Thursday, 18 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

O silêncio obsequioso

O deputado estadual João Paulo Rillo, do PT paulista, acusa o jornalista Augusto Nunes de ser “antijornalista” e quer retirá-lo da TV Cultura, por ser “um soldado de José Serra”. Rillo é advogado de formação e sabe perfeitamente que está não apenas tentando censurar o trabalho de um jornalista como proibi-lo de trabalhar – aquilo que, quando a ditadura militar ousou fazer, provocou tamanha reação que foi obrigada a desistir da barbaridade.

O deputado estadual Fernando Capez, do PSDB paulista, quer proibir o jornalista Juca Kfouri de publicar textos, no futuro, que possam “ofender sua honra e imagem” – em outras palavras, censura prévia. E, considerando-se que Fernando Capez é profissional de Direito, proveniente do Ministério Público, deve saber perfeitamente que a Constituição da República proíbe a censura prévia.

São dois parlamentares, dois profissionais de Direito, pertencem a partidos adversários que se consideram inconciliáveis, mas têm uma coisa em comum: o ódio ao jornalismo e o apreço incontido pela censura prévia.

Cada um tem seu motivo particular para odiar o jornalismo.

Capez, que tem alguma militância na área esportiva, é criticado pelo jornalista Juca Kfouri. Tem todo o direito de não gostar das críticas; tem todo o direito de pedir direito de resposta, quando achar que é necessário; tem todo o direito de processar Kfouri, quando achar que as críticas ultrapassaram os limites do legalmente aceitável. Mas não tem o direito de querer calá-lo.

Rillo está ofendidíssimo porque Augusto Nunes, a seu ver, é tucano. E mais ofendido ainda porque, no programa Roda Viva, entrevistou o músico Lobão. “Esse sujeito (Lobão) precisa ser tratado urgentemente”, garante Rillo. E por que precisa de tratamento? Porque não é petista e se manifesta contra o PT nos meios de comunicação. Segundo Sua Excelência, advogado que se imagina com conhecimentos de psiquiatria, Lobão “sofre da Síndrome de Estocolmo, se apaixonou por quem o prendeu”.

Caso se desse ao trabalho de ler alguma coisa, o nobre parlamentar João Paulo Rillo encontraria um trecho interessante num livro autobiográfico de Ricardo Kotscho, Do golpe ao Planalto. De volta ao Brasil depois de uma temporada como correspondente, e sem emprego, Kotscho, petista até o último fio de cabelo (sim, o último ele ainda tem) foi procurar emprego na sucursal paulista do Jornal do Brasil. A quem buscou? Augusto Nunes, que o empregou imediatamente. Augusto Nunes sabe quem é bom jornalista. Rillo não sabe – não apenas não sabe, como pensa que é conhecido e poderoso. Segundo disse, pretende questionar a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, até que Augusto Nunes seja removido da função. “Vou usar todas as ferramentas que meu cargo me permite utilizar para tirar esse sujeito de lá”.

Capez foi longe, também, no seu objetivo de calar o jornalista que não o elogia. Embora, vamos repetir, seja um cultor do Direito, interpôs embargos de declaração que não têm sentido no caso – tanto que foram todos rejeitados pelo Superior Tribunal de Justiça. “Embargos de Declaração são utilizados para tornar clara a decisão em que exista omissão relacionada a algum ponto cuja manifestação seria obrigatória”, diz a relatora do caso, ministra Nancy Andrighi. E por que falha tão flagrante? Segundo a ministra, Fernando Capez “admite expressamente que, na realidade, pretende apenas e tão somente abrir caminho para a futura interposição de recurso ao Supremo Tribunal Federal”. Lembrou também que a aceitação do pedido de censura formulado por Capez “viola o direito à liberdade de imprensa e à informação”.

Dois políticos, dois partidos inimigos, o mesmo objetivo: calar a imprensa. Jornalismo livre só é bom para eles quando o jornalista é livre para falar bem. Se não falar bem, rezam ambos, tem de ser mantido em silêncio. Esse tipo de raciocínio, aliás, é o que se vê amplamente divulgado em redes sociais: jornalista bom é o que está do nosso lado. Os demais são gente horrorosa, a ser difamada e isolada. Só que Parlamento não é rede social, deputado deveria tomar atitudes coerentes, pessoas formadas em Direito precisariam envergonhar-se de defender a censura prévia.

E não imagine o caro colega que, como jornalista, estou com a impressão de que todo mundo nos detesta. Não! Tenho alguns parentes que gostam de mim.

 

Mudando de tática

Nos dois casos de guerra a jornalistas, os nobres parlamentares modificaram os usos e costumes de seus partidos. O PT sempre mobilizou equipes nas redes sociais para falar mal dos jornalistas de quem não gostava, mas nunca tinha feito esse tipo de pressão direta e aberta para proibir alguém de trabalhar (ao contrário: quando o presidente Lula resolveu livrar-se de Larry Rohter, correspondente americano, quem o convenceu a desistir da bobagem foram três petistas puro-sangue: Márcio Thomaz Bastos, Ricardo Kotscho e Sigmaringa Seixas).

