Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Destino dos Generais do Bolsonaro é o pijama ou as milícias digitais?

Fazer oposição é um direito garantido, conspirar é crime e dá cadeia (Foto: Fernando Souza / AFP)

Dias interessantes vêm por aí para os líderes do círculo íntimo do presidente Jair Bolsonaro (PL). Qual será o destino deles com a substituição do presidente pelo vencedor das eleições, Luiz Inácio Lula da Silva (PT)? Vamos falar hoje sobre o grupo, que foi o mais importante para consolidar na opinião pública a imagem de que as Forças Armadas estavam no poder, e que foi apelidado pela imprensa como Os Generais do Bolsonaro. Para contextualizar a história dos grupos que apoiaram o governo. Entre todos os presidentes eleitos pelo voto popular, Bolsonaro foi o que teve o mais amplo e diferenciado leque de apoiadores, como terraplanistas, ocultistas, nazistas, liberais, evangélicos neopentecostais, militares saudosistas do golpe de 1964, parlamentares do Centrão e oportunistas. A história desses grupos é outra conversa. Vamos falar sobre Os Generais do Bolsonaro.

Vamos aos fatos. A ideia geral entre um grupo de oficiais superiores das Forças Armadas, em especial do Exército, era que conseguiriam voltar ao poder surfando no prestígio político de Bolsonaro, eleito em 2018 com mais de 57 milhões de votos. Também apostaram que conseguiriam controlar a boca de conflito do presidente. Uma explicação para quem não é jornalista. Boca de conflito é como se chama nas redações dos jornais aquelas pessoas que costumam provocar confusão sempre que falam. Voltando a nossa conversa. Nos primeiros meses do governo, os generais que apostaram que podiam controlar o presidente se deram conta de que tinham cometido dois erros na sua avaliação. O primeiro é que a situação era diferente de 1964, quando os militares deram um golpe de estado apoiado pelos Estados Unidos, por partidos políticos e boa parte da população brasileira. Naquela época, o que os generais diziam era lei e fim de papo. O segundo erro foi que, embora o presidente seja capitão reformado do Exército, ele foi eleito pelo voto popular e, portanto, é o comandante supremo das Forças Armadas. Bolsonaro fez uma demonstração de força demitindo e humilhando publicamente vários oficiais superiores. É grande a lista de demitidos ou que foram forçados a pedir as contas. Vou citar o mais conhecido deles, o general Santos Cruz, que foi ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República – há inúmeras matérias disponíveis na internet. Os que ficaram no governo baixaram a cabeça e aceitaram serem humilhados pelo presidente, como exceção do general Hamilton Mourão, por ser vice-presidente. Não foi humilhado, mas foi escanteado.

Para facilitar o entendimento do leitor não citei se os generais são da ativa, reserva ou reformados por entender que é irrelevante. O importante é que são todos do governo Bolsonaro. Entre os que ficaram no governo, os destinos de dois deles já são conhecidos. Mourão se elegeu senador pelo Rio Grande do Sul. E o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. É consenso entre os jornalistas que Pazuello vai emprestar o nome dele para as milícias digitais bolsonaristas abrirem fogo contra o governo Lula. Ele está muito contente por ter sido eleito, porque conseguiu imunidade parlamentar que o mantém a salvo por um tempo de uma avalanche de processos na Justiça Federal decorrentes de sua atuação como ministro da Saúde. Toda a história desses processos é contada nas 1,3 mil páginas do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado da Covid-19 (CPI da Covid). Mourão ainda não decidiu se vai ajudar a resolver os graves problemas deixados pelo governo do qual fez parte ou vai fazer parte desses problemas, defendendo o legado de Bolsonaro na administração do país. Tem credibilidade na opinião pública para trilhar o seu próprio caminho. O que ele fará só saberemos com o andar da carroça, como se fala no interior do Rio Grande do Sul. Outros dois generais, Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e Luiz Eduardo Ramos, ministro da Casa Civil, vão vestir o pijama. E certamente vão virar conspiradores entre os oficiais aposentados. Os dois têm perfis diferentes. Ramos é uma pessoa que age nos bastidores. Sempre foi muito discreto. Já Augusto Heleno é um mestre em espalhar pânico usando a imprensa. O general Braga Netto, que concorreu a vice-presidente na chapa de reeleição de Bolsonaro, ainda não tem destino definido. Existe a possibilidade de que assuma alguma secretaria do governo do estado de São Paulo, onde foi eleito governador Tarcísio de Freitas, ex-ministro do governo Bolsonaro. O governador eleito é carioca e Braga Netto foi interventor federal na área de segurança pública no Rio de Janeiro durante 10 meses, em 2018. O que une todos esses generais e outros oficiais superiores das Forças Armadas a Bolsonaro? Não é ideologia e muito menos camaradagem da caserna. Eles são unidos pelo dinheiro. O presidente baixou um decreto que permitiu que fossem somados os soldos que recebem nas Forças Armadas com o salário da função que ocupam na administração civil federal. Até o decreto, essa soma não poderia furar o teto salarial do funcionalismo público federal, em torno de R$ 40 mil. Agora pode – há matéria na internet.

Seja lá qual for o destino dos Generais do Bolsonaro, eles terão que respeitar a lei. Uma coisa é fazer oposição ao governo, um direito sagrado garantido pela Constituição. Outra coisa é conspirar contra a democracia. É crime e dá cadeia. A democracia brasileira é jovem. Mas tem demonstrado que tem musculatura suficiente para se defender daqueles que a atacam. Durante o seu mandato, o presidente da República tentou articular várias vezes um golpe de estado. Falhou em todas. Sou um velho repórter estradeiro, tenho 72 anos, 40 e tantos de profissão, sendo que passei uns 30 e poucos em redação de jornal, viajando pelos sertões em busca de histórias para contar. Digo que nunca falamos tanto sobre a Constituição nas nossas matérias como nesses últimos quatro anos. É sempre bom lembrá-la.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.