Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

A imprensa caiu na casca de banana com episódio de Nossa Senhora Aparecida

A imprensa brasileira tem um encontro marcado com o espelho em algum momento diante de “passivos” jornalísticos altaneiros que acumula, especialmente em tempos de eleição. O mais novo tropeço diz respeito ao episódio ao redor da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, que seria rebaixada do posto de Padroeira do Brasil, caso o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fosse eleito. O assunto foi carimbado de “fake news” com enorme veemência pelos grandes veículos, sem o contexto esperado pelo jornalismo. O tema era claramente uma casca de banana para o candidato bolsonarista, mas, indubitavelmente, a imprensa caiu nela também.

O assunto ganhou a cena a partir do comentário de uma experiente jornalista, Maria Cristina Fernandes, uma daquelas unanimidades incontestes da profissão. Há 26 anos no jornal Valor, Maria Cristina faz participações diárias na GloboNews e na rádio CBN, também do grupo Globo. No dia 24, ela fez uma análise sobre a reta final da campanha à reeleição do presidente, e colocou o tema de Nossa Senhora Aparecida no horizonte. “Tem um movimento na Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos, que está mobilizando um projeto de lei para tirar a Nossa Senhora de Aparecida da condição de padroeira, que pode sim surtir efeito entre os católicos a favor do Lula”, disse ela.

A partir dali, começou a guerra virtual de militantes nas redes sociais, como costuma acontecer a cada indício de escorregada de um ou outro candidato, com o enviesamento que a rede social deixa correr solto. Seguidores de Lula começaram a compartilhar que Flávio apoiaria um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira, concedido pelo Papa Pio XI, em 1930.

Uma pós-verdade, certamente, neologismo que explica uma informação maliciosa, criada a partir de fragmentos de informações verdadeiras.

Quais eram as informações verdadeiras? A apuração de Maria Cristina Fernandes sobre a preocupação da Igreja Católica. Também a existência de um vídeo de agosto, em que Flávio Bolsonaro diz: “Quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O resto foi uma forçação de barra nas redes para elevar o temor dos católicos e a temperatura da campanha.

O assunto pegou fogo com ajuda de insufladores profissionais que atuam para reeleger o presidente Lula. São influenciadores sem compromisso com a informação fidedigna, ao contrário. Estão ali para tumultuar o debate. Flávio também tem o seu séquito, e essa zona cinzenta de informações gerada nas redes sociais virou o pão nosso de cada dia no jornalismo, que precisa separar o joio do trigo.

Diante da repercussão, Flávio correu para dizer que era mentira a intenção de mudar o status de Nossa Senhora, ainda que tenha usado o verbo “decretar” no vídeo de agosto. Decretar significa publicar um decreto, ou promulgar uma lei, segundo o dicionário Michaelis. Ao adotar o verbo “decretar” para dizer que o Brasil seria do Senhor Jesus Cristo — uma promessa tão sensível quanto inusual em campanhas políticas —, abriu margem para interpretações dúbias.

Não foi também a primeira vez que um Bolsonaro fez menção ao tema. Em 2022, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e atual candidata ao Senado no Distrito Federal, disse que iriam levar a presença do Senhor Jesus para o governo caso o marido, Jair Bolsonaro, fosse reeleito. “E vamos declarar que essa nação pertence ao Senhor”, disse ela de dedo em riste, como informa a BBC Brasil.

Era preciso checar os bastidores da informação, e entender por que a igreja expressava esse temor. Medo este que não nasceu de paranoia ou maledicência. Imagens da padroeira são atacadas constantemente, inclusive por pastores. Uma busca simples no Google mostra seguidos episódios de vandalismo, diante do aumento da intolerância religiosa no país.

Mas, aí começou a sequência de erros, que colocou a jornalista Maria Cristina Fernandes numa posição vulnerável, e a imprensa brasileira na berlinda. Do dia 24 para 25, a apresentadora da GloboNews da edição da meia-noite, Marcelly Setúbal, falou de uma “correção” que precisava ser feita, mencionando o comentário de Maria Cristina. “Essa proposta [de mudar a padroeira do Brasil] foi apresentada em dezembro de 2007, mas arquivada pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados em agosto de 2008. Nós pedimos desculpas pelo erro”, leu a apresentadora, em nome da emissora.

A qual erro a GloboNews se referia? Em que momento Maria Cristina falou em projeto de 2007? Quem pode dar 100% de garantias de que um novo projeto não poderia ser apresentado?

A brecha aberta pela emissora parece ter ‘autorizado’ outros veículos a falarem em ‘fake news sobre Nossa Senhora’ a cada vez que se referem ao episódio. Não no corpo da matéria, mas nas manchetes: “Fake news sobre Nossa Senhora” foi manchete em quase todos os grandes jornais diariamente. Até veículos estrangeiros assumiram que se tratava de fake news. Flávio é tratado como vítima de notícias falsas por não haver uma afirmação direta do candidato a respeito.