O PSDB sempre optou por manobras subterrâneas, movendo dezenas de processos judiciais contra jornalistas que o incomodavam, tentando sufocá-los economicamente, enquanto os dirigentes do partido proclamavam sua irrestrita adesão à plena liberdade de imprensa. Certa vez, quando este colunista publicou a notícia de que pela primeira vez na História uma organização não governamental estava sendo lançada no palácio do governo, o tucano-mor Mário Covas fez um duro discurso de ataque, com citação de nome e tudo. Mas ameaças, não – isso ficou por conta de processos diversos movidos por parentes e secretários.

Abrir o jogo contra jornalistas, da maneira como abriram Capez e Rillo, é novidade. Agora, aguardemos que Juca Kfouri e Augusto Nunes vençam a guerra contra os inimigos da liberdade de imprensa, sejam do partido que forem.

 

The american way

Notícia do Consultor Jurídico:

“A pesquisa anual do Instituto Gallup sobre a percepção de honestidade e ética de diferentes classes profissionais nos EUA revelou que os parlamentares só perdem para os lobistas em desonestidade. De acordo com a pesquisa de 2013, apenas 8% dos americanos acreditam que parlamentares são honestos, enquanto os lobistas, aqueles que negociam favores com os congressistas ou autoridades governamentais, só são respeitados por 6% da população do país”.

Lá é um pouco diferente: os lobistas se assumem como lobistas. No Brasil, lobista tem vários disfarces, sendo o principal o da invisibilidade: quanto menos aparece, melhor o lobista. E por isso o jornalista é seu grande inimigo. O parlamentar também sabe que alguns privilégios absurdos não causariam nenhuma revolta se não fossem revelados ao público. E por isso o jornalista é também um grande inimigo. Talvez a desconfiança do público a respeito da integridade de lobistas e parlamentares explique boa parte da hostilidade que dedicam aos jornalistas e os truques que utilizam para tentar calá-los.

 

Gastando a rodo

O caro colega se irrita ao ver que candidatos a político usam recursos de sua entidade de classe (em última análise, dinheiro público) para fazer propaganda pessoal, que possa posteriormente render votos? Pois veja o curto comentário sobre o tema, enviado por um assíduo leitor desta coluna, Marcelo de Moura:

“Não sou tão velho assim, mas sou do tempo em que a Fiesp tinha força e fazia reivindicações ao governo para melhorar as condições da indústria como um todo e até mesmo para ampliar a geração de empregos.

“No meu entender, as entidades de classe deveriam brigar para que o custo Brasil não seja um inibidor de investimentos e da entrada novos investidores. Conheço estrangeiros que reclamam que viver no Brasil é caro demais e sem qualquer retorno para tantos impostos.

“Agora ligo a TV e sou obrigado a ver o atual presidente da Fiesp, que já foi candidato e até já mudou de partido, fazendo campanha política com novo visual em horário nobre. Pois é, os tempos mudaram e para pior. E olha que não tenho qualquer interesse e participação na Fiesp, sou apenas um destes trabalhadores que pagam muito, mas muito imposto”.

Os meios de comunicação têm um papel nessa história: verificar com especialistas em legislação eleitoral se há ou não propaganda ilegítima, avaliar seu custo, verificar que parcela desse custo corresponde a dinheiro público, já que o Sistema S (Sesi, Senai) recebe uma parte dos impostos que os associados da Fiesp deveriam pagar. Há muita coisa a fazer: por exemplo, o atual presidente da Fiesp está no cargo já faz tempo. Antes que resolvesse entrar na política, quanto a entidade, já sob seu comando, gastava com propaganda na TV? Nesta propaganda, quantas vezes o presidente da entidade aparecia pessoalmente, apregoando as virtudes do sistema? E a partir do momento em que entrou na política, como ficaram esses números?

 

O balanço que faltou

Ronald Biggs, o lendário planejador do Assalto ao Trem Pagador, em 1963, o “ladrão do século”, que fugiu para o Rio e viveu no Brasil durante anos, morreu há alguns dias, aos 84 anos. Grande personagem, Biggs foi o inspirador de vários filmes; integrou-se de tal maneira à vida brasileira que, doente, quando resolveu voltar à Grã-Bretanha para ser preso e ter tratamento médico adequado, provocou surpresa geral.

O que faltou na cobertura da morte de Ronald Biggs foi um pequeno comparativo. O bando levou, no assalto ao trem pagador na rota Glasgow-Londres, a quantia de 2,6 milhões de libras, algo que não chegaria hoje a 10 milhões de reais. Há 50 anos, foi o Roubo do Século. Hoje, comparativamente, em que lugar no ranking da roubalheira estaria o Roubo do Século? Mesmo que se compare o dinheiro roubado no trem pagador só a crimes cometidos no Brasil, o Roubo do Século seria hoje assunto para o Juizado de Pequenas Causas. Tem gente que roubou muito mais e ainda diz que os juízes é que estão errados.

