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Fernando Frazão/Agência Brasil)
A campanha eleitoral recém-concluída sinalizou uma importante mudança na forma como a sociedade contemporânea terá que lidar com o trinômio política, comunicação e jornalismo. Já está bastante claro que a velha separação entre o voto, as plataformas digitais e a notícia está com seus dias contados e que caminhamos para uma profunda integração entre os três itens, onde cada um condiciona diretamente os outros dois, seja qual for o assunto em pauta.
Isto afeta diretamente o jornalismo, porque a atividade lida com notícias e elas são fundamentais para atrair a atenção das pessoas. Mas para que uma notícia desperte a atenção, num ecossistema digital saturado de novos dados, fatos e eventos, é essencial que ela atenda às necessidades, desejos e inquietações das pessoas e comunidades às quais se destina.
Até agora, a notícia era uma mercadoria que servia para financiar projetos jornalísticos através da publicidade paga, mas com a avalanche informativa na internet, ela (a notícia) perdeu valor de troca e agora passa a funcionar cada vez mais como matéria-prima para as pessoas desenvolverem conhecimentos. Cabe ao jornalismo identificar estas necessidades e apresentá-las de forma atraente, rápida e facilmente compreensível, para que as pessoas ou comunidades possam decidir o que fazer.
Para que estas necessidades sejam detectadas, é indispensável haver comunicação, ou seja, estruturas que permitam a interação entre pessoas tanto para identificar os problemas como para achar soluções. É o que se espera das redes sociais, ou seja, estruturas digitais capazes de facilitar a rápida comunicação entre pessoas por meio da veiculação de informações, da forma mais ampla, livre e diversificada possível. Isto, é claro, exigirá a regulamentação das atuais plataformas digitais, como Facebook, Instagram, Whatsapp, YouTube e TikTok, já que elas são basicamente um negócio para monetizar a atenção das pessoas. Sua preocupação central não é facilitar a integração das pessoas visando a formação de conhecimento e a geração de capital social.
Quando as redes politizam o descontentamento
Quando se trata de tomar decisões coletivas ampliadas como a escolha de um novo presidente da República ou a deliberação sobre uma mudança constitucional, entramos no terreno da política. Os últimos acontecimentos aqui no Brasil e noutros países do mundo mostraram a ascensão de novos protagonistas, novos formatos de ação política e, especialmente, a integração entre mobilização popular, comunicação e informação. A reviravolta eleitoral no segundo turno das eleições brasileiras, a derrota de um governo autoritário na Sérvia (parte da ex-Iugoslávia), os protestos de rua em Paris, Lisboa, Milão, Madri e Berlim foram iniciados e liderados por estudantes, mostrando o surgimento de um ator político sem líderes, sem plataforma, só slogans, e sem filiação partidária.
A intensificação da ação política dos estudantes ocorreu porque eles usaram redes criadas por eles próprios dentro das plataformas digitais para reunir adeptos e disseminar ações. O modelo funcionou porque atendeu ao desejo dos jovens de expressar seu inconformismo com o modelo político vigente na maioria dos países ocidentais. A quase totalidade dos manifestantes portava telefones celulares para transmitir e receber instruções e ideias. Política e comunicação funcionaram de forma síncrona o tempo todo nos protestos aqui no Brasil, em Belgrado, Paris e Milão, um recurso inédito neste tipo de manifestação política.
No Brasil, o deputado federal e ativista André Janones criou um movimento virtual chamado Exército de Lula, que, sem patrocínio comercial ou partidário e contando apenas com o medo das pessoas de uma volta do autoritarismo e da ditadura ao país, conseguiu mobilizar 10 milhões de pessoas e garantir a reeleição do atual presidente brasileiro. A iniciativa de Janones, junto com o movimento dos estudantes sérvios, mostrou como mudanças políticas, antes vistas como impossíveis, podem mudar um ambiente político de forma irreversível.
Repensando o papel do jornalismo
O jornalismo ainda precisa repensar sua inserção nesta nova realidade. O discurso tradicional ainda é o da observação isenta e o distanciamento dos principais atores políticos como pré-requisito para a imparcialidade e objetividade das notícias. Só que esta forma de cobrir eventos como eleições, protestos e deliberações legislativas está cada dia mais obsoleta e distante da realidade política das eleições contemporâneas. Prova disso é o desgaste dos debates entre candidatos às vésperas de eleições.
As temáticas eleitorais são cada vez mais complexas diante do crescimento exponencial na diversificação das abordagens de realidade política. Assim, torna-se impossível oferecer ao eleitor uma discussão objetiva e didática, pois a ampliação do campo da dúvida e, consequentemente, do enviesamento, facilita o pugilato verbal. Tentando evitar agressões mútuas, as emissoras de rádio e TV criaram tantas regras que o debate ficou enfadonho e longe de atender ao objetivo de ajudar o/a eleitor/a a formar uma opinião.
O argumento de que o jornalismo deve ser imparcial nas questões políticas perde consistência na era digital porque o mundo não está mais dividido apenas em duas posições. Cada dia os confrontos políticos ficam mais multifacetados, com abordagens múltiplas por conta da avalanche de informações, o que torna virtualmente impossível cobrir toda a diversidade de posições com o grau de isenção apregoado pelos atuais manuais de redação.
A justificativa para a isenção total era a de que ao assumir um lado, um jornalista estaria desvirtuando a notícia e favorecendo apenas um lado num confronto político, induzindo o público a erros de avaliação. Acontece que a avalanche informativa na internet oferece muitas percepções diferentes de uma mesma realidade, o que cria condições para muitos posicionamentos diferentes e não necessariamente 100% errados. Num contexto em que há apenas dois lados, criou-se a percepção de que um está certo e, consequentemente, o outro está equivocado.
Mas quando há a possibilidade de várias verdades, há também a chance de vários posicionamentos e percepções diferentes. Assumir um lado, como fez o projeto jornalístico do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) nas últimas eleições presidenciais, não é sinônimo de desvirtuamento da verdade. O compromisso essencial do jornalismo é com a veracidade, exatidão, relevância e pertinência das notícias levadas ao público. Não se pode falar em distorção da verdade quando entram em questão várias verdades. E principalmente quando se situa a notícia dentro do trinômio política/comunicação/jornalismo.
