a preocupação daqueles que vivem em comunidades que recebem, ou estão por receber, esses empreendimentos. Essa é, talvez, a parte mais delicada e controversa de uma “guerra” entre dois mundos que o Fantástico optou por não mostrar ao seu público. Na verdade, um conflito entre vários mundos repletos de carências e que precisam ser ouvidos.

Nesse sentido, vale destacar o que disse António Guterres, secretário-geral da ONU, em discurso na Cerimônia de Abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, em julho deste ano: “A tecnologia que moldará o futuro da humanidade deve ser moldada por toda a humanidade. Ela não pode ser governada por um punhado de países ou por um punhado de empresas. Cada nação precisa de um lugar à mesa”.

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Vilson Vieira Junior é Jornalista e Mestre em Ciências Sociais, ambos pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).