 

Como…

Há alguns anos, comentava-se que o PSDB era o PT com diploma (e o PT, o PSDB de macacão). Não era bem assim – mas, para evitar que a fama de partido de letrados, que o PSDB cultiva, se desmanche no ar, seria interessante tomar conta do pastor Altemar. O pastor não apenas manifesta seu desejo de dar uma surra em eleitoras de que discorda como usa a expressão “dar um coro”. Já é estranho que um político queira agredir fisicamente seus adversários; mais estranho ainda que pense em agredir mulheres. E seria tão difícil ensiná-lo que coro é uma coisa e couro é outra?

 

…é…

Do apresentador do evento Expocatadores, que reuniu catadores de papel em São Paulo, no Anhembi:

“A presidenta Lula estará daqui a pouco entre nós”.

Dilma Rousseff realmente esteve no ato, mas só chegou depois de ser chamada duas vezes de “presidenta Lula”. O apresentador se justificou, dizendo que Lula “é um mito”, e por isso fez a confusão.

 

…mesmo?

De um grande portal jornalístico, ligado a importante grupo de comunicação, referindo-se ao julgamento da escalação irregular de um jogador da Portuguesa de Desportos num jogo decisivo:

** “CBF é corresponsável por erro em escalação de goleiro, diz defesa da Lusa”.

Quase. Héverton, o jogador em questão, não é goleiro, é meia. Sua obrigação é fazer gols, não evitá-los.

 

Frases

>> Do chargista Sponholz, sobre a decisão brasileira de comprar os caças supersônicos suecos Grippen NG, que não eram os primeiros na lista de apostas: “O Grippen é o caça 2”.

>> Do cientista político Bruno Lima Rocha, sobre o “helipóptero” pertencente ao deputado Gustavo Perrela, do Solidariedade de Minas: “O pior do Brasil se encontra nesta trama absurda onde o contribuinte paga o combustível de um helicóptero privado apreendido com carga ilegal e o cujo piloto, funcionário da empresa da família de políticos-empresários-cartolas, é lotado em gabinete parlamentar”.

>> Do arquiteto Carlos Cunha, Carlucho, sobre o reduzido movimento num shopping center, às vésperas do Natal: “Está às moscas. E as moscas têm bastante espaço”.

 

E eu com isso?

Como diria Simone, “então é Natal”. Bate o sino, pequenino. Noite Feliz, Noite de Amor. E, naturalmente, um Natal branco, com neve, que é coisa de país nórdico (mas que tem uma história maravilhosa: White Christmas,o grande hino da maior festa cristã, com cem milhões de discos vendidos nos Estados Unidos, foi composto por um judeu russo emigrado, Irving Berlin, que passava alguns dias na quente região de Hollywood, na Califórnia). Este é o mundo como ele é: muita praia, muita festa, muito namoro, um mundo de faz de conta que faz de conta que vira verdade.

** “Yasmin brilha em aniversário do namorado da mãe”

** “Kate Middleton é preparada para ser mais independente”

** “Daniel toma café da manhã com fãs em Florianópolis”

** “Kate Perry e Allison Williams tomam lanche juntas”

** “Gisele Bundchen brinca com o filho na praia”

** “Joshua Bowman veio ao Brasil”

** “Marcelo Serrado leva gêmeos à praia de Ipanema”

** “Justin Bieber cai ao andar de skate e dá risada”

** “Caco Ciocler e Luisa Micheletti caminham na praia”

** “Atriz de ‘Ninfomaníaca’ canta música de Jimi Hendrix”

** “Marcos Garcia celebra o aniversário do filho”

** “Nicole Scherzinger chama a atenção com vestido ousado na final do The X Factor

** “Dani Calabresa e Marcelo Adnet passeiam no Rio”

** “Lindsay Lohan escreve autobiografia para contar seus segredos”

Então, tá.

 

O grande título

Retorna triunfalmente um tipo de título que há tempos havia sumido: aquele que imita a maneira de falar índio americano em filme. A frase é atribuída a Charlie Sheen:

** “Ator posta foto e reclamar por não passar Natal com as filhas”

Há também aquele título que foi sendo modificado, foi sendo modificado, foi sendo modificado, e acabaram esquecendo de mudar a frase completa.

** “Satisfeito, Santos dispensa procura reforços para posições de defesa”

E um título notável, imune a classificações:

** “Gravidez psicológica é descoberta durante cesariana em Cabo Frio”

Deve haver alguma história curiosíssima escondida neste enigma.

 

Até janeiro

Esta coluna é a última do ano. Permite aos leitores (e ao colunista) descansar um pouco desta vida de olhar o Brasil como ele é de verdade e ainda assim continuar gostando dele. A próxima coluna deve ser publicada na segunda terça-feira de 2014, dia 14 de janeiro. Bom Natal, caro leitor, e Feliz Ano Novo. Até lá!

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Carlos Brickmann é jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação