Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

Quando o país naturaliza a morte, a crise já aconteceu

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O Brasil convive diariamente com números que deveriam nos chocar. Mortes no trânsito, acidentes de trabalho, enchentes, deslizamentos, rompimentos de barragens, assassinatos. São dados que se acumulam em relatórios oficiais, manchetes de jornal e estatísticas públicas — e que, paradoxalmente, deixam de produzir espanto.

A banalização da morte é um dos sintomas mais graves de uma crise institucional profunda. Não se trata apenas de tragédias isoladas, mas de um padrão: perdas humanas previsíveis, evitáveis, recorrentes — tratadas como fatalidade.

No Brasil, morrem cerca de 40 mil pessoas assassinadas por ano. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 46.328 homicídios em 2023, o que equivale a mais de 120 mortes violentas por dia. É como se, diariamente, um avião comercial lotado caísse sem sobreviventes — e isso já não causasse comoção nacional.

No trânsito, o quadro não é menos dramático. Em 2024, o país registrou 37.150 mortes, o maior número em oito anos. Mais de 100 pessoas morrem por dia em ruas e rodovias brasileiras (Poder360, 27 de janeiro de 2026). A principal causa: excesso de velocidade, álcool, ausência de fiscalização e infraestrutura precária. Nada disso é imprevisível. Nada disso é acidente no sentido estrito da palavra.

No trabalho, a situação também revela um padrão de banalização da vida. Até você terminar de ler este artigo, mais um acidente de trabalho será notificado no Brasil. Em menos de quatro horas, mais uma pessoa morrerá em decorrência de um desses acidentes.

Segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab), publicado no site do Tribunal Superior do Trabalho (28/04/2023), os números são alarmantes. Considerando apenas empregados com carteira assinada, os acidentes no ambiente do trabalho cresceram de forma expressiva em 2021: 612.920 acidentes com 2.538 mortes (aumento de 36% em relação ao ano 2020).

São, em média, sete trabalhadores mortos por dia no exercício de suas funções. Isso sem contar a informalidade, o trabalho por aplicativos e os milhões de trabalhadores invisíveis às estatísticas oficiais.

Em todos esses casos, há um elemento comum que raramente é problematizado: a forma como a própria comunicação pública — e, muitas vezes, a cobertura jornalística cotidiana — passa a tratar essas mortes como parte do fluxo normal da realidade. A notícia vira boletim de contagem: tantos mortos, tantos feridos, tantas ocorrências. Registra-se o fato, descreve-se o drama imediato, mas quase nunca se investiga o padrão, a previsibilidade, as falhas estruturais e as responsabilidades institucionais que se repetem.

Em todos esses casos, há um elemento comum que raramente é enfrentado de forma estrutural: a resposta institucional do próprio Estado. A comunicação pública passa a operar quase sempre em modo reativo e protocolar, limitada a informar números, emitir notas, anunciar medidas pontuais e explicar o ocorrido como um evento isolado. A complexidade dos problemas — violência, insegurança viária, precarização do trabalho — é reduzida a justificativas administrativas, prazos, comissões e promessas genéricas.

A crise, assim, deixa de ser exceção e passa a ser enquadrada como rotina informativa. Quando isso acontece, o que se naturaliza não é apenas a morte, mas também a letargia do poder público diante de riscos que já eram conhecidos, mapeáveis e, em grande parte, evitáveis. É exatamente essa mesma lógica de normalização social da tragédia que reaparece quando falamos dos chamados “desastres naturais”.

Neste campo, a lógica se repete. Entre 1991 e 2023, o Brasil registrou 26.767 desastres relacionados a chuvas, que afetaram 91 milhões de pessoas e provocaram 4.247 mortes. Mais de 80% dos municípios brasileiros já sofreram ao menos um evento desse tipo (Globo, 1º de julho de 2025).

Segundo estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica, os desastres cresceram 222% a partir de 2020, impulsionados pelas mudanças climáticas, urbanização precária e ausência de políticas consistentes de prevenção. Em 2024, o Brasil bateu recorde de desabrigados por desastres chamados “climáticos”, com número estimado de 300 mil pessoas impactadas (GloboNews, 18/05/2025).

Ainda assim, a explicação oficial quase sempre termina nas frases:
“Nunca havia chovido tanto” ou “este volume não era esperado”.

Na comunicação pública, isso se traduz numa transferência silenciosa de responsabilidade. Culpa-se a natureza, São Pedro, o clima, o evento extremo. Como se a chuva, sozinha, tivesse força política, poder de decisão e orçamento público. Aqui na terra, São Pedro não tem advogado para se defender.

A socióloga e economista Norma Valencio, fundadora e vice-coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres (NEPED) da Universidade Federal de São Carlos, referência nos estudos sobre sociologia dos desastres, é categórica: o desastre não é natural. Desastre é um processo socialmente construído. É resultado de escolhas políticas, ocupação inadequada do território, desigualdade social, omissão do Estado, ausência de gestão real de riscos, comunicação pública escassa e falhas estruturais do Poder Público e da iniciativa privada.

Ficando apenas nos fenômenos dos deslizamentos, temporais e alagamentos, a chuva é apenas o gatilho. O desastre já estava pronto antes, estava no armário, na gaveta chamada “crises latentes”. Quando o risco se torna concreto, a política urbana falhou, a moradia digna não aconteceu, a prevenção foi negligenciada, a informação não chegou, o alerta não foi compreendido e o território atingido foi tratado como “mais uma triste estatística” e não como vida desprotegida e sem segurança.

Por isso, sirenes e alertas, isoladamente, não salvam vidas. Muitos especialistas apontam, inclusive, simulações irreais de evacuação feitas pela Defesa Civil, que ignoram o cotidiano das pessoas, suas condições físicas, a característica dos terrenos (íngremes, por exemplo) e a real capacidade de resposta da comunidade.

Alertar sem preparar, alertar quando já não é mais possível resolver o problema, gera apenas a ilusão de controle — e reforça a naturalização da tragédia.

Gestão de crise não é discurso reativo. Não é coletiva de imprensa após o desastre. Não é nota oficial depois do colapso. É agir, enquanto é tempo, na gestão de riscos.

João José Forni, um dos mais conhecidos especialistas no tema, sempre lembra que gestão de crise é gestão de riscos antes da tragédia. É planejamento, prevenção, investimento, regulação, fiscalização, política pública estruturada e comunicação contínua, clara, responsável e centrada no cidadão — como exigem a Constituição e as leis que zelam pela vida.

Quando o Estado naturaliza a morte, a crise deixa de ser exceção e vira um padrão onde, normalmente, depois de um ciclo agudo de ira e indignação, o tema sai de pauta, mas o risco continua latente – à espera de novas e inocentes vítimas.

Um país que transforma a morte em rotina já não vive apenas uma crise de gestão. Vive uma crise ética, política e civilizatória que requer resgatar o valor da vida como fundamento da convivência em sociedade, princípio estruturante das políticas públicas e critério central de legitimidade das instituições do Estado.

 

Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Professor de Pós-Graduação da PUC-Minas. Idealizador e um dos autores do Guia de Comunicação Pública, da Associação Brasileira de Comunicação Pública, entidade na qual é vice-presidente. Foi diretor de comunicação e marketing do Banco do Brasil, coordenador do núcleo de comunicação da Secretaria de Comunicação da Presidência da República e chefiou a comunicação da Autoridade Pública Olímpica, na Rio-2016. Diretor da Conexão Pública e coordenador técnico do Projeto Legado de Brumadinho da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, Brumadinho/MG