De fato, ele negou. E de fato, é muito grande a chance de que ele nunca tivesse a intenção de apoiar uma ideia do gênero, nem no presente e nem no futuro. Mas muitos elementos no episódio sugeriam cautela diante de um político apoiado por pastores evangélicos radicais.

Nesta quarta, 30, a repórter especial Alexa Salomão mostrou na Folha de S. Paulo a proximidade de Flávio e Michelle Bolsonaro com o bispo J.B. Carvalho, que defende a retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora. Foi na igreja dele que Flávio se batizou evangélico em 2024, assim como foi lá que ele fez sua primeira aparição pública como pré-candidato, segundo a reportagem de Alexa.

Era preciso levar em conta outro dado relevante, antes de a imprensa ter entrado em comportamento de manada. O candidato do PL já mentiu publicamente em outras ocasiões, como no caso do Banco Master. Ele negava qualquer contato com o dono do banco, o que as investigações sobre o assunto desmentiram.

Uma reportagem do The Intercept Brasil de maio deste ano foi a primeira a expor diálogos dele com o banqueiro Daniel Vorcaro pedindo dinheiro para o financiamento do filme Dark Horse. Antes da publicação, o repórter Thalys Alcântara perguntou ao candidato sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, e Flávio não só disse que era mentira, como gargalhou diante de dezenas de jornalistas, chamando o repórter do Intercept de “ativista”.

Outro ‘pecado’ menor esteve impresso em seu currículo até um mês atrás. O perfil da campanha mantinha que ele havia feito pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A universidade negou, e só então a campanha admitiu ser um “erro”.

Agora, bastou um desmentido imediato e tudo que ele omitiu anteriormente desapareceu na análise do personagem. Isso fica explícito ao chamar com tanta ênfase o tema de “fake news” em manchetes. Não é “polêmica”, ou “controvérsia”, duas palavras fartamente adotadas pelo jornalismo quando não há 100% de certeza de que se trata de uma informação verídica.

O jornalismo focou primeiramente em ver quem havia espalhado a informação que atrelava Flávio à deslegitimação de Nossa Senhora. Especialmente depois que posts receberam endosso do coordenador de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação do governo Lula, George Marques. Ele replicou ao menos 10 posts que acusavam Flávio de preparar um projeto para alçar Jesus ao posto de padroeiro do Brasil, segundo o portal Poder360. Pauta que merecia destaque, sem dúvida. Mas deve-se mirar nesse assunto, sem deixar descoberto o “outro lado”.

Mais uma vez, a imprensa brasileira caiu numa casca de banana. Isso porque o tema não podia ter sido simplificado. Há muitas camadas sobre ele, como os movimentos de precaução da Igreja católica, que se posiciona pela defesa da democracia desde os tempos da ditadura. No dia 3 de agosto deste ano, integrantes da Frente Inter Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns marcaram presença no ato do grupo DireitosJá! na PUC, em São Paulo. Na ocasião, sacerdotes católicos, da umbanda, pastores, entre outros, colocaram a palavra de Deus em defesa da democracia.

Lideranças católicas são menos estridentes que pastores evangélicos midiáticos e não citam nomes de políticos. Mas marcam distância do bolsonarismo, que já tentou um golpe de Estado, quando mencionam a democracia como o norte natural dos católicos.

Outra camada deste assunto é o crescimento da intolerância religiosa ano após ano. Uma notícia do G1 de outubro de 2023, relata que no município de Bastos, no interior de São Paulo, o pastor Sérgio Fernandes chamou Nossa Senhora de “Satanás fantasiada de azul” em uma transmissão ao vivo, reclamando da imagem dela na entrada da cidade. Dias atrás, a santa apareceu sem cabeça em Cuiabá, após o alvoroço sobre o assunto na imprensa. Nem vamos entrar nos ataques às estátuas de Iemanjá, rainha do mar em religiões de matriz africana, principais alvos de ataques no Brasil. É explícito o clima de perseguição ao que não está de acordo com fiéis radicais, e a imprensa não poderia ignorar esse fato.

Há, ainda, uma jornalista cuja maestria é inconteste, colocada numa posição tão injusta quanto perigosa quando a manchete sobre “fake news” é publicada irrefletidamente. Maria Cristina Fernandes foi alvo de ataques, diante da distorção de que ela teria espalhado uma informação falsa.

Falta ao jornalismo humildade para admitir quando erra e é preciso pontuar esse contraponto. A imprensa não perde leitores só por causa do crescimento das big techs e das redes sociais. Perde também quando embarca em coberturas complexas de maneira superficial e compromete a confiança do seu público. Faltou contexto antes de nomear o assunto como fake news em manchetes sobre o episódio. 2026 já tem sua polêmica para a coleção de escorregadas da profissão que precisam ser debatidas à exaustão.

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Carla Jimenez é jornalista, mestranda em Jornalismo na ECA-USP, ex-editora chefe de Política do Uol e ex-diretora do El País Brasil.