Quinta-feira, 26 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1381

A imprensa, a delação de Vorcaro e quem era quem na rede de proteção do Master

( Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

Ao ver se desfazer a rede de proteção que havia montado para blindar as atividades ilegais do Banco Master, o seu ex-dono Daniel Vorcaro, 42 anos, começou a negociar uma delação premiada com a Justiça. Isso me lembrou uma reportagem que fiz no início dos anos 90 sobre o poder dos banqueiros do jogo do bicho nas cidades gaúchas. Não foi fácil. Investiguei a história por mais de meio ano. Lembro-me que não existia “papel”, uma gíria que os repórteres usavam quando queriam dizer não havia inquéritos policiais sobre o assunto que pudessem nortear o trabalho jornalístico. Descobri que os bicheiros montaram ao redor dos seus negócios uma rede de proteção muito semelhante à de Vorcaro. Eles usavam o nome de autoridades e pessoas influentes para passar a quem tivesse intenção de acabar com as suas atividades ilegais o seguinte recado: “Olha quem são os meus amigos”. Meu primeiro trabalho foi separar o que era verdade da “conversa fiada” e saber quem era quem na rede de proteção dos bicheiros. Descobri que muitas autoridades nem sabiam que os seus nomes estavam sendo usados. Gastei muita sola de sapato. Mas no final dos primeiros dois meses de apuração já conhecia o modo de operar dos 12 maiores bicheiros gaúchos.

Há uma corrente respeitável de pesquisadores da violência no Brasil que defende a ideia de que foram os bicheiros que começaram o crime organizado no país. O fato é que a rede de proteção criada por Vorcaro para proteger as suas atividades no Master é muito parecida com a dos chefões do jogo do bicho. Claro, a de Vorcaro é mais sofisticada, com festas, seminários, jatinhos particulares e ostentações de todos os calibres. Mas o objetivo era passar o mesmo recado: “Não se metam comigo, olhem de quem eu sou amigo!”. Vorcaro montou sua rede de proteção no “andar de cima”, transitando entre gente poderosa. No andar de baixo, seus capangas operavam no velho estilo: espionando e ameaçando pessoas que julgavam ser “inimigas da operação do Master”. Entre estes capangas estava Luiz Phillipi Machado Mourão, 43 anos, conhecido como Sicário, como são chamados os pistoleiros de aluguel dos cartéis de droga do México. Preso pela Polícia Federal, suicidou-se na sua cela – há um inquérito investigando a morte. O escrivão de polícia Marilson Roseno, aposentado da PF, 56 anos, fazia o trabalho de espionagem. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, 50 anos, operava a lavagem de dinheiro. Além desses, há outros cujos nomes ainda são desconhecidos da PF. O novo advogado do banqueiro, o experiente José Luis de Oliveira Lima é quem negocia a delação premiada. As conversas ainda estão no início. Se tudo der certo, saberemos quem é quem no sistema de proteção montado por Vorcaro ao redor das suas operações no Master, que deram um prejuízo de R$ 50 bilhões para os clientes e o sistema bancário.

Há colegas que estão comparando o caso Master com a Operação Lava Jato (2014 – 2021). É forçar a barra. A Lava Jato foi uma operação grandiosa, que teve 80 fases (operações autorizadas pela Justiça), e a maioria dos julgamentos aconteceu na Terceira Vara da Justiça Federal de Curitiba (PR), na época comandada pelo então juiz federal Sérgio Moro, 53 anos, atualmente senador – a polêmica envolvendo Moro e a Lava Jato está disponível na internet. Para a imprensa, a Lava Jato foi um divisor de águas. Aprendemos muito nesta cobertura. Lembro-me que fui um dos repórteres que advertiu os colegas que estávamos sendo usados por Moro para divulgar a sua versão de justiça. Ele soube usar com maestria a concorrência entre os jornalistas para “vender o seu peixe”. É do jogo. Aprendemos que é importante “ficar alerta” para as cascas de banana no caminho. Portanto, seja lá no que der a delação de Vorcaro, os jornalistas estão mais capacitados para separar o joio do trigo do que estavam na Lava Jato. Um colega me lembrou que 2026 é ano eleitoral. Disse a ele que não se trata apenas de mais um ano eleitoral. Este é diferente. Por quê? Simples. Entre o final de 2022 e 8 de janeiro de 2023 o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) e um grupo de 37 pessoas criaram uma organização criminosa e tentaram dar um golpe de estado. Estão todos presos, cumprindo pena, além de mais de mil outros seguidores do ex-presidente que em 8 de janeiro de 2023 se envolveram na destruição do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). A eleição presidencial está polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, que é filho do ex-presidente e o substitui na disputa. Mais ainda. Tanto Lula quanto Flávio estão apostando muito para fazer uma bancada significativa no Congresso. Não interessa quem for eleito presidente. Vai dar as cartas quem tiver maioria na Câmara dos Deputados e no Senado. Vou lembrar um fato histórico. Em 1961, o presidente Jânio Quadros (1917 – 1992) renunciou ao cargo apenas sete meses após tomar posse, alegando que “forças terríveis” o impediam de governar. As “forças terríveis” eram a maioria da oposição no Congresso. Ele apostou que o povo o levaria de volta à Presidência com poder para “enquadrar” a oposição. Nada disso aconteceu. Ao contrário, a renúncia de Jânio plantou as sementes do golpe militar que aconteceria em 1964 e duraria 21 anos, como tratei no post “O Agente Secreto” contou aos quatro ventos a história dos horrores de 1964.

Para arrematar a nossa conversa. Seja qual for o conteúdo da delação premiada de Vorcaro, a imprensa brasileira nunca esteve tão bem informada sobre quem é quem na disputa eleitoral, sobre o que aconteceu entre as quatro paredes da tentativa de golpe de 2023 e sobre a nova conjuntura mundial projetada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, que usa o imenso poder econômico e militar americano para escrever a História ao seu modo.

Publicado originalmente em Histórias  Